Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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24 de jan de 2010

Ferréz: cronista da periferia

(Por Alejandro Reyes, Jornal A Tarde, 9 de janeiro de 2010). "Há poucos dias houve um evento inusitado: o lançamento de um livro de escritor periférico, primeira publicação de uma nova editora independente periférica, para um público majoritariamente periférico. Trata-se do livro Cronista de um tempo ruim, do escritor, rapper e ativista Ferréz, do Capão Redondo, periferia da Zona Sul de São Paulo. A editora é o Selo Povo, o mais recente projeto do movimento de “literatura marginal” paulista, cujo objetivo é tornar acessível o que sempre foi inacessível para os excluídos: a palavra escrita. O livro vende por R$5,00 e tem distribuição nas favelas e periferias do país. Cronista de um tempo ruim contém textos publicados na revista Caros Amigos, Folha de S. Paulo, Le Monde Diplomatique Brasil, revista Trip e Relatório da ONU. São crônicas que não apenas descrevem, comentam e tornam visível a vivência cotidiana nas periferias do Brasil, mas estendem-se em reflexões sobre o país e o mundo, a partir do olhar de quem está por fora dos discursos hegemônicos. “No início foi o grito”, escreve John Holloway em Como mudar o mundo sem tomar o poder. “Defrontados com a mutilação das vidas humanas pelo capitalismo, um grito de tristeza, um grito de horror, um grito de raiva, um grito de recusa: Não.” Na escrita periférica (marginal, popular ou como se lhe queira chamar) o grito está sempre na origem: a necessidade de narrar, de tornar visível a dor e a indignação. Na crônica “Realidade que Machuca”, Ferréz começa com um diálogo fictício, muito duro, sobre o aborto. Depois o autor explica: “Eu estava bolando o texto há várias semanas, ia ter várias frases que machucam, mas a realidade foi pior outra vez”. Então ele passa a narrar o caso real do assassínio de vários moradores de rua a pauladas. Se por um lado o autor se esforça por construir o texto com elementos capazes de tirar o leitor da sua confortável distância, permanece a angústia de não conseguir exprimir os horrores, muito mais cruentos, do cotidiano. O grito pode tomar muitas formas. Uma delas é a violência aparentemente gratuita que provém não apenas da pobreza, mas, sobretudo, da humilhação cotidiana; a do crime; a dos jovens que preferem morrer cedo com arma na mão e ter os produtos de consumo que supostamente conferem dignidade e respeito. O grito pode até significar a revolta armada, quando todas as alternativas parecem fechadas. “Nada explica a falta de um grupo guerrilheiro que vá para o Senado e exploda tudo, nada explica a cabeça baixa, a humilhação diária aceita por todos”, escreve Ferréz em “Voltei e Estou Armado”. Mas, para os escritores periféricos, a literatura é uma tentativa de transformar o grito em algo inteligível, por um lado, e em opção pacífica para o que, visto da perspectiva das populações periféricas, é uma guerra sem trégua. Trocar os fuzis pela palavra, fazer arma da palavra, “ser condenado por porte ilegal de inteligência”: é esse o desafio explícito na escrita de Ferréz. Nas crônicas em Cronista de um tempo ruim, o autor fala de uma ampla variedade de temas que, lidos em conjunto, dão um panorama global da vida nas periferias e favelas. O desemprego, os valores de consumo, o papel da mídia, o fundamentalismo religioso, as políticas paternalistas governamentais, o tráfico, a violência, a corrupção e o abuso policial. A corrupção, a repressão e a impunidade policial é um dos temas centrais do livro. Em uma conversa informal com Ferréz e outros parceiros na loja 1dasul (marca de modas da favela, projeto de autonomia vinculada ao movimento de literatura marginal), no Capão Redondo, todos eles contaram histórias escabrosas de abuso policial. Ser pobre (e negro) é um crime, que se castiga fora dos parâmetros do sistema jurídico, com a extorsão, a violência ou o assassínio impune. “A única coisa que representa o governo por aqui é a polícia”... o Estado, como provedor de direitos numa democracia liberal, está ausente nas favelas e periferias, fazendo-se apenas presente na forma da repressão. É no contexto desta violência, além da violência econômica e social, que Ferréz interpreta a temática, por exemplo, do crime organizado. A política de mão dura, diz ele, não soluciona nada: “A facção [SPCC] é forte, tem muitos homens, tem muitas armas, tem gente de todas as classes e uma coisa que o estado não tem. Eles não têm medo de perder, porque não têm o que perder.” Para além do conteúdo, a escrita de Ferréz é singular pela própria linguagem. É a periferia se apropriando da língua erudita, transformando-a, virando-a pelo avesso, inserindo nela a oralidade popular e a poesia do rap, como no caso de “Certezas pelo ralo”. É a língua como veículo para a compreensão de realidades díspares, mediação numa guerra de desigualdade, convite ao diálogo, mas, também, interpelação ao leitor e exigência de pensarmos, todos, na responsabilidade coletiva em um sistema em que “ninguém é inocente”. Afinal, se tivéssemos que resumir a proposta do livro, talvez seria na forma de uma interrogação: “Caixinhas, todos somos separados em caixinhas, mas a pergunta é: quem embala tudo isso?”
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