Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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25 de dez de 2014

Na terrinha


Por Cidinha da Silva
Depois de acomodar a mala no táxi e do primeiro minuto de corrida silenciosa pergunto ao motorista: "tem chovido"? "Tem, não!" Ele responde. "Qué dizê, não chuveu muito hoje. Agurinha messs chuveu, mas agora num tá chuveno"...
Como o leitor e a leitora percebem, disso eu sabia, não chovia naquele momento e parecia não ter chovido antes porque estava tudo seco, sem aparência de chuva, por isso fiz a pergunta. Mas é que mineiro tem de dois tipos, o falante e o caladão, sendo que as duas personalidades podem se alternar na mesma pessoa. O primeiro tipo é aquele que você visita num domingo, se despede dele e vai para o ponto do ônibus. Você fica 40 minutos plantada no ponto e só passa um ônibus para o metrô. Você quer ir para o centro da cidade por cima da terra, está encasquetada com a vida urbana de tatu. Então, seu anfitrião aparece na varanda e solta um ingênuo "uai, cê tá aí ainda?" "Tô, o ônibus pro centro ainda não passou". "Uai, o ônibus não passa hoje não." "Como assim?" "Não passando, uai! Só tem ônibus pro metrô". "Uai, mas você não me avisou!" "Uai, ocê não perguntou"...
O senhor ao volante era falastrão ou estava em momento de língua solta, não se sabe. Sem mais perguntas ele continua: "esses dia pa trás aí chuveu tudo, teve dia de chuvê forte, mas forte, forte memo num foi, num inundou nada por aí afora". "E será que no dia 24 cai chuva? Ano passado choveu". "Chuva, ocê chama aquil'ali de chuva? Aquilo foi um pé d'água, São Pedro tava com a vó atrás do toco".
Eu rio solto e a viagem prossegue. De repente o motorista emite um gritinho espantado: "opcevê!" Eu olho na direção apontada pelo queixo dele. Não vejo nada demais, mas é prudente não comentar, haja vista que "opcevê" sinaliza coisas gritantes e é óbvio que você, mineira destreinada, é que não está enxergando o que salta aos olhos. Prescreve a etiqueta da boa convivência com mineiros que você deve exercitar princípios budistas, ou seja, observe, cale e reflita antes de emitir uma opinião. A depender da conclusão é prudente manter o silêncio. Mineiro é bicho armadilhoso, sempre te espera na curva.
Como não concluí nada que valesse a pena ser dito, me mantive muda e o homem explicou: "olha, moça, eu vou te falar procê um coisa, esse tempo de natal me dá uma gastura; é uma abraçação de cobra coral, tudo aque'as cobrinha pequenininha e colorida. O fulano põe pra lenhá incima docê o ano inteiro e chega no 25 de dezembro vem desejá feliz natal. Ôh raiva que me dá."
Eu continuo sem saber para o que é que ele apontava e o sinal já vai abrir, será que ele não vai contar? "É uma hipocrisia, minina, natal é hipocrisia! Num diz que é aniversário de Jesus Cristo?" Ele se vira para trás e me pergunta. Eu respondo diligente: "é, é sim!" "Então, ocê me explica u'a coisa, pra que tanto pisca-pisca? Parece que é aniversário de Thomas Edson, sô!"
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