Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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23 de abr de 2014

Uma carta de amor

Por Cidinha da Silva



O amigo Cláudio, pérola recifense do Morro da Conceição, tem o hábito saudável de discordar dos poetas consagrados. É valente, o cabra. Só quem tem muita coragem e flor no coração discorda amorosamente de Solano. Porque sim, poeta da liberdade, negros opressores, em qualquer parte do mundo são (também) irmãos do Cláudio (e meus), pois, ainda que não os admiremos, tampouco os sigamos, pertencemos à mesma comunidade de destino.

O poeta da vez é Pessoa e as cartas de amor ridículas, todas. Cláudio não pensa assim e escreve uma carta de amor amorosa para Joana, dessas tão intensas que uma vez escritas pelo amante e lidas pela pessoa amada, jamais conseguiram ser guardadas ou esquecidas. Uma carta de amor tão intensa que depois de recebida precisasse ser vivida; trazida consigo, aberta mil vezes e mil vezes relida.

Não sendo ridícula, a carta de amor que Cláudio teria escrito para Joana, não buscaria clichê; não seria apelativa, tão pouco, démodé. Seria uma carta curta. Um corte de punhal, que fere como quem furta. De leve, tão breve que não passaria do preâmbulo, mas que diria tudo de modo tão claro. Uma carta tão plena de significado e tão satisfatória, que não precisaria ser concluída.  Se ele escrevesse essa carta de amor para Joana como desejava, ela, a carta, já no prelúdio, seria um ato de fala feliz para sempre.

A carta de amor que Cláudio escreveu  para Joana, se desprendeu do passado, passou pelo casal e ficou aguardando tranquila a chegada dos dois ao futuro. Era uma carta de amor, sem medos, com destinatário certo, que se lançava no escuro.

A carta de amor escrita para Joana era uma carta de amor mais verdadeira que o amor de onze mil amantes, uma carta que nenhum deles jamais escreveu antes.

A carta de amor, por ser dessas cartas que amante nenhum jamais escreveu, era um tanto repetitiva e seu teor era certamente alcoólico. Não para que ela fosse lida, gota a gota, mas para que ela fosse, letra por letra, absorvida. 

Uma carta sem fim que está para sempre no começo, talvez entre um não e um sim, e lembra a ele, todo dia (como um calendário) que neste amor lendário Cláudio é o destinatário e Joana é destinatária de Cláudio.

E a cronista quando leu a carta lançada ao vento, não teve outra saída senão beber o poema e mimetizá-lo no texto, antes que cedesse ao ímpeto de pedir a mão de Cláudio em casamento. 
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