Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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18 de nov de 2014

Crônica de Mariana Assis


"Espero que o povo negro não recue diante das ameaças e dos discursos condescendentes e vozes suaves que tentam nos convencer de que mulheres negras vulgarizadas, blackfaces, homens negros criminosos e viciados, ausência total de famílias negras, etc é apenas arte, licença poética, liberdade de expressão e o diabo. Não podemos aceitar mais piadas, assédio sexual disfarçado de elogio ou qualquer outra forma de nos colocar de volta nas senzalas culturais em que o racismo à brasileira nos mantém encarceradxs."
Estamos em momento bastante delicado para o Movimento Negro e as mídias. Parece-me que a liberdade e capacidade de expressar ideias e mobilizar lutas que a internet vem nos oferecendo está incomodando mais do que imaginávamos. Enquanto estávamos nos revoltando contra Neymares e Pelés da vida, ou seja, contra os nossos, tínhamos uma gama de progressistas de esquerda ao nosso lado, lutando contra o racismo e empunhando nossas bandeiras. Mas agora a capacidade de mobilização negra nas redes sociais chegou à Casa Grande e aí já é vandalismo!! Agora a luta é contra o inimigo de terno e gravata que garante emprego e rendas gordas para esses mesmos progressistas.
Estamos vendo uma verdadeira campanha em defesa de Miguel Falabella e sua série de mal gosto e preconceituosa. Ouvir Jean Wyllys defender o seriado e tentar mostrar ao MN o que é ou não racismo, foi de cortar o coração. Ainda mais com o argumento de que Falabella não é racista, pois oferece espaço para negros em seus trabalhos. Ainda devemos agradecer por sermos faxineiras ridicularizadas, cabelereiras que alisam cabelos crespos e os ridicularizam, mulheres vulgares e sem futuro??? Acho que não!!! Ou pior ainda, disse que não soubemos avaliar a série, pois não vimos os episódios. Vimos e não gostamos mesmo, nem estética, nem politicamente, mas somente o título já foi ofensa suficiente.
Para arrematar, colocaram Camila Pitanga, uma das poucas referências sérias de mulher negra que temos na TV, para fazer coro com outra raridade, Sheron Menezes (que já andou papagaiando auditórios racistas em outras ocasiões) e defender uma série que, sequer, assume as quatro negras como protagonistas. Seria melhor se ele tivesse dado outro nome e centrado a série na vida sexual de uma mulher pobre e de meia idade, a verdadeira protagonista da história Jesuína (Cláudia Jimenez), única personagem bem construída da história. Dizer que as negras são as protagonistas é um misto de oportunismos: por um lado explora seus corpos para atrair, pelo apelo sexual, o público que verá a história de Jesuína e por outro tenta parecer generoso e um combatente do racismo ao dar esse suposto protagonismo às negras.
Acho triste ver tanta gente inteligente transformando nossa luta em uma batalha moralista e, até mesmo, ditatorial (Ditadura é a palavra da vez, estão disputando quem entende menos seu sentido). Tentando nos colocar na posição de censores de pobres humoristas que apenas reivindicam o direito de humilhar e degradar publicamente grupos sociais inteiros para garantir diversão e a dose diária de alienação necessárias à família brasileira.
Espero que o povo negro não recue diante das ameaças e dos discursos condescendentes e vozes suaves que tentam nos convencer de que mulheres negras vulgarizadas, blackfaces, homens negros criminosos e viciados, ausência total de famílias negras, etc é apenas arte, licença poética, liberdade de expressão e o diabo. Não podemos aceitar mais piadas, assédio sexual disfarçado de elogio ou qualquer outra forma de nos colocar de volta nas senzalas culturais em que o racismo à brasileira nos mantém encarceradxs.
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