Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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24 de mai de 2012

Não nos enganemos: o que lastreia as aparentes vitórias nas redes sociais é ação política concreta nas ruas e junto aos órgãos concernentes ao tema em questão


Por: Cidinha da Silva

Mesmo que o sol não brilhe forte na manhã de hoje, amanhecemos radiantes com o fato de defensores públicos baianos terem visitado Paulo Sérgio Silva Sousa na cadeia, para saber como ele está (e para dar os encaminhamentos cabíveis para um acusado em situação de vulnerabilidade), depois de ter sido julgado, humilhado e torturado pela patricinha Mirela Cunha, codinominada repórter de um canal de TV.

Além de termos visto pelas imagens discriminatórias divulgadas na Internet que se trata de um jovem negro, os defensores públicos nos apresentam uma figura humana com as seguintes características: é réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência, tem 6 irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas no transporte público de Salvador. É, portanto, diferente do personagem monstro-imbecilizado criado pela patricinha.

Como nem tudo são flores, também na manhã de hoje, ficamos sabendo que o Ministério Público Federal em Uberlândia, Minas Gerais, arquivou o procedimento administrativo que apurava uma suposta ocorrência de discriminação racial no clipe da música “Kong”, do pagodeiro Alexandre Pires. A conclusão é que a presença dos gorilas estaria relacionada a aspectos da sexualidade e não a referências raciais.

Nos dois casos, na vitória (parcial) e na derrota, as redes sociais tiveram papel fundamental na mobilização da opinião pública, chegando a forçar, no caso de Kong- Pires, que a rede de poder Globo se posicionasse em nome da manutenção do estado de coisas que subalterniza as pessoas negras no Brasil (Pires-kong em depoimento de defesa no Fantástico). Mas foi só a mobilização! A ação concreta se deu junto ao Ministério Público Federal, com agentes nominados envolvidos, a saber: SEPPIR, grupos e associações de jornalistas, ONGs, defensores públicos que cumprem seu papel constitucional. É essa ação concreta que consubstancia as ações de mobilização protagonizadas por indivíduos, cronistas, blogueiros/as e facebookianos/as.

É preciso que exista gente, muitas vezes anônima (o anonimato de quem está imbuído de um compromisso maior), que lança mão do telefone para contatar pessoas e instituições competentes, que possam encaminhar os processos rumo à solução que nosso senso de justiça deseja. É preciso que as pessoas usem ônibus, trem, metrô, carro e até avião, para se deslocar até os órgãos adequados. É preciso estar nas ruas, como esteve o pessoal da Primavera Árabe, do movimento Ocupe Wall Street, como a moçada corajosa que escrachou torturadores da ditadura militar brasileira por todo o país, em março/abril de 2012.

As pessoas que estiveram nas ruas materializando a mobilização das redes sociais durante a ocupação do Wall Street, dormiram em barracas, enfrentaram o frio e a chuva, tiveram dificuldade para usar banheiros, apanharam da polícia, foram presas, deixaram os familiares preocupados com sua segurança e integridade física e, noticiaram cada passo pela Internet. Ao ver a ação política desses protagonistas pela Web, muita gente foi checar in loco do que se tratava. Ao perceber a firmeza de princípios e o destemor daqueles jovens, ações satélites aconteceram: teve gente que foi levar café, refrigerante, cobertores, sanduíches e diversas outras formas de solidariedade para aquelas que ocuparam Wall Street, concretamente. A estupidez da polícia contra os/as manifestantes foi divulgada nas redes sociais e atraiu mais solidariedade e, finalmente, a mídia hegemônica voltou seu olhar viciado para aquela intervenção política fora dos padrões e a coisa ganhou visibilidade globalizada.

Isso tudo para corroborar o argumento de que ninguém ocupou Wall Street pelo lap top. A ocupação não foi virtual, foi humana e teve gente que ficou impossibilitada de digitar porque teve dedos quebrados por porretes ou patas de cavalos.
Está certo que a gente precisa de alegria, que precisa achar que faz algo para mudar o status quo e que dá certo, mas daí a achar que a simples manifestação de opinião pela Internet derruba ditadores ou faz com que uma rede de televisão escolha um bode espiatório para demitir, é um equívoco, no mínimo. Se centenas, milhares de anônimos não tivessem morrido nas praças, a Primavera Árabe não teria acontecido.

Existem instituições que garantem ou deveriam garantir nossos direitos e nos cabe demandá-las. Se não nos cuidarmos, daqui a pouco acharemos que o cyberativismo é a panacéia para todos os problemas do mundo e estabeleceremos mais um culto ao indivíduo e ao individualismo, facilmente manipulável.
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