Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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14 de jun de 2010

A ilha da chuva e do vento

A ilha da chuva e do vento, da escritora de Guadalupe Simone Schwarz-Bart (editora Marco Zero), me esperava há meses na fila de leituras. O romance é de uma poesia cortante, começa assim: “A terra depende quase sempre do coração do homem: é minúscula se o coração for pequeno, é imensa se o coração for grande. A pequenez da minha terra nunca me afligiu, e nem por isso tenho a pretensão de possuir um grande coração. Se pudesse escolher, seria aqui mesmo na Guadalupe que eu gostaria de nascer, sofrer e morrer. E, no entanto, não há muito, meus avós ainda eram escravos nesta ilha de vulcões, de ciclones e mosquitos, de mentalidades estreitas. Mas não vim ao mundo para sopesar toda a tristeza da terra. Em vez disso, preciso sonhar, mais e mais, de pé no meio do meu quintal, como costumam fazer todas as velhas da minha idade, até que a morte me apanhe em meu sonho, na plenitude da minha alegria”... É cortante porque não é condescendente, complacente, não tem ilusões. A narrativa é densa, surpreendente, mas tem personagens heróicos e isso me incomoda um pouco. Principalmente quando se elege uma personagem para encarnar todo o mal indecifrável da humanidade e esta personagem é um homem negro e mais uma vez os homens negros são demonizados, agora por uma autora negra. É assim com Élie, um lenhador bonito, trabalhador, rapaz sensível a sonhar com a independência do mundo branco, mas que se transforma num monstro depois de perder o trabalho e passa a espancar a mulher (ex-amada) por puro sadismo, todas as madrugadas. Há insinuações de que houve feitiço na história, feito pela invejosa rival de Télumée, a bela transformada em vítima incapaz de reação. E há as personagens míticas e quase perfeitas, a avó, Rainha-sem-nome e Amboise, o redentor, aquele que dá a vida na luta para libertar seu povo (liberto) da exploração do corte de cana, não sem antes redimir Téluméee da solidão. Não tenho simpatia por grandes heróis e heroínas, tampouco por vilões. Gosto mais quando diferentes personagens têm o seu momento de destaque, o seu dó de peito. Mas, são escolhas autorais e cabem num texto que parece pensar o negro antilhano do início do século, do ponto de vista do pertencimento a uma comunidade de destino. Ou seja, não há muito espaço para individualidades na trama, as personagens centrais são ícones representativos do coletivo negro. O certo é que o livro vale a pena ser lido e a autora, Simone Schwarz-Bart, tal qual Zora Neale Hourston (1891-1960), escritora africano-americana, merece ser descoberta e estudada.
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