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4 de fev de 2015

Musashi e Spider

por Cidinha da Silva

Mais uma luta do Spider, o campeão volta ao tatame e os meninos ressentidos entram em ação. Às vezes penso que o Santo Antônio deles é um ídolo do esporte, tratado (e torturado) como familiar ambiguamente amado.

O Santo é amarrado, posto de cabeça para baixo, afogado em penicos, toda a sorte de malvadezas para que cumpra o dever de conseguir casamento para a dona da imagem.

Com os esportistas, no plano simbólico, é a mesma coisa. Ai do atleta que não corresponder aos instintos, às táticas (neste caso de luta) ou, simplesmente, aos desejos dos fãs. A resposta é tortura verbal certa. Uns poucos são sinceros, assumem que se tornam rancorosos com ídolos que os decepcionam.

É um perigo ser ídolo. Gente sempre se decepcionará com quem não atende suas individualistas expectativas. Dessa forma se sentiu decepcionado o poetamigo que se aproximou de mais um artista e concluiu: “quanto mais conheço artistas na intimidade, mais quero ficar perto dos meus amigos ‘peão de obra’.” E como ressoou sua declaração! Muita gente aplaudiu e concordou. Ainda bem que houve outro poeta, artista como eu, como o poetamigo, como os artistas que o frustram por quererem ser algo diferente do comum, que se opôs à voz unificada e argumentou que “tem-se uma ideia muito errada do artista, considerado quase um Deus, por muita gente. Eu, por exemplo, artista da palavra que sou, não faço a menor questão de agradar ou de ser simpático. Isso tem muito de subserviência (ao público, à imprensa, ao status quo). Quem quiser que leia minha literatura que não é feita para fazer amigos. É para inquietar e para o meu prazer, só isso. Sim! Sou apenas escritor.”

Corria frouxo o remi-remi de fã frustrado com ídolo que o desaponta até que alguém critica uma tática de luta do Spider que teria aberto a guarda, humilhando assim o adversário. O interlocutor discorda e menciona a luta entre Musashi e Seijuro, na qual o primeiro teria aberto a guarda para desestabilizar o segundo e quando este investiu confiante, aquele, já prevendo o golpe, o teria liquidado, como acontece tantas vezes também na Capoeira Angola.

A conversa então ficou interessante, onde é que Musashi lutou com Seijuro? No livro que li e que diante do solo arrasado da batalha de Sekigahara o narrador poetizava: “E depois de tudo, céu e terra aí estão, como se nada tivesse acontecido. A esta altura, a vida e as ações de um homem têm o peso de uma folha seca no meio da ventania...”, não foi. Mas também não pode haver dois Musashis, meu herói é único. Onde teria ocorrido esta batalha que não li?

Musashi é o romance épico que mais me arrebatou até ontem. Quando faltavam umas 100 páginas para terminar a leitura, eu que lia 20, 30 páginas por dia, passei a ler duas (achando que estava rápido demais). Para as últimas 10 páginas devo ter levado uns 10 dias e quando, finalmente, fechei o livro, não pude acreditar. Como? Otsu foi vencida pelo destino reservado às jovens virgens do período Keicho, foi arrastada pela velha Obaba para cuidar dela até a morte e assim Obaba matou meu sonho romântico de que Otsu vivesse a prometida história de amor com Musashi?

Finda a leitura, deixei o livro bem à vista (não consegui devolvê-lo à estante) e olhava para ele todo dia como se assim pudesse convencer Yoshikawa a enviar para a editora capítulos psicografados da história para que ela não terminasse, para que vivesse e me mantivesse acordada por mil e uma noites. Os deuses de Musashi ouviram minhas preces, organizaram em resposta uma nova luta do Spider e, graças ao burburinho em torno dela, descobri que existe o volume azul, onde acontece a batalha de Musashi e Seijuro.

Eu não assisto suas lutas Spider, não sou devota de você, nem de Santo Antônio, mas continuo admirando os sentimentos bons que você desperta na gente achatada que o enxerga como vingador altivo, leal e de bem com a vida. Admiro a família negra que você constituiu. E te devo mais essa, malungo. Musashi só voltou para mim porque devotos do UFC estavam malhando o Judas. Valeu, Spider! Boa sorte no tatame e fora dele.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.
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