Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de jan de 2010

Leituras recentes

Leio três livros concomitantemente, coisa rara. Gosto de ler um livro por vez. Ocorre que as obras em tela não são ficcionais, então a mistura é possível: o primeiro é “Editores independentes: da idade da razão à ofensiva”, texto do francês Gilles Colleu, publicação da LIBRE – Liga Brasileira de Editores. Trata-se de uma publicação analítica do mercado editorial francês, notadamente do que eles chamam por lá de pequenas e médias editoras. Categorizadas em cinco tipos. Mesmo com muito empenho,não consegui enquadrar a pequena editora pela qual publico, a Mazza Edições, em nenhum dos modelos. As nossas médias (e robustas) são as pequenas deles. Mas é um trabalho interessante, me faz pensar sobre as alianças possíveis entre escritoras(es) e editoras, bem como fortalece a percepção do(a) escritor(a) como o elo mais desprotegido da corrente editorial. A segunda leitura é “O pai dos burros – dicionário de lugares comuns e frases feitas”, do Humberto Werneck, editora Arquipélago. Deveria ser um livro para consulta, mas é dinâmico e divertido, então resolvi lê-lo por inteiro e ligar o pisca-alerta para incorrer o mínimo possível nas frases feitas e lugares comuns. A terceira é uma edição da Paris Review sobre o tema “Escritoras e a arte da escrita”. Dezesseis escritoras, algumas mundialmente reconhecidas, outras reconhecidas no mundo anglo-saxão falam sobre os respectivos processos criativos e obras, dentre elas, Toni Morrison, Maya Angelou e Elizabeth Bishop. As conversas foram realizadas nos anos 60 e 70, têm portanto, uma marca temporal digna de nota. Li diversos livros sobre os quais pretendo tecer comentários mais detidos, entretanto, esperarão mais um pouco, a saber: “Diga que você é um deles”, do nigeriano Uwem Akpan”; “Jaime Bunda, agente secreto” e “As aventuras de Ngunga”, de Pepetela; “Muito longe de casa – memórias de um menino-soldado”, de Ismael Beah, jovem escritor de Serra Leoa; “Cidade de Deus”, de Paulo Lins e “Amkoullel, o menino fula”, do malinense Amadou Hampâté Bâ. Li outros, sobre os quais falo rapidamente: “Terra sonâmbula”, primeiro romance de Mia Couto. Gosto muito das imagens, das construções semânticas, do jeito de brincar com a língua, plenamente dominado pelos bons autores africanos. Li “Minha vida querida”, contos do tradicionalista Malba Tahan. O universo ficcional árabe me fascina, aquelas imagens tão distantes do meu repertório imagético, os sabores trazidos pela palavra e também as contradições, às quais não estou alheia. Li “Tempo de migrar para o norte”, de um escritor sudanês contemporâneo, falecido recentemente, Tayeb Salih. Milton Hatoun na apresentação da obra afirma que “o romance é denso e evocativo”, por meio de “lances da lírica árabe, narra as viagens e visões de Mustafá Said , dilacerado entre dois continentes. Trata-se de uma complexa sondagem da alma humana, que é também uma reflexão sobre o colonialismo britânico na África e uma crítica implacável aos governantes do Sudão pós-colonial”. Eu adicionaria que é também um terrível retrato da opressão da mulher do ponto de vista (não menos terrível) do homem. Li também “Por acaso”, da escritora irlandesa Ali Smith. A autora havia me seduzido quando a ouvi falar sobre coisas diversas e realizar leitura de trechos do livro, diálogos, creio. É este, justamente, seu loccus maior de força. Ali é magistral e pujante na construção dos diálogos, mas no restante do livro fiquei entediada. Para terminar a leitura transformei-a numa abordagem de estudo e como tal, voltarei a ela, pois há muito a aprender. Li, por fim, uma seqüência de três best sellers (sim, eu os leio quando me interessam): “A menina que roubava livros”, presente de um casal de amigos; “A cidade do sol”, romance fascinante de Khaled Hosseini, autor de “O caçador de pipas” que também li. Este último, é mesmo o primeiro romance, com os acidentes de percurso da primeira obra: uns poucos trechos sem consistência, buracos na trama, presença de personagens desarticulados e sem densidade, mesmo considerando seu papel de apoio. O maior exemplo é o misterioso barbudo que surge no hospital, um provável informante do Talibã, a observar, insistentemente, o protagonista Amir, totalmente imobilizado numa cama por um rompimento de baço, dentre outras seqüelas de um espancamento. Talvez a intenção da personagem naquela cena fosse ratificar o clima de terror e perseguição que se instala na mente das vítimas de qualquer regime ditatorial. Por outro lado, ele poderia não ser um informante do Talibã, talvez fosse mais uma pessoa enlouquecida pelo próprio Talibã. Poderia ser uma projeção mental dos delírios de dor de Amir... entretanto, a forma textual pela qual o barbudo aparece e desaparece não dá liga, não tem costura. Cidade do Sol, por sua vez, é muitíssimo bem construído, só desliza no final quando Hosseini, um médico-escritor, traveste-se de jornalista, talvez imaginando assim, dar mais veracidade à situação de opressão da mulher no Oriente Médio. O texto literário transforma-se então em texto jornalístico nas páginas finais e empobrece o livro, a despeito da justeza da causa. Para os primeiros três ou quatro meses de 2010, uma lista imensa de leituras me aguarda, a ordem será dada pelo desejo ou pela necessidade de um texto: três escritoras negras me espreitam há tempos – Simone Schawarz-Bart e Marize Condé, ambas de Guadalupe, além de Alice Walker e uma escritora de Camarões, recentemente publicada no Brasil, Léonora Miano, com o seu “Contornos do dia que vem vindo”. Um livro de Wole Soyinca me aguarda há anos, “Os intérpretes”, e “Rio, Rio”, de Muniz Sodré, também. “A louca da casa”, da espanhola Rosa Montero pede outra leitura e a “Poesia reunida de Orides Fontela”, uma leitura nova. Assim também, “A poesia completa de João Cabral”, a “Prosa seleta de Drummond” e “O Eu profundo e os outros eus” de Pessoa. Há também a “Morfologia do conto maravilhoso”, sobre a estrutura do conto tradicional russo e “As melhores histórias da mitologia africana”, publicação da Artes e Ofícios.
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