Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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28 de mar de 2013

Corporalidade Negra em Lado a Lado




por Cidinha da Silva*

Perdoem-me os fãs da Capoeira, mas quero falar sobre futebol na novela Lado a lado. Chico (César Mello) protagonizou cena histórica vivida no início real do século XX por Carlos Alberto, jogador negro que, migrando do singelo América para o aristocrático Fluminense, temeu a rejeição da torcida e, desejando evitá-la, passou pó-de-arroz no corpo, antes da partida.

O problema é que a mistura química do pó-de-arroz com o suor, à medida em que o jogador se movimentava no campo,  transformou-o em uma papa. Resultado trágico de uma válvula de escape do racismo que não funcionou. Talvez seja possível à leitora imaginar o desespero de Carlos Alberto para buscar uma alternativa de proteção tão ridícula e fadada ao fracasso.

O jogador da telenovela imitou o jogador da vida real com o mesmo objetivo do primeiro, ou seja, encontrar um caminho para ser aceito no mundo branco. Chico é chamado para jogar no time dos brancos (todos os times eram de brancos, naquela época), porque é bom de bola. O perigo é defini-lo como bom de bola porque é negro.

Nenhum negro é bom de bola porque nasceu negro, não está no sangue. Determinismo sanguíneo é quando o negro tem muitas hemácias saudáveis, isso pode oxigenar bastante o cérebro e potencializá-lo como corredor. Esse seria o verdadeiro sangue bom. Mas o talento de Chico não vem daí. É nato na proporção apenas em que todo e qualquer talento pode ser considerado nato, não o é para os negros de maneira restrita.

Chico joga bem porque tem ginga, tem o corpo flexível, corre muito e não se cansa. Tem habilidade para correr e dominar a bola ao mesmo tempo. A ginga, Chico adquiriu na vida, não só na Capoeira. O corpo precisa aprender muito de flexibilidade ao carregar numerosas sacas pesadas no porto, de maneira tal que a coluna vertebral se mantenha inteira para carregar outras tantas sacas no dia seguinte e no próximo, no próximo... E depois de carregar peso o dia inteiro, é preciso ter pernas fortes para subir o morro e disposição para ajudar um vizinho a refazer o telhado do barraco levado pelo vento. E depois de comer o feijão com farinha oferecido a toda gente, tomar um banho frio e amar a amada até o primeiro galo cantar lembrando que o porto o espera novamente.

Essa corrida insana pela sobrevivência inscreve no corpo negro um requebro, uma destreza, uma polissemia que entorta os janotas. O povo, erradamente, chama isso de característica negra. Certo seria entender que é a vida do negro que acaba por obrigá-lo a adquirir essa maleabilidade. E como não somos de ferro, subvertemos  a ordem da opressão, da exploração, em favor nosso. Enganamos tão bem, que passam a achar que somos bons de bola porque somos negros.

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.
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