Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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23 de mar de 2009

Novidades no sítio da Edições Toró

www.edicoestoro.net "RECITAIS: A singela malandragem, a revolta e a pimenteira dos versos de Akins Kinte, mais o brio, a coberta e as surpresas da Poesia de Elizandra Souza. Com suas vozes, sotaques, ênfase, reticências e exclamações. Com poemas do livro PUNGA e mais inéditos. PESQUISAS: Trazemos as NOSSAS pesquisas na quilombagem da universidade pública, de um povo que não se finca na ilha ou no gabinete pra matutar a experiência e atiçar a ciência: A dissertação de mestrado de Mei Hua, que vem da Vila Cruz das Almas, fundos da zona norte, com o trabalho de pesquisa e prática “A Literatura Periférica na Escola”, apresentado na Faculdade de Educação da USP, em janeiro de 2009. O trabalho de mestrado de Érica Peçanha do Nascimento, quilombela do Jaraguá, que apresentou em 2006 na pós-graduação da Ciências Sociais da USP a dissertação “ Literatura Marginal: Os escritores da periferia entram em cena” E o trabalho de mestrado de Allan da Rosa, pesquisa e prática a ser defendida agora em 02 de abril na Faculdade de Educação da USP, intitulada “Imaginário, Corpo e caneta: Matriz Afro-brasileira em Educação de Jovens e Adultos”. ENTREVISTAS: Movimento Hip Hop e Cinema são os dois temas deste março, cada um com três entrevistados (...) Os entrevistados são Gaspar (Záfrica Brasil), Tiely Queen (HipHopMulher), Mateus Subverso (Posse Suatitude – Edições Toró), Rogério Pixote (Cine Becos e Vielas, diretor de “Dois meses e 23 minutos”, “Laroiê” e “Tá me ouvivendo bem?”), Daniel Fagundes (Integrante do NCA, Núcleo de Comunicação Alternativa, co-diretor de “Videolência”, diretor de “Cosmolho” e “Sonho de Várzea”) e Luiz Barata ( Educador em Cinema e Vídeo, trabalha atualmente na entidade Ação Educativa) É isso aí. Pode sintonizar ou saquear e encher a bolsa digital". Veja trechos das entrevistas: CINEMA PERIFÉRICO: Daniel Fagundes: “Nós passamos pelas oficinas das ONG´s que vieram aqui na quebrada e falaram: ‘vamo colocar uma câmera na mão dos moleques’, e depois acaba o patrocínio e os caras falam tchau, dão um tapinha nas suas costas e já era” (...) “Eu comecei a fazer vídeo-arte justamente pra ver o quanto a estética é política, mano. Pra discutir o quanto a viagem da montagem, do uso da luz, pode dizer muito mais do que ficar escancarando a ferida que já tá escancarada todo dia na mídia. Buscamos reinventar o modelo, e o que esses caras menos querem é que a gente reinvente a roda.”(...) “ No ‘videolência’ pegamos uma pá de gente que tá filmando e que mora nas quebradas e perguntamos: ‘E aí? Em que medida a gente reproduz o que tá na TV?” (...)” E o quanto você experimenta cai também no limite da circulação. O que a gente produz tem a necessidade de ter uma ligação com as pessoas que vão assistir. Nossa sala de cinema primordial é o escadão, é a vielinha, o campinho. E a gente sabe que exibir nesses nossos lugares é a necessidade de encontro das pessoas, com o áudio-visual e com elas mesmas (...) Porém, se a legitimar o escadão como a nossa sala de cinema nós nunca vamos ter uma sala de cinema, confortável, que a gente também tem esse direito”(...) “A produção que a gente faz não tira o espectador da idéia de realidade”. Rogério Pixote fala do documentário “2 meses e 23 minutos”, sobre o acampamento do MTST, aqui em Itapecerica: “O baguio batia na minha janela, por isso fui fazer.E documentário é algo arquitetado mas é sempre uma experimentação” (...) Ali, as mulheres que são as cozinheiras é que comandam a política real do lugar. A política não rola nas assembléias, rola na cozinha”(...) “Minha família é ocupante, vivo em área de manancial, então tava falando o tempo todo da minha vida. Na edição, também era a minha vida que eu tava tentando achar na vida das pessoas”(...) “Toda hora rola um café. Se vai no barraco e não toma um café não rola uma entrevista. Então cê faz da sua câmera a sua xicrinha de café. Cê oferece pra tomar do teu café também, e tudo depende de como a gente adoça esse café, pra não ser muito doce nem amargo.” MAIS: “Circulação praticamente não existe, é muito precária, de mão em mão, de email em email. Não existe circulação nem no cinemão nacional, quanto mais no nosso”(...)“A magia da exibição no escadão, numa quebrada, é a interatividade. É um jogo, tá vivo. O que importa é a própria interferência, e a do público na montagem às vezes é muito mais importante do que o próprio filme”(...) “ Nesse circuito que acontece hoje nas periferias, do Brasil e do mundo, tem algo muito parecido com o que aconteceu lá atrás, nos primórdios do cinema”(...) “Não existe uma ligação, em nada, entre nós e o cinemão nacional”(...) “Os vídeos da periferia estão agora deixando de querer ser o ‘vídeo-cidadão’ pra ser cutucante, autoral, com pegada estética”(...) “A nossa imagem, antes de virar imagem, já é um simulacro total. Periferia: a gente sempre foi o ícone do nada, do lucro, da imagem mais vazia possível. Sempre foi retalho recortado e reconstruído pra vender alguma coisa.E crucial no nosso movimento agora, por exemplo, é o corpo, como ele dialoga com a câmera”(...) “Estudo numa universidade paga e não pago. Eu vou lá na PUC e sei de onde eu sou, que tenho que chegar em casa e fazer a marmita pro dia seguinte. Tenho sempre que trazer de lá pra cá e levar algo daqui.Tenho que viver esse jogo, esse escambo, essa migração de idéias, se não não consigo viver lá dentro nem aqui fora. E você lá não é só mais um. Sua vivência é outra, sua cultura é outra. Chega no fim do ano, enquanto você pensa em fazer algo pra virar um dinheiro, os caras lá vão fazer intercâmbio no Canadá(...)E eu peguei muita coisa boa na universidade, peguei o pensamento de vários caras, juntei com o meu... teoria cinematográfica, semiótica, artística. Isso sem dúvida impulsionou vários pensamentos na minha cabeça, maquinou várias coisas”. Luiz Barata “Nas escolas da zona leste, as intenções nossas eram mostrar pros professores e pros alunos como as imagens são construídas. Quem tá por trás da construção daquilo? Porque muitas vezes as pessoas dão de barato que aquilo é real. E quando as pessoas conseguem se colocar na posição do produtor da imagem, aí rola outra experiência. Se você entende como uma fotografia é tirada, como um out-door é feito, como uma propaganda é realizada, quem as pessoas escolhem pras novelas, quem escolhe as matérias pro jornal nacional, como é construído o texto pra reportagem... quando você entende isso, você consegue se situar criticamente no seu espaço” (...) “A estética que há no cinema nacional de interessante é a de documentário, que traz uma discussão muito grande, não a de ficção” (...) “No cinema dos jovens periféricos, ainda não consigo visualizar uma estética, ver essa estética nova. O que eu vejo é um envolvimento com muitas linguagens: teatro, hip hop, outras atividades artísticas, que trazem outros elementos novos pro áudio-visual que eles estão fazendo. E nem sei se precisa, dessa tal estética nova. Esse negócio de ficar buscando vanguarda... o que acho de interessante é a possibilidade de terem o acesso às produções que são feitas e a possibilidade de produzir”(...) “Nesses grupos vem acontecendo a possibilidade de diminuir a hierarquia e a divisão das relações de trabalho. Nesses coletivos, você tem uma real discussão entre todas as pessoas enquanto estão fazendo um vídeo, alternando funções”(...) “Eu até não vejo problema numa instituição financeira, como o Itaú Cultural, montar seu acervo de vídeo, ganhar seu marketing com isso, e claro, mantendo situações hierarquizadas. O grande problema tá no uso de recursos públicos pra isso e sem nenhuma fiscalização. É um pouco incoerente até, você acessa coisas ótimas lá e, por outro lado, ao mesmo tempo, é uma instituição que cobra mais juros, altas taxas bancárias, nas agências filas de 30 pessoas com 2 caixas pra atender(...) Isso é uma necessidade da empresa de transformar a sua imagem, de dizer ‘ Eu exploro, mas por outro lado eu faço coisas legais’. E isso confunde muito”. MOVIMENTO HIP HOP: Gaspar Záfrica: “Eu vejo o Hip Hop, o MST, o MTST... aí eu visualizo o trabalho da resistência, como a luta dos quilombolas que tão tentando regularizar, reconhecer e intitular suas terras. Vejo as lutas indígenas pra manter as suas tradições. Tudo contra a sociedade escravocrata brasileira” (...) “A cultura Hip Hop é um movimento organizado que com o capitalismo perdeu força em termos de organização, em termos sociais e em termos de cultura mesmo, como algo milenar que é passado de pai pra filho. E o mais difícil nessa parada é fazer com que não se perca o rumo. E a única forma de entender o presente, mudar o futuro é compreender o passado” (...) “Se você não sabe respeitar as tradições, vai acabar na babilônia do capitalismo, seguindo norma e padrão de gravadora, cara querendo modificar e criar forma de mercado. Hoje tem mil formas de fazer sua arte. E você escolhe se quer ser popular ou se quer ser pop! Se quer trocar, fazer escambo e música pro resto da sua vida ou se quer fazer só grana” (...) “Não vamo ficar só reproduzindo bumbo e caixa, sampler de lá de fora, que eu gosto muito, mas aqui, Brasil, a gente tem mais de mil modalidades de canto falado. E através de bumbo e caixa, dos embolador de 30 anos atrás, a gente tenta fazer mistura. E o Hip Hop dá essa visão, de entender que o planeta é meu país e que aqui é meu quintal. Hip Hop é um portal pra outras possibilidades. É a única cultura capaz de pegar o novo, o antigo, o futuro e o inimaginável e transformar e colocar aqui agora. E a base de tudo é africana” (...) “Tenho um trabalho com o Záfrica que eu falo pro mundo e um trabalho com o Ilícito que eu falo pro submundo” (...) “ Meu trabalho gira em torno da obra e não em torno de álbum ou de um milhão que um produtor quiser fazer. Gira em torno da obra e não da sobra. E aí é muita ancestralidade, muito respeito”(...) “ No Nordeste tá o verdadeiro rap brasileiro, o repente brota, os moleques uma hora tão cantando a história do Luiz Gonzaga, o rei do baião, e noutra hora tão cantando um barato de rua”(...)” É preciso cantar nossa riqueza, também. É muito fácil cantar a desgraça, tá cheio de gente vivendo às custas da miséria. A gente tem que cantar a realidade, mas existem muitas realidades. Às vezes o cara precisa de exemplos de vida, da tradição oral, que saia um pouco de uma realidade que tá deixando ele louco, cara!” (...) “O trabalho do Záfrica tem a preocupação de em cada disco contar a história de um grande rei e agora pro próximo, que se chama “O Ritual”, vem a história de Acotirene, da Rainha Nzinga, pra não deixar morrer” (...) “A gente vive o escambo, porque no dia que acabar a moeda corrente só vai sobreviver quem tiver pra trocar”. Tiely Queen: “A mulher no Hip Hop tá mais segura de si. Tá chegando e tá metendo as caras, tá falando eu sei fazer, eu posso. As meninas que tão começando agora, e os meninos também, que tão querendo se envolver, sentem isso. Essa segurança na questão de direitos”(...) “Não tem essa parada de nada se cria e tudo se copia. O Hip Hop sempre traz alguma coisa nova aparecendo. Mesmo que ela tenha por base uma referência no antigo, pra manter uma raiz, manter uma questão de ancestralidade, de espiritualidade, sempre tem ali uma pincelada nova”(...) “Hip Hop tem várias articulações com Educação. As crianças não param de pedir isso e pro professor eu falo que tem que se formar, buscar uma formação dentro do Hip Hop pra poder repassar pra essas crianças. Senão qualquer carro bonito que passar tocando rap, elas vão atrás.E pode ser um caminho sem volta” (...) “A Educação necessita de idéias, de diretrizes novas. O Hip Hop só tem a crescer dentro da Educação. Você pode aprender dançando, aprender grafitando, sempre tem um assunto referente que grafitando você pode aprender... vários, direitos sexuais, direitos reprodutivos”(...) “ A mulherada tá envolvida. Já consegui achar, catalogar, mais de 50 grupos de mulheres, no Brasil” (...) “A mulherada traz versos com temas que os homens não tocam. Juntam os temas que os homens já cantam, com a realidade delas. Falam de falta de ter o que dar pro filho comer, de violência doméstica, falam da questão do aborto. Coisas que nenhum cara vai cantar e que se cantar os outros vão ficar zuando ele. E isso é de um movimento que defende uma coisa mas que na postura não é aquilo que é dito. E isso não é de uma pessoa ou outra, é do movimento” (...) “ “Às vezes, de tanto cantar a realidade da favela, a violência disso ou daquilo, as pessoas que escutam acabam se tornando violentas. É muito estranho isso”. (...) “O Hip Hop tem o que ele traz de contestação e o que ele reproduz de um sistema fechado”(...) “ O potencial de transformação do Hip Hop tá aí: ele tem olho, tem boca, tem cérebro, tá nas atitudes das pessoas” (...) “ Teve uma menina que veio cantar grávida. Falando ‘eu vou, posso passar mal de pressão mas vou cantar no lançamento do meu CD’. Não é qualquer cara que vai ter problema pra cantar dizendo que ta grávido, que tá de TPM. Aí tem muito mais barreiras. Tem mina que não vai grafitar por conta do cheiro da tinta (...) TPM é uma praga, véio” (...) “ São N, X, Y obstáculos que tem que transpor pra apresentar um trampo legal. Mas consegue: acorda mais cedo, dorme mais tarde e faz o trampo”. Mateus Subverso: “Existe sim, ainda hoje, o revide contra o sistema no Hip Hop. Eu me entendi e entendi o Hip Hop a partir deste revide. Foi o que botou a faísca no meu olho (...) e hoje eu entendo um pouco melhor porque o Hip Hop não tem um fim nele mesmo” (...) “Existe um apelo do mercado, ferramentas de um sistema de produção bem sedutoras que conseguiram construir um outro Hip Hop que não tem nada a ver com o Hip Hop que tá se praticando nas quebradas, com as Posses, pro coletivo. E hoje até infelizmente muito pouca gente sabe o significado do que é uma Posse”(...) “A escola oficial não conseguiu trazer muitas coisas que o Hip Hop me trouxe, tanto na produção como na transmissão de conhecimento, tanto na forma de uso como na postura de vida”(...) “A rua é fascinante, traz uma enorme necessidade de sensibilidade, pelas carqueragens, pela beleza... e no livro, na casa de cultura, na net, a intenção na hora que você tá recolhendo, acumulando informações é tentar relacionar elas de alguma forma, e tentar criar algum conhecimento, individual, normalmente e quase sempre numa perspectiva que tá voltada pro coletivo, a projeção é como vou poder colocar isso pras pessoas que dançam comigo. Como chegar lá na rua, na roda depois e transmitir na movimentação do meu corpo esse acúmulo, essa busca que fiz individualmente”(...) “No coletivo, na roda de dança, de verso, de capoeira, tô aprendendo ali pela observação, pelo cheiro, pelo suor, tô entendendo meu corpo, meus limites, minhas resistências, a partir da prática e da outra pessoa que tá ali comigo partilhando” (...) “Eu tenho uma proximidade e uma crescença muito grande com a tecnologia. Esse é o primeiro pavio e as coisas que acenderam ele vieram lá de trás, nos primeiros contatos com o Hip Hop. Olhar pro computador é entender ele primeiro como ferramenta, e a partir daí você consegue espremer ele e tirar o caldo, a seiva. Acho que muitas pessoas olham pra essas tecnologias como uma máquina que vai fazer as coisas pra elas. Aí tá o grande engano, e se cair nessa armadilha a gente vai cair no lance das mesmices(...) Meu trabalho aqui continua sendo Hip Hop pela questão de qual que é o conteúdo que tá se trazendo, a tentativa de sair do marasmo, da martelação que se vê todo dia na TV e no rádio. Isso tem a ver com uma intuição, uma tentativa de outra forma de produzir, de poder sentir, de trazer o afeto pra dentro do material que tô realizando. É ainda uma busca, algo misterioso pra mim ”(...) “Revista Época, Editora Abril e tantas outras aí, eu fico impressionado com a capacidade que elas têm de mentir, mano ”(...)“ A gente no Hip Hop tá se afogando nos padrões, nos ditames, que a estética das grandes emissoras trazem, desde fotografia até vídeo, a maneira como você vai escrever um texto, vai diagramar, as fontes que você vai usar” (...) “ Me marcou bastante foi fazer junto o livro do Dugueto, foi muito louco explorar, estudar as possibilidades da voz chegando no papel, ver o que o papel pode mostrar da voz. Como trazer a performance pro livro? ”(...) “ As Posses são fontes de grupos de estudo, de aproximação com a leitura, da partilha de textos. Não só a nossa Posse, mano. Vai pra São Bernardo, pra Francisco Morato, vai pra Força Ativa lá na Leste com a biblioteca Solano Trindade, pro Aliança Negra, pro Núcleo Rotação, todo esse pessoal estuda pra caramba. E é muito importante, traz muito conteúdo pra sua expressão, pra fazer sua dança, sua música, pro grafite. Isso é que vai ser o fator diferencial da sua produção, mano”.
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