Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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17 de mar de 2016

A africanidade e o espírito libertário de Alzira, vivos em nós!


Por *Cidinha da Silva
A narrativa do romance de estreia de Goli Guerreiro, Alzira está morta, premiado no concurso João Ubaldo Ribeiro, tem três aspectos centrais: é informativa, transatlântica (conceito de Beatriz Nascimento) e bela.
A informação fundamentada na pesquisa e na escrevivência (conceito de Conceição Evaristo) da autora, e o trânsito pela África Ocidental e pela Diáspora Negra cobrem 80 anos da história cultural de Salvador, povoam o livro desde a primeira página. A beleza, entretanto, cresce à medida que a antropóloga cede lugar à escritora.
A autora está na contramão da vasta pesquisa de Regina Dalcastagné sobre o romance brasileiro (1990-2004). Os resultados destacam a autoria de homens brancos e heterossexuais, entre 30 e 40 anos e residentes no Sudeste do país. Personagens centrais homens, escritores ou jornalistas, imersos em dilemas existenciais da classe média.
Goli Guerreiro é mulher, lésbica, entrou há pouco na casa dos 50. É soteropolitana e vive em Salvador. Em comum com os autores recenseados por Dalcastagné, apenas o pertencimento racial.
A leitura do livro, entretanto, nos mostrará que a autora branca não esbarra em estereótipos e questões éticas. Ao contrário, percebe-se a tensão racial na postura de Alzira na relação com as personagens brancas e a presença crítica (e irônica) da autora. À página 191, por exemplo, Alzira, desconfiada, recebe uma pesquisadora e temos o seguinte: (Alzira) Preferia que você fosse negra. (Lucila) Eu também – disse a moça, encarando-a com discreto sorriso.
Alzira é arquétipo de múltiplas mulheres libertárias que inspiraram a autora: Lélia Gonzales, Zora Hurston, Dete do Ilê Ayê, Arany Santana, entre outras. Transnegressora (conceito de Arnaldo Xavier), como todas as Iabás, como filha de Ewá. Faz a primeira viagem a Lagos, Nigéria, na década de 1930, para cumprir um desejo da mãe e quem sabe lhe dar netos legitimamente nagôs.
A autora prefere chamar as partes do livro de frames, ao invés de capítulos. Acrescentaria que Alzira mesma é um frame, uma borda firme e bem delineada que nos permite vislumbrar as águas do Atlântico e por elas navegar com o apoio do arco-íris como caleidoscópio de vozes, texturas, sabores, imagens, tranças econômicas e conhecimento tecnológico transatlântico.
As imagens de Alzira em diversas faixas etárias, de seus pais, das paisagens urbanas visitadas, dos artefatos e fotografias, bem como os textos de contextualização histórico-cultural no início de cada frame, são marcas significativas de uma narrativa ágil e convidativa. Porém, algumas passagens mereceriam mais literatura e menos antropologia.
Alzira está morta é amálgama de africanidades, espírito libertário e protagonista de mulheres pouco ouvidas e compreendidas em sua complexidade na História, mas que existiram. Existem. São nossas preciosas ancestrais reveladas pela singular Alzira.
*Cidinha da Silva é escritora, autora Racismo no Brasil e afetos correlatos (2013), entre outros.
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