Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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25 de dez de 2015

Não existe bolha para proteger do racismo

Por Cidinha da Silva


Mais um caso de racismo ganha milhares de curtidas no Facebook, que servem tanto para dizer que se gosta de algo, quanto para dizer que não se gosta, mas acha-se justo apoiar a causa e fazer reverberar o fato ou a reflexão. Também de compartilhamentos. Estes parecem indicar um pouco mais, desejam que mais pessoas tomem ciência daquilo que importa a quem lê e compartilha.

Uma criança negra de nove anos, filha de uma família branca, vai até o balcão de uma loja de doces em um shopping de grife escolher guloseimas, num exercício salutar de autonomia, enquanto mãe e avô brancos a aguardam assentados. Qual não é a surpresa da mãe quando à sua frente uma das atendentes da loja expulsa a filha do local, sob alegação de que ela não poderia “pedir ali, não poderia incomodar as pessoas”.

A mãe reage, grita com a atendente e talvez tenha lançado mão de sua superioridade de classe para colocar as coisas nos devidos lugares e proteger a filha negra de um episódio racista. Sim, episódio, porque, segundo a mãe, a filha negra que integra família de boas condições econômicas nunca sofrera racismo antes e vive em uma “bolha”. Entretanto, a mãe indaga solidária e indignada, “e as outras crianças negras que não gozam dessa proteção”?

Ora, as outras estão tão expostas quanto a menina discriminada da narrativa. A bolha não existe. Ela é criada pela ilusão de quem julga ter poderes para impedir a ação do racismo, de eliminá-lo pela boa educação, acesso a bens culturais e poderio econômico, oferecidos aos filhos negros.

A atendente discriminadora se esconde. Terá sorte se não perder o emprego. Em qualquer país sério no combate ao racismo, ela perderia, mas ali, deve seguir as normas de comportamento da casa em relação a crianças negras, segundo as quais, até que se prove o contrário, são ameaçadoras e esfomeadas pedintes. Acresça-se à receita a moral burguesa do trabalho que dignifica as pessoas, logo, se as crianças negras quiserem comer doces nobres, que trabalhem e arranjem dinheiro para comprá-los.

Todo o barulho feito na Web, principalmente no contexto brasileiro, não significa banalização dos eventos racistas, como podem julgar os apressados e os saudosos do silêncio cúmplice da democracia racial.

Mas, de nada adiantará insistir na bolha ou tratar a pergunta da criança como artifício de retórica e frase chamativa no Twitter.  O desespero da mãe para proteger a filha negra é compreensível, contudo, é imperativo responder de maneira assertiva, corajosa, educativa e íntegra à pergunta da criança, “mãe, isso (ser tratada como criança abandonada, cuja fome de vida estampada no rosto incomoda às “pessoas de bem”) também acontece com os brancos”?
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