Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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19 de nov de 2014

Sobre o velho seriado que se pretende novo e inovador


Por Cidinha da Silva

Estou totalmente atribulada com viagens de trabalho - divulgação do livro "Onde estaes Felicidade?" - organizado por (Dinha Maria Nilda) e Raffaella Fernandez, composto por inéditos de Carolina Maria de Jesus e 7 ensaios sobre Carolina e sua obra. Cumpro também minha própria agenda literária, passei nos últimos dias por Redenção - CE, São Luís, Salvador, Vitória, Brasília, São Paulo, Cachoeira - BA, e vou ainda para o Rio de Janeiro e volto a Salvador para fazer a conferência de abertura da III Kizomba - Seminário de Juventudes Negras na UNEB.  Durante as viagens, nos dias que passo no escritório, finais de semana e madrugadas, concluo organização de um livro que tem 48 autores e autoras, 38 textos, exercícios de proposição de políticas públicas para a área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, pensadas pela ótica das africanidades e relações raciais. Além disso, participo da comissão de sistematização que está escrevendo a versão final do "Plano Setorial de Cultura Afro-Brasileira". Ou seja, estou ocupada em fazer história e sem tempo para me deter no famigerado seriado racista que se pretende novo e inovador.

É óbvio que as amigas que têm se ocupado em escrever sobre os desdobramentos da história, a exemplo dos vídeos de atrizes e atores negros em defesa de Falabella, autor do seriado, o fazem porque se desdobram em mil e arrumam tempo para continuar escrevendo sobre essa chatice. Então, em deferência a essas mulheres, também escreverei algumas cositas aqui, mesmo muito cansada e triste com tudo isso. Em larga medida, devo repetir o que várias delas já disseram, acrescentando uma linha ou outra. Não há nada original no que vou dizer, mas, vou falar, vamos lá:

1 - Decidi não mais mencionar o nome do tal seriado, além de não assisti-lo (nunca assisti, acredito na força do boicote), porque creio na força da palavra e acho que estamos ajudando a dar sobrevida a esse troço ao nominá-lo. É nítido que toda essa celeuma é porque os índices de audiência devem estar baixos, o boicote está funcionando, a formação da opinião pública também. Ou seja, as bases da casa grande estão estremecidas.

2 - Acho incrível esse novo argumento de que a crítica ao seriado, à postura do autor, à trama falaciosamente protagônica de mulheres negras (confio na opinião das amigas que têm se dado ao trabalho de assistir e analisar o programa) seria um tiro de escopeta no pé. É compreensível que que queiram nos fazer crer que o tal autor é mesmo um redentor de artistas negros na TV. Talvez seja, mas a gente aqui, do lado de fora da telinha, tem todo o direito de não gostar disso, de não compactuar com esse joguinho de compadrio branco a negros de recado. Como Ana Maria Gonçalves já salientou, esses artistas estão fazendo o papel esperado dos negros protegidos ou beneficiados pelo branco bondoso em suas manifestações de apoio a ele. Mas não é admissível que queiram que compactuemos com os segredos opressivos vividos pelos artistas negros no maior canal de TV do país sem que saibamos do que tratam. Só esses mistérios justificariam o tal tiro no pé, além de uma confiança totalizante que deveríamos ter nesses artistas e em seu silêncio (sobre as agruras do mundinho global). Tenham coragem! Ponham na roda, abram o jogo. Talvez a exposição do que acontece internamente seja algo saudável. Embora todos saibamos (vocês e nós) que vai todo mundo para a geladeira e que, para cada negro refrigerado haverá pelo menos dez, prontos a ocupar o espaço. Do lado de cá, sabemos que o mar não está para peixe e ninguém quer perder o lugar conseguido a duras penas no trabalho e, para alcançar tal objetivo, serão feitos concessões e pareamento ideológico para subir um degrau na escala global.

3 - É insustentável o argumento de que não se pode criticar o autor do seriado porque "ele não é racista." Ora, bolas! Eu sou negra e tenho legitimidade para dizer uma série de coisas sobre o mundo negro. Escolho dizê-las pela literatura, mas, a legitimidade para falar não garante que meu texto seja bom. Uma pessoa, pretensamente não-racista, pode, obviamente, cometer discriminação racial e, sim, reproduzir estereótipos e estigmas racistas. A afinar nosso instrumental crítico  pelo diapasão da essencialização do indivíduo não-racista porque é nosso amigo e confiamos nele, absolveríamos os assassinos de mulheres que mataram apenas uma mulher porque eles só mataram uma, não mataram outras antes daquela. Eram homens bons (a mulher morta é que deve ser má e deve tê-lo corrompido).

4 - A alta rentabilidade da engrenagem racista brasileira se vale, dentre outros combustíveis, da desqualificação da opinião das pessoas discriminadas. Só isso justifica o fato de que, pessoas despolitizadas e outras politizadíssimas, como Jean Wyllys, achem-se avalizadas a dizer que quem não gosta do tal seriado, discorda dele, critica o autor e aponta o racismo na estrutura do programa e na trama, sofre de falta de discernimento. Quem essas pessoas pensam que são? Deus??? O Deus branco ou embranquecido que sabe o que é melhor para as pobres negrinhas? Esse mesmo Deus coloca as barbas de molho e não diz como deve agir o Movimento LGBT, nem o MST, para citar apenas dois movimentos sociais, aos quais se autoriza que tenham voz própria. Àquilo e àquelas que o racismo e a branquitude entendem como movimento negro, eles se dão o direito de dizer como agir, o que pensar e como atuar politicamente. Por quê? Porque infantilizar a pessoa negra contrária ao status quo, destituí-la de sua criticidade e de seu protagonismo, é óleo fundamental para garantir o alto funcionamento da engrenagem.

Enfim, é o que me ocorre. E que termine logo a temporada da série e não volte mais por força da pouca audiência e do descontentamento gerado no público. Tenho certeza de que daqui a alguns anos, quando o protagonismo negro estiver ainda mais fortalecido, as queixas de hoje serão simplesmente, assimiladas, incorporadas e a trama será refeita para não perder a audiência, como acontece com as novelas. É apenas mais uma uma novela. O problema é que esta novela acordou a força reativa daquelas pessoas, cujo papel, é apenas o de assistir a novela passiva e acriticamente. E a casa grande insiste em não sair de cena. E não sairá por vontade própria, tudo é muito cômodo para seus herdeiros e, infelizmente, os serviçais também estão acomodados. Mas, como disse o poeta, faremos Palmares  outra vez, a despeito de vídeos contrários no you tube, postados por artistas negros, em pleno mês da consciência negra.
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