Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de jun de 2010

Encontrei Reinaldo Arenas!

Terminei a leitura de “Antes que anoiteça”, biografia do escritor cubano Reinaldo Arenas. Um livro que persigo desde 2006 e finalmente consegui encontrar em um saldão na Internet. Comprei logo dois exemplares, o segundo para presentear. Experimentei diversos sentimentos ao ler Arenas. O primeiro, menos emocional, foi constatar a máxima de que a memória recria os acontecimentos e a narrativa literária o faz ainda mais. Não porque exista uma “verdade dos fatos” e menos ainda porque existam donos dela, mas a gente vai aprendendo a detectar a invenção na narrativa. Em todo o primeiro terço do livro, no jeito de conotar poeticamente a fome, a miséria, o abandono vividos por uma criança e depois adolescente em um vilarejo do interior de Cuba, Arenas faz esse percurso sonhador. À medida que o mundo adulto se aproxima, mesmo que a adolescência ainda estivesse longe de terminar, a recriação da memória vai ganhando outros tons, de frustração, medo, insegurança, angústia, impossibilidade de caminhos, sofrimentos de múltiplas faces. Então minha leitura foi ficando mais emocional e à medida em que o livro avançava, aumentava minha decepção com Cuba, minha angústia com toda a dor sofrida por Arenas e demais dissidentes. Passei duas noites lendo até não mais poder e depois dormindo transtornada, apavorada com a leitura. Creio que nunca mais conseguirei olhar uma escola ou ginásio cubano com admiração, depois de conhecer a descrição das condições de trabalho escravizado em que os prédios foram construídos. Em determinado momento parei de perguntar ao livro: “poxa, Arenas, mas não teve nada de bom?” Não! Aos olhos de Arenas e a partir da experiência de total espoliação de liberdade vivida por ele, não é possível reconhecer sucessos, conquistas, elogiar resultados porque ele esteve dentro dos processos e teve motivos para julgá-los os mais terríveis que se possa imaginar. O livro caminhava para o fim e eu não resisti, pulei várias páginas, precisava chegar ao momento do exílio, à fuga de Cuba, não agüentava mais tanto sofrimento. Sem surpresas, a saga continua no paraíso possível, a Babylônia, a Meca do capitalismo e culmina na interrupção da vida do narrador. Arenas, como é sabido por todos, suicidou-se em 1990. Conseguiu na última tentativa. Deixou uma carta aos amigos e à imprensa, na qual explicava seus motivos. A falta de liberdade vivida em Cuba o havia maltratado demais e a Aids o estava dilacerando, ele já não tinha condições de trabalhar e isso era insuportável. A serenidade da carta contrasta com o desespero da narrativa sobre os últimos anos em Cuba, na qual o livro perde a qualidade literária e transforma-se num relato quase insano, em que acontecimentos se sobrepõem e não se entende o início deles. Talvez fosse a pressão da morte para que ele terminasse logo o livro-vida-tormento. Finalmente encontrei Arenas. Agora vou reler “A velha Rosa” (editora Record) e procurar outros livros dele. Também buscarei autores(as) que Arenas cita e recomenda: Lydia Cabrera, Henrique Labrador Ruiz, Carlos Montenegro, Lezama Lima e Virgilio Piñera. Me deparei, na leitura de Arenas, com elementos para entender o que Ax, um rapper cubano, filho de Xangô, me disse sobre Nicolás Guilhén – El cabron??? Ainda, depois de ler a biografia de Arenas, compreendo (por contraste), um pouco mais da literatura de Pedro Juan Gutiérrez, o autor cubano que mais li até hoje. Vou recolhendo mais elementos para compreender a alma de migrantes antilhanos nos EUA. Vou adentrando este desconhecido e fascinante mundo caribenho.
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