Bom dia!

Nessa manhã nublada de domingo li, logo cedo, uma resposta de Conceição Evaristo à mensagem grosseira que a acusa de ser uma "celebridade" inacessível por, eventualmente, não ter respondido a um "convite". Conceição, como de hábito, foi gentil, amorosa e atenciosa ao responder. Eu não seria.

Tem uma moçada que confunde (intencionalmente) convite e intimação. Acha que tem poderes para intimar pessoas públicas de compromisso político e ação transformadora inequívocas a participar daquilo que elas julgam relevante. Eu que não tenho bons predicados pergunto logo: "quem é você na fila do pão para achar que pode falar comigo nesses termos"?

A mentalidade colonial tenta se impor sempre ao julgar que as pessoas negras devem ser gratas por tudo, especialmente àquilo que a branquitude considera como "oportunidade". Para piorar tem o fogo amigo que tenta transformar artistas negras acessíveis em bonecas manipuláveis pelo fogo amigo de plantão, ou seja, em coisas a serviço de qualquer projeto do fogo amigo e suas necessidades. É desnecessário dizer que esse tipo de abordagem se destina, especialmente, às artistas negras.

Eu quero que a mentalidade colonial e o fogo amigo morram abraçados, bem longe de mim.

Abaixo, o texto educado, generoso e sábio de Conceição Evaristo.

" Gente boa,
Eu gostaria imensamente de ter o dom da onipresença. Assim poderia responder positivamente a todos os convites. Mas não dou conta não, gente. Por favor, me desculpem as ausências.

Hoje, sábado de manhã, relendo algumas mensagens diante da postagem que falava de minha preparação de cabelo e veste, para assistir a live de Paulina Chiziane, em meio a tantas palavras gentis, me deparo com essa: “Conceição Evaristo celebridade que fica muito difícil aproximação ou fazer convite de presença em evento educativo afro. Lamentável...” Essa mensagem me foi enviada por Jane Marques. Cito o nome, pois a moça fez uma reclamação pública na minha página, logo ela não quer segredo, não quer discrição.

Eu gostaria de saber de onde essa pessoa está falando, ou melhor, lamentando a dificuldade de chegar até a mim. E quero afirmar para ela: Moça, sou feito arroz de festa. Quem me acompanha sabe que eu rodava o mundo inteiro, antes da pandemia. Em março, já no inicio do vírus chegando a São Paulo, por lá estava eu cumprindo o compromisso de 3 eventos. E desde que retornei ao Rio, no dia 12, preventivamente me impus uma quarentena. Portanto estou guardada há 90 dias.

É preciso que diga para essa moça, que eu tenho 73 anos, hipertensa e diabética. E tenho a minha especial menina, Ainá, minha filha de 38 anos, para cuidar. Não vivo só para os eventos, não posso. Estou marcando essa conversa com um tom particular, quase íntimo, para que a moça me ajude a pensar nessa “celebridade” que ela me atribui e que eu agradeço a deferência.

Vou tentar não ser prolixa. Hoje, de manhã mesmo, no calor da emoção, tentei responder à Jane. Enviei uma mensagem truncada, marcada por mil correções e distrações do corretor automático. Essa ferramenta, o corretor, na maioria das vezes torna o nosso texto desconexo, sem sentido.

Seria bom, talvez, que essa moça observasse mais as minhas andanças e presenças. Não sou celebridade, mas tenho pessoas que me respeitam, que me acompanham há anos, primeiramente na área da educação, depois na de literatura, como escritora.

Talvez a Jane Marques não saiba, que nos anos 80, um grupo de professores, liderado pelo Ipeafro, já se reunia em alguma sala da UERJ para discutirmos a representação do negro nas cartilhas e nos livros escolares.

Talvez, ela não saiba também, que sou da geração de militância de professoras como: Maria José Lopes, (falecida) Azoilda Trindade (falecida), Teresa Lirio (falecida), Adélia Azevedo, Vanda Ferreira, Dulce Vasconcelos, Neia Daniel, Jurema Agostinho, Iolanda de Oliveira e tantas e mais tantas, que antes da Lei 10.639, nós já reivindicávamos e impúnhamos os nossos trabalhos nas escolas ou nos órgãos responsáveis pelo gerenciamento da educação no Município e no Estado, sempre pautando as culturas e as questões negras. Nossas ações antecederam muito do que pode ser feito e dito hoje.

Ah, talvez fosse bom informar a moça, de que sou de uma geração que fazia a militância, sem a imprensa, sem pro-labore, sem e sem. Daí a minha formação. Por isso cuido do compromisso que tenho em São Gonçalo, na Faculdade de Nova Iguaçu, no Senegal, em Maputo, em Paris, ou outro lugar, com o mesmo zelo.

Mas o meu recado principal para Jane Marques é um pedido de desculpa. Pode ter passado por mim ou por minha assessoria, duas amigas que procuram profissionalmente me ajudar, algum convite, feito por ela. E saiba, se não lhe respondemos, não foi por desconsideração. Temos os nossos limites humanos. Ela está se vendo, se sentindo como uma pessoa que queria se aproximar e não conseguiu. Ela representa um convite. Recebemos vários, muitos. Acho que faltou à Jane Marques um pouquinho de observação para perceber os vários lugares por onde andamos, em escolas, inclusive.

Quem conhece a Jane Marques, conte para ela, que tenho 73 anos e que não dou conta de tudo e que não me envergonho de assumir as minhas limitações. Ah, lembre também à Jane, que sou humana. Uma humana celebridade, se ela quiser. Portanto, me canso, tenho dor de cabeça, dor de barriga, taquicardia. Tenho medo de andar de avião, tenho horror nas estradas e mesmo na cidade, quando a pessoa da direção de um ônibus ou de carro, no qual me encontro, corre muito. Tenho cansaço, muito, mas tento estar na luta. E espero que ela continue com o mesmo afinco, com o mesmo ardor, que tem me sustentado até aqui, apesar de tudo.



Por favor, gente boa, diga para Jane Marques, (ela deve ser mais jovem do eu, pode ser que tenha idade para ser minha filha ou neta), diga, que precisamos dela. E que ela leve esse bastão, que não é leve." (Conceição Evaristo).

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