Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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20 de jun de 2010

Tem gente em festa com a morte de Saramago

(Por: Leonardo Sakamoto). "Os comentários que saíram no jornal oficial do Vaticano “L’Osservatore Romano” sobre Saramago mostram que a igreja católica realmente não mudou muito nos últimos séculos. A diferença foi o verniz de modernidade para se adaptar aos novos termpos: os ritos de inqusição não são mais em latim e, agora, são divulgados por meios de comunicação para todo o planeta, instantaneamente. Imaginei mesmo que algum cardeal ou bispo iria aproveitar o passamento do escritor para dizer que ele, um comunista comedor de criancinhas, levava a cabo uma cruzada contra o cristandade. Creio que o próprio, se pudesse ver tudo isso, iria pedir que mais bravatas fossem ditas e se divertir muito – da mesma forma que nos fez rir – dos dogmas e de seus defensores. Em uma das tiras do personagem “Deus”, do cartunista Laerte, um desregrado e ateu chega ao céu e é bem recebido pelo todo-poderoso. Uma outra, que seguiu todos os mandamentos, vê a cena e reclama que teve uma vida de abnegação enquanto o novato viveu na esbórnia mundana e acha injusto que ambos dividam o mesmo céu. No que Deus retrucou algo do tipo: “o mesmo não, eu criei um céu para pessoas legais como ele que está logo ali ó”. Se existisse algo sobrenatural como o céu, Saramago iria para o cantinho do pessoal legal enquanto parte considerável da estrutura da igreja ficaria na sala de espera (me vem à mente a imagem criada por Ariano Suassuna no Auto da Compadecida para ser bem exato). Será que o “L’Osservatore Romano” quando define Saramago como um intelectual aprisionado em sua confiança profunda no materialismo histórico, não percebe que não está criticando, mas fazendo o maior elogio possível ao homem? Se mais pessoas fossem assim, o mundo seria um lugar melhor para se viver. O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi um dos melhores livros que já li do autor, pela provocação. Por isso, seria difícil imaginar que a igreja não iria sapatear sobre as cinzas do homem que transformou em literatura de qualidade o fato de Jesus ser humano (e ter feito amor com Maria Madalena) e deixado a entender que o problema não era o diabo mas alguém mais acima? Bem, não quero usar este espaço para gritar com aqueles que não escutam. E a humanidade merece seus dias de luto por ter perdido Saramago – mesmo que alguns não percebam isso. Mas se a igreja usasse a mesma virulência instantânea com a qual atacou o escritor para criticar os padres comedores de criancinha, o papa Ratzinger não teria que, agora, pedir tantas desculpas ao mundo".
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