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26 de ago de 2014

Encontro na UnB discute a produção afro-brasileirae a discriminação


A jornada também celebra o centenário de nascimento de Carolina Maria de Jesus

Publicação: 25/08/2014 08:03 Atualização: 25/08/2014 08:45

Escritora Cidinha da Silva: temáticas de autores negros são negadas (Pierre Gentil/Divulgação
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Escritora Cidinha da Silva: temáticas de autores negros são negadas
Foi a demanda dos próprios alunos que motivou a professora Regina Dalcastagnè, do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB), a criar a Jornada de literatura afro-brasileira contemporânea, cuja segunda edição ocorre hoje, no auditório do departamento. “Tem muitos estudantes negros entrando na UnB e na pós-gradução. Eles estão mostrando o interesse sobre a produção de autores negros e esse é o momento de trazer pessoas de fora e colocar o tema em discussão, porque não é um tema que tenha muito espaço”, diz Regina. “Isso é resultado da abertura da universidade aos pobres e aos negros e as cotas têm a ver com isso.”

A jornada também celebra o centenário de nascimento de Carolina Maria de Jesus, escritora mineira, considerada uma das vozes literárias no campo da memória da comunidade negra brasileira mais importantes da primeira metade do século 20. A programação da Jornada está dividida em seis mesas de debates com convidados que têm o nome ligado ao esforço de trazer a produção literária assinada por afro-brasileiros para o universo da literatura geral.

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Os três debates marcados para a manhã desta segunda-feira (25/8) reúnem as escritoras Ana Maria Gonçalves e Cidinha da Silva, o pesquisador Eduardo de Assis Duarte e o poeta Michel Yakini para falar sobre o romance afro-brasileiro e a literatura de periferia. Para Yakini, co-fundador do Coletivo Literário Sarau Elo da Corrente — encontro realizado em São Paulo —, as grandes editoras brasileiras pouco se interessam por autores negros, o que leva à invisibilidade de uma produção rica. “É um reflexo da estrutura social discriminatória em que os escritores(as) negros(as) não fazem parte do sistema editorial. Não temos editores negros em grandes editoras, não temos grandes editoras chefiadas por negros, existem também poucos críticos literários negros”, repara o poeta. “Além disso, essas editoras veiculam seus trabalhos para um segmento de leitores que não contempla a comunidade negra. Portanto, dificilmente haverá uma movimentação no mercado editorial que se preocupe com esses autores.”

Confira a programação completa da II Jornada de literatura afro-brasileira contemporânea

Leia entrevista completa com Michel Yakini 

Há muitos autores negros escrevendo e publicando em editoras independentes, mas eles não estão nas grandes editoras. Na tua opinião, o que isso reflete?

As editoras graúdas pouco se interessam por escritores e escritoras negras.  Essa invisibilidade é reflexo de uma estrutura social discriminatória em que os escritores(as) negros não fazem parte do sistema editorial, ou seja, temos autores (as), mas não temos editores negros em grandes editoras, não temos grandes editoras chefiadas por negros, existem poucos críticos literários negros. Além disso, essas editoras veiculam seus trabalhos para um segmento de leitores que não contempla a comunidade negra. Portanto, dificilmente haverá uma movimentação no mercado editorial que se preocupe com esses autores. Outro fator importante é pensar o quanto esse mercado editorial resiste em dar evidência ao imaginário, a linguagem, as personagens, ao eu-lirico e a um discurso que a cultura negra seja protagonista, pois isso desmonta a vitrine cordial que essa estrutura se baseia para invisibilizar ou apresentar de forma exótica o negro brasileiro nas páginas literárias.

A voz do negro na literatura pode ser considerado um fato recente? E o que isso implica?

Se analisarmos em questão de números, nos últimos quarenta anos surgiu um maior número de escritores (as) negros. Porém há casos mais pontuais publicando desde século XIX e do início do XX, como Cruz e Souza, Luis Gama, Machado de Assis, Auta de Souza, Lima Barreto e Lino Guedes. A primeira mulher a publicar um romance no Brasil foi a escritora negra e maranhense Maria Firmina dos Reis, com a obra Úrsula, e isso é pouco reconhecido. Depois vieram Solano Trindade, Osvaldo de Camargo, Carolina de Jesus, Carlos de Assumpção e a geração de 78 que muitos se destacaram a partir da série Cadernos Negros, como: Cuti, Miriam Alves, Abelardo Rodrigues, Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa e Geni Guimarães. Mas é preciso contextualizar um passado escravista em que os negros(as) eram proibidos de ir a escola, por exemplo, e por isso pouquíssimos dominavam a escrita, e mesmo os que sabiam escrever enfrentavam condições de vida precárias, algo nada favorável ao fazer literário. Porém, essa voz vem aumentando a cada década, mantendo aceso os versos e histórias orais que nunca nos faltaram e consolidando uma produção escrita, quem vem atraindo a atenção de pesquisadores, leitores e educadores, contribuindo para quebra de alguns paradigmas literários, mostrando que a literatura pode ir além de um fazer de poucos, provando que existem bons escritores negros (as) e de que é possível considerar uma perspectiva de Literatura Negra.

Na literatura de forma geral, há pouquíssimos personagens negros. Por que?

A maioria dos escritores que publicaram suas obras e conseguiram veicular com destaque, como bem mostra a pesquisa realizada pela Professora Regina Dalcastagnè, fazem parte de um segmento bem definido, ou seja, são na maioria: homens, jovens, brancos, cristãos, heterossexuais, graduados, enfim. Não há como questionar a capacidade criativa desses escritores, mas é preciso considerar que suas obras dialogam com sua experiência cultural, de vida e de sua observação como artista. Portanto, no imaginário desses escritores os personagens negros não existem ou ocupam um lugar bem demarcado, com posições subalternas, de serviçais, de personagens sem nome, que são descritos por características estereotipadas, ou que não tem uma linha familiar na história, surgem e somem do nada em uma narrativa.

A construção da identidade passa pela literatura? Como?

Sem dúvida, a literatura contribui para nossa formação como cidadão, pois cumpre o papel de mediar a realidade e também de alimentar nossa capacidade de invenção e imaginação, por isso é fundamental que possamos ter acesso a obras que contemplem o máximo de diversidade e possibilidades narrativas e poéticas. Essa questão é fundamental quando pensamos na questão étnico-racial, pois a ausência de personagens negros, ou de protagonistas, eu-líricos, mitologias que dialoguem com a cultura negra não cria referencias positivas desse imaginário e expõe essa realidade de forma violenta. Uma criança que inicia seu letramento e não tem acesso a uma história que pareça com o que ela vivencia, com ela própria ou mesmo a mostra em posição inferiorizada, é prejudicada em sua formação e isso deixa sequelas negativas em sua identidade.

A escrita de Carolina Maria de Jesus é importannte para você e para o teu trabalho?

Sim, primeiramente pelo fato de ela produzir uma escrita que dialoga com meu fazer, pois ela é uma escritora negra que escreve a partir da margem, da favela, ou seja, do Quarto de Despejo. Muito da poesia, da linguagem e do espaço que ela escreveu ainda é bem presente nas periferias paulistanas e é fonte viva da minha escrita. Me identifico com a Carolina, por ser um escritor negro da periferia de São Paulo e por ser fã da sua escrita, pois acima de tudo Carolina nos deixou uma obra de qualidade, de uma narrativa poderosa, que tem cheiro, tem cor, é pulsante, poética. Isso confirma seu talento e todo sucesso que sua obra rendeu, apesar das contradições vividas por ela por representar um perfil fora do padrão para um escritor renomado, até então.

Existe mais poesia do que ficção sendo produzida por autores negros? E o que isso significa?

Sim isso é fato e pode ser por vários fatores. Poucos escritores negros(as) conseguem se dedicar exclusivamente a literatura e por isso sentem maior dificuldade de trabalharem uma obra como um romance, e acabam se dedicando mais a poesia e, em menor grau, aos contos, pois esses gêneros exigem um trabalho mais pontual, que não necessariamente tenha uma ligação entre um texto e outro, mas que também geram boas obras. Outro fator é pela poesia representar um gênero marginal, que é pouco publicado no mercado editorial, e nada mais coerente que uma literatura feita por escritores marginalizados produza o gênero que mais se aproxima de sua realidade, é uma forma de ir à contramão da estrutura predominante. Mas acredito também no fato da Literatura Negra ser muito alimentada pela oralidade, pela declamação, pelo verso de improviso, pela contação de histórias, ou seja, por formas de representação da palavra que sempre esteve nas comunidades negras e que emergem na palavra escrita dos escritores(as).
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