Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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2 de fev de 2012

Fiz minhas velas ao mar

(Crônica de Cidinha da Silva, no livro: Oh, margem! Reinventa os rios! - editora Literatura Marginal). Engarrafei meu xaveco-mor, lancei-o ao mar, dizia assim: “Ah... se Iemanjá me concedesse a graça, meu encanto, de me tirar do meu rio fundo, de pranto”... Evoquei o doce da Oxum e o inusitado do mar a meu favor. As forças da natureza até que tentaram ajudar, mas você desdenhou das minhas pretensões. Intitulou-se muita luz para pouco túnel, muita areia para meu caminhãozinho. Desavergonhada, insisti. Abandonei o assovio em fá, quis o sol. Você chamou de brega a minha canção. Era brega, admito. Mas quanto de emoção esconde uma música brega, bem aplicada na femoral do vivente? Hein, hein? Coração de pedra, esquife gelada! Eu sonhei com o amor da minha vida, trazido do encontro das águas. Compus um samba de duas notas, as sílabas do seu nome, repetidas na pulsação do meu peito combalido. Você nem piscou os olhos antes de pisar no meu sambinha triste e jogá-lo na lama. Persisti. Desferi o xaveco do botão (eu) que se abre depois do orvalho e se descobre flor, porque o Sol (você) raiou. Bonito, fale a verdade, e original, se a senhora quer saber. Mas nem isso tocou esse músculo desalmado, encolhido entre costelas, inebriado pelas luzes da ribalta. Tudo conspira a meu desfavor. Você não me enxerga, não percebe meu amor, todos os poemas e gentilezas que faço, todas as flores virtuais que envio. Oh, raios e trovões, nem os santos, nem o Sol, nem o mar, nem as estrelas, nada me vale. E o ceguinho trovador, será que me ajudaria? O que faria para encantá-la? Ele me disse que descreveria o azul. Desentendi. Como seria isso, se ele nunca viu o azul? Ali morava o segredo. O desconhecido você imagina e molda, a seu gosto. Aceitei o conselho e perguntei a ela o que era o azul. Antes de a incauta desmanchar a interrogação do rosto, dei uma chave de pescoço naquele coração relutante. Expliquei que o azul é a cor da voz de Milton Nascimento cantando Dolores Duran no ouvido, sob a lua cheia, perfumada por uma dama da noite. Não deu outra. Ela quis conhecer o azul.
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