Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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12 de ago de 2015

Escritoras e editores, cada um no seu quadrado


Por Cidinha da Silva

Dia desses, numa madrugada de insônia e trabalho, travei saudável diálogo com um amigo que questionava a estratégia de ativistas políticos responderem às provocações midiáticas feitas por meio de programações racistas que têm o único objetivo de aumentar a audiência. O pior de tudo, escorando-se na pretensa argumentação sofisticada dos ativistas.

De maneira específica, ele criticava dois pontos: o título de crônica minha, considerado provocação inócua e meio burrinha e, de maneira menos direta, o caminho argumentativo do texto.

Minha primeira ponderação, em resposta à crítica do amigo, foi de que sou cronista, não sou ativista política. Sou cronista, sou artista politicamente posicionada e que acredita na necessidade de expressar coerência e criticidade em atitudes e também na escrita. Sabem que muitos artistas não pensam assim, não é? Não prezam a coerência. E isso é apenas uma constatação, não é julgamento, menos ainda, condenação, porque cada pessoa faz o que quiser com sua arte, da forma que quiser.

A segunda passou pelo apedrejamento  a que nos expomos quando por escolha pessoal ou por demanda editorial, nós, cronistas politicamente posicionados, nos enfronhamos em temas de massa, temas de forte apelo midiático, espetaculoso e especulativo, tais como as reiteradas piadas racistas dos chamados programas de humor brasileiros. No livro Racismo no Brasil e afetos correlatos (2013) escrutinei o tema, pois tratei de mídia e relações raciais por meio da minha escrita criativa. A propósito, na crônica O preço da admiração, ironizo a precificação das condutas em nome dos sentimentos positivos que despertam.

Não componho a audiência de programas humorísticos sabidamente racistas, mas, eventualmente, quando desejo ou sou demandada (e por algum motivo me interesso por responder à demanda), escrevo sobre eles. Por exemplo, sob demanda editorial escrevi recentemente sobre o programa Pânico da Bandeirantes, ao qual nunca assisti.  Há mais tempo, escrevi textos fundamentais no debate instaurado sobre o famigerado O sexo e as negas, que também não vi porque fiz parte ativa do boicote. Em todos eles, fiz aquilo que a vida como mulher negra de pensamento afrocentrado me titulou como Honoris causa, ou seja, a decodificação da engrenagem de funcionamento do racismo, que tem sido útil a significativa parcela dos que me honram com sua atenção e leitura.  

O amigo contra-argumentava advogando que “a mídia racista encontra na provocação despropositada e desinteligente um ‘filão’ para aparecer.” E continuava: “nossa reação precisa operar contra a única coisa que de fato eles acreditam: o fluxo de caixa da Rede de TV. Vamos boicotar a Rede por alguns dias. Vamos pelas nossas mídias desprezá-los não dando audiência a eles. Simples.”

Por meu turno, respondi que cria (e creio) na validação do direcionamento dado por ele para as pessoas e organizações preocupadas em organizar essa reação. Não é o meu caso, não é o meu lugar de fala. Eu sou uma cronista em ação, dialogo com as questões do meu tempo, todas elas, como o objetivo de virá-las do avesso, sempre que consigo. Esse é meu ofício e meu lugar no mundo.

Nos textos argumentativos, embora eu goste mesmo é de escrever ficção, escolho as pedras para o alicerce da construção do texto, honro o caminho da  linguagem bem cuidada, do  tratamento adequado e sempre que possível inovador aos temas que elejo ou para os quais sou pautada. Quero sempre que a liberdade me conduza para que pelo menos alguma poesia meus olhos consigam perceber na vida.

Minha função é de escritora, não é de ativista política. Essa é a função que me dou (de escritora), mas, sim, as pessoas me leem como quiserem. Haverá embate apenas se quiserem me pautar, definir o que devo ou não escrever. Ninguém me pauta, a não ser que eu queira ser pautada por algum motivo conveniente a mim. Ainda assim, existem organizações governamentais e ONGs que insistem em me convidar para realizar trabalhos não-remunerados, quatro dias antes da data prevista para que o trabalho aconteça, ou seja, tem um pessoal que continua se locupletando do que imaginam ser uma disponibilidade total (e desorganizada) de um suposto tempo militante que tive no passado.

Por fim, quando a gente migra do blogue pessoal e da Fanpage, ou mesmo do colo dos portais negros, para portais comuns, principalmente aqueles onde há relações contratuais, a profissional fica exposta a sugestões de pauta, escolha ou mudança de títulos, escolha de imagens – esta última parte é um alívio, porque toma muito tempo escolher imagens além de cuidar do texto.  Também aparece, é óbvio, o racismo institucional, este que a gente foi se capacitando a enfrentar no detalhe ao longo da vida e que está incrustado em todos, absolutamente todos os lugares. Passa a existir a figura do editor que interfere nesses aspectos, faz parte do contrato. Mas, se em algum momento de autoavaliação eu vier a suspeitar de que o escrevo não tem sentido, não está afinado com o que acredito e professo por estar em determinado veículo, serei a primeira a pedir para sair. Enquanto isso não acontece, vamos negociando, como se faz na vida.

Nesse momento da vida e da escrita, que não sei quanto tempo durará, eu que costumo cuidar de todas as etapas de minhas publicações (o autofinanciamento o exige e as editoras pequenas ainda permitem) quero fazer como outro amigo, dessa feita, um escritor. Ele escreve o texto e depois que o entrega ao editor não quer saber de mais nada. Quer apenas que cheguem as notícias boas sobre a circulação de sua criação, pois, ele se ocupa e quer se ocupar, cada vez mais, de escrever, porque escrever, para quem escreve profissionalmente, é tudo.

Para mim, o fundamental é que ninguém, absolutamente ninguém, nem editor, nem leitor, interfira no texto e na forma como o desenvolvo. Entendi há muitos anos que título batiza o texto e meu desejo é sempre batizá-lo, mas nem sempre o editor achará que batizei direito. E título e imagem vendem (captam a atenção), fazem circular. E editores são melhores vendedores do que escritores. Então, cada um na sua canoa e toca a navegar.


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