Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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1 de nov de 2007

Estreei no teatro!

A Cia dos Comuns, dirigida pelo dileto amigo Cobrinha, é o palco da minha estréia dramatúrgica. Modesta, constituída por fragmentos de um dos três textos enviados por mim para o novo espetáculo da trupe - "Silêncio" - sobre os efeitos do racismo no corpo e na alma das pessoas discriminadas. Cobrinha me pediu algo que soltasse pus. Para conhecer o processo de construção das "experiências" (nesse espetáculo não há personagens) fui a um ensaio, vi seis horas de trabalho contínuo, transcorridas como fossem duas. Fiquei estupefata com a performance corporal, com as coreografias, com a densidade dramática de atrizes e atores tão jovens. Conversei com o grupo, ouvi suas histórias, contei as minhas. Agora estou louca pra ver o espetáculo. Enquanto isso, registro aqui o texto do qual sairam trechos integrados à construção coletiva de "Silêncio". TEXTO 1 Ele vem à noite e não me traz flores. Entra pelo telhado, se joga em minha cama, abre minhas pernas, rouba meus sonhos e eu me despetalo. Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer. A gata grita no telhado de onde ele veio. Dizem que pinto de gato tem espinhos. Machuca. Eu também grito no bumbo do meu peito: DE-SEN-GA-NO, DE-SA-LEN-TO, DE-SA-TEN-TO, DE-SEN-RE-DO, DE-SI-LU-SÃO. Ele me come e eu olho o teto. Vejo os meninos correndo, os filhos que ele não quer ter comigo. Os dele balançam os cabelos ao vento. Saíram à mãe, me diz orgulhoso. Eu dou a ele me olhar de mar... de água de choro, doída por saber que ele não quer ter filhos parecidos comigo, nem parecidos com ele. Se reclamo do sexo de gato, dos encontros furtivos, ele me diz que sou a mulher da vida dele, igual a ele, de pele e alma. Só na minha cama ele dorme tranqüilo por algumas horas durante a semana. Na cama de todo dia não consegue dormir, fica em vigília, um olho aberto, o outro fechado. Diz que o inimigo dorme ao lado. Por isso ele está sempre em riste e mete por cima para ela saber quem manda. E dá uns tabefes nela para lembrar que é o senhor da força. De uns tempos para cá parou de bater, só ameaça para manter a pose, depois de levar uns tabefes na delegacia. Na guerra é assim, minha filha, o vencedor come a mulher do inimigo. Você não entende? Eu mato um leão por dia. À noite preciso de uma presa mais fácil para abater. Não quero um espelho para ver meu rosto cansado, quero a mulher do inimigo, para me sentir vitorioso e para fazer filhos que não se pareçam comigo, que sofram menos do que eu. Se você quer compreender minha arte, é bom saber o que retrato em meus quadros. A deformação das mulheres é a busca da beleza, da alegria, do amor amado e respostado. É a busca da mulher que tenha forças para animar um projeto de construção de si mesma, que gere flores e poesia, a partir das cinzas e dos escombros.
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