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29 de dez de 2015

O selfie de Dieckmann e Casé com as empregadas e o contexto sociocultural das domésticas no Brasil

Por Cidinha da Silva


Quando vi a foto de Regina Casé e Carolina Dieckmann com as quatro trabalhadoras domésticas, na casa da primeira, na noite de natal, ratifiquei minha sensação de que Ana Muylaert, diretora de A que horas ela volta, um dos melhores filmes de 2015, acertou em cheio ao escolhê-la para o papel principal. Regina é a cara do Brasil.
As mulheres populares do país têm muitas caras e a de Regina é uma delas. Não nos surpreenderíamos se ela fosse uma das quatro trabalhadoras fotografadas. O mesmo não aconteceria com Carolina Dieckmann se tivesse sido convidada a protagonizar o filme. Embora a diretora tivesse total liberdade para fazê-lo, seria meio inverossímil ou, pelo menos, sua presença obliteraria o vigoroso debate de classe instaurado pelo filme. Seria algo semelhante à Lucélia Santos representando Isaura, a escravizada.
Creio que aqui começa o incômodo causado pela foto e pelo letreiro. Existe um contexto de hierarquia racial que subjaz à imagem que uma parcela do Brasil não deixa mais passar incólume. Pela razão mesma da resistência a que muitas pessoas brancas de hoje não se sintam herdeiras da casa grande, ainda que desfrutem confortavelmente de tudo o que foi construído pelas mãos, pés e cabeças do povo negro escravizado durante 350 anos e que o racismo tratou de assegurar nas mãos brancas devidamente lavadas.
As quatro trabalhadoras domésticas fotografadas evocam os 77 anos de organização sindical das trabalhadoras domésticas, iniciada por Laudelina de Campos Mello, em Santos, SP, na busca de 34 direitos garantidos à maioria das demais categorias de trabalhadores e que só foram parcialmente atendidos pela PEC das Domésticas em 2013. Evocam os 70 anos de atraso em relação às conquistas da CLT.
Elas nos lembram que existem cerca de 8 milhões de trabalhadoras domésticas em todo o país, incluindo adolescentes e crianças, e destas, em torno de 6 milhões não têm carteira assinada e não ganham sequer um salário mínimo. Mesmo que, provavelmente, as trabalhadoras em tela façam parte dos dois milhões que têm os direitos trabalhistas assegurados.
Não conheço Carolina Dieckmann, mas me passa uma impressão excelente. Gosto dela como atriz e avalio bem suas declarações sobre o ofício, educação dos filhos, sobre sua relação com as personagens. Lembro-me de uma que tinha câncer, perdeu o cabelo no tratamento quimioterápico e num determinado momento (não me lembro se a personagem ou a atriz) foi mostrada raspando os cabelos. Foi uma cena belíssima, comovente. Parece ser boa pessoa, a Carolina, e o mesmo se diz de Regina Casé. Não se trata aqui, de abominá-las porque são patroas. Por outro lado, não há também como isentá-las dos sentidos revolvidos pela imagem porque são pessoas legais.
Ademais, além do contexto sociocultural, há duas questões, o selfie itself e o texto que o reforçam. Esses retratos com artistas têm uma lógica própria. Se uma pessoa qualquer pede uma foto para outra, famosa, e trata de postá-la, pode ser uma coisa inofensiva, tipo, “ei, amigos, vejam quem está do meu lado”. Pode ser também uma armadilha como a que Kim Kataguiri armou para Ney Matogrosso, vinculando-o a uma manifestação pelo impeachment da Presidenta Dilma, fato que levou o artista a classificá-lo como imbecil.
Quando é o artista ou celebridade quem tem a iniciativa de postar as fotos tiradas com fãs, pessoas comuns ou trabalhadoras, como no caso das três senhoras e uma jovem, empregadas ou contratadas por Regina Casé, existem mensagens que essas pessoas querem emitir para seus seguidores. Carolina abraça carinhosamente uma das moças. Regina tem a delicadeza de se posicionar ao fundo. As mulheres-trabalhadoras estão na linha de frente. E, convenhamos, devem estar contentes, porque até prova contrária, as duas artistas são pessoas idôneas, boa gente, e quero crer que mantenham relações trabalhistas corretas com as pessoas que lhes prestam serviços.
Então, qual seria o problema? Por que estaríamos chorando de barriga cheia? Trata-se do bendito contexto, sobre o qual já falei. A gente ainda não se recuperou da imagem das babás negras postadas pela Fernanda Lima e de toda a discussão sobre elas protagonizada pela patroa. Tampouco da filmagem da funcionária ou prestadora de serviço que segurava um guarda-sol para proteger a apresentadora de TV, Angélica, da chuva, enquanto ela própria se molhava. Tão semelhante à pintura de Debret, de um escravizado que segurava o guarda-chuva aberto para proteger do sol o escravizador que urinava na rua. Ainda dói na memória também outra imagem das babás de Fernanda Lima colocando os filhos da patroa dentro do carro e permanecendo na chuva, à espera de outra viagem que as recolhesse.
O texto de Carolina Dieckmann diz muito pela falta: “Aqui, com essas lindezas batalhadoras, que fazem tudo tão caprichado e com tanto carinho, que a gente saiu de lá flutuando de amor”. Fofo! Admita! Mas, a gente é chata e pergunta: qual é o nome das lindezas batalhadoras? Ou isso não tem importância?
O nome das senhoras é irrelevante, como o era o nome das empregadas de Luciano Huck e Angélica que trabalhavam com a família quando o helicóptero que transportava o grupo sofreu uma pane? É isso? Tá bom, tá bom! Era mensagem do Instagram. Precisava ser curta. Afinal, uma imagem vale mais que mil palavras.
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