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26 de mai de 2014

Engravidei, pari cavalos e aprendi a olhar salões populares de beleza com ternura


por Cidinha da Silva

Tudo é festa, música, alegria e cor quando um livro de amor e poesia, o Baú de Miudezas, Sol e Chuva galopa como unicórnio no horizonte da vida de todo dia que por vezes nos apequena. Tudo é abundância quando a flecha de Mutalambô acerta os corações que desbordam na água maior de Kissimbi.

Entretanto, diante do livro novo e do retorno de peça vitoriosa e transformadora aos palcos, o reino vil dos repolhos acéfalos e estéreis se manifesta e macula com saliva amarga as costas da “insuportável” autora. O reino da fertilidade ri em resposta, gargalha e dá beijinho no ombro para os repolhos. Volta ao amor, sem rancor, depois do beijinho no ombro gozador.

Escrever a dramaturgia de Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas me expôs a violências, solidão e desencantos, quando não, desesperos, muito comuns à vivência das mulheres negras brasileiras. Preciosa, de Sapphire, manifestou-se com virulência inesperada, desconhecida de meus sentidos e experiências. E, atendendo ao imperativo dessa lava incandescente, escrevi o texto teatral, como muitos dizem (todos homens expectadores), sem refresco, mas com a expectativa de que a lava passado o caos seja o mais poderoso fertilizante do renascimento.

Porém, nem tudo foi dor, a relação das mulheres populares com os salões de beleza, também populares, porque de baixo custo e muito acesso, me humanizou. Devo confessar que antes do Pari Cavalos achava aquele ambiente insuportável, até degradante. Continuo não gostando, mas gotas de entendimento umedecem as raízes do cactos que carrego a tiracolo.

O salão de cabeleireiros popular é divã sem o aparato de Freud ou Lacan para quem não consegue pagar sequer psicoterapias alternativas executadas por profissionais comprometidos com a saúde mental desse público. Além de divã para auto-análise da cliente da vez, assessorada pelas profissionais e demais colegas atendidas, a cadeira do salão popular é palco de devaneios, de alívio de frustrações pela conversa incessante, da cura pela palavra, mesmo que irrefletida, e da busca voraz da beleza vendida no mercado.

Fazer-se bela nos padrões da moda é mais do que o desejo incontido de aceitação social, de legitimação de um lugar escravizado de mulher, é um devir de desejo maior, aquele que quer, pela beleza conquistada e comprada, portanto, pertencente a ela, aplacar o desamor de não ser vista nem desejada, ou, pelo menos, não na medida que gostaria ou mereceria.

É mesmo complexo o universo de um salão popular de beleza com todo o imaginário evocado pela novela, do homem perfeito, cheiroso, carinhoso, pegador de mulher única, ela; dos filhos em casa, quietinhos, esquecidos por alguns minutos da existência da mãe; do apoio de outra mulher para fazer todo o trabalho de casa. Há que haver alguma ternura para decodificá-lo.
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