Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

12 de mai de 2014

Marciano Ventura, da editora Ciclo Contínuo, fala sobre Carolina Maria de Jesus à revista Língua Portuguesa

Blog da Redação
 A+  A- Tamanho da Fonte:

Abril/2014

Entrevista exclusiva para o site de Língua

Marciano Ventura, organizador do evento "Prazer em (re)conhecer: sou Carolina!", fala sobre a autora Carolina Maria de Jesus

Por Jacqueline Kaczorowski

Xandi Gonça


O evento "Prazer em (re)conhecer: sou Carolina!" (saiba mais aqui), em São Paulo, foi uma iniciativa da editora Ciclo Contínuo e parcerias para reavivar a escritora Carolina Maria de Jesus, cujo centenário de nascimento foi comemorado dia 14 de março deste ano.

Marciano Ventura, organizador do evento, falou com exclusividade ao site de Língua sobre Carolina, o evento, a editora Ciclo Contínuo e o cânone literário brasileiro, que tantas vezes silenciou a respeito da obra de uma autora que, quando descoberta, foi sucesso estrondoso com Quarto de Despejo, seu livro mais conhecido.


Como surgiu a ideia deste evento para comemorar o centenário de Carolina?Em 2010, quando completou 50 anos da publicação do livro Quarto de Despejo, nós, da editora, mobilizamos dois seminários sobre o aniversário do livro. Um deles foi na Faculdade de Letras da USP e o outro foi na Comunidade Cultural Quilombaque, em Perus.

Os seminários foram pensados na época porque Quarto… era um livro importante, foi best-seller quando lançado na década de 60 e ninguém além do Museu Afro Brasil tocou no assunto, estava um silencio tremendo. Já sabíamos da iniciativa do Museu e decidimos também nos reunir com professores, escritores, atores etc. e montamos esse seminário, que discutiu a obra dela a partir de 3 eixos: arte, vida e inspiração. Esses seminários contaram com a presença de especialistas da área do cinema, como o Noel Carvalho, do Dogma Feijoada, do teatro, como o pessoal dos “Crespos”, e de vários outros pesquisadores.

O que nos fez pensar Carolina em 2010 foi a vontade de deslocá-la ela do lugar onde usualmente a colocam: o lugar de uma mulher semialfabetizada, negra, pobre, mãe solteira, favelada. Queríamos tirar os estereótipos para falar de uma Carolina humana, autodidata, uma mãe independente por escolha e uma escritora que, ao mesmo tempo, conseguiu se tornar best-seller, impactando o mercado, e incomodar o poder – na verdade, ela conseguiu incomodar todo o mundo!

Carolina não queria se submeter, a escolha dela sempre foi pela independência... a própria escolha de catar papel foi pela independência; ela poderia ter sido empregada doméstica, por exemplo – e até foi por um tempo. O nosso maior interesse é o de mostrar tudo isso, dar valor ao projeto literário e filosófico que ela traz; colocá-la como pensadora da atualidade brasileira – do seu momento histórico, mas, por que não, de hoje, também, já que muitos problemas permanecem.

O [evento] “Prazer em (re)conhecer”, na verdade, é uma continuação daquilo que foi construído em 2010, que até chegou a “fazer um barulho”, mas deixou muitas coisas ainda a serem discutidas, por falta de oportunidade de dar continuidade. Tudo isso ficou fervilhando durante esse tempo e agora parece ser o momento oportuno para retomar a abordagem da pensadora Carolina e de sua obra, além de seu projeto de vida como escritora. Assim como em 2010 quase não se falou dela, já era esperado q em 2014 também não fosse falado tanto quanto desejávamos, por isso desde o ano passado a gente vem mobilizando a partir das redes sociais um espaço de difusão e projeção da autora, na tentativa de projetar todas as ações que se realizariam (e ainda se realizarão) durante o ano sobre a autora por iniciativa de diversos grupos espalhados pelo Brasil.

Essa ideia, que, portanto, não surge agora, é resultado de uma longa construção que vem sendo costurada por diversos grupos e a partir de diversas linguagens. Carolina inspirou muitos escritores; sempre esteve por aí, circulando pelo imaginário de grupos que pensam de forma alternativa à hegemonia, embora, até por conta da ditadura militar, tenha ficado esquecida por um bom tempo até começar a ser retomada. Ela acabou ganhando maior visibilidade com o filme do Jefferson De, “Carolina” (de 2003, veja aqui) e, a partir daí, houve um acúmulo de releituras de Carolina, o que também foi outro norte que nos ajudou a pensar o seminário. Outros exemplos interessantes, além dos “Crespos”, que estiveram no evento, são o Coletivo Carolinas de Mulheres Negras da Bahia e o programa de rádio da Edições Toró sobre a Carolina (aqui). Tem também um filme muito bonito, de Luiz Antonio Pilar, chamado “O papel e o mar” (veja aqui), que narra o encontro imaginário entre João Cândido, o almirante negro (líder da Revolta da Chibata) e Carolina. A Balada Literária deste ano vai homenagear a escritora, também.

Há muitos coletivos espalhados pelo país trabalhando Carolina; coletivos artísticos. Na academia, ela ainda não teve muito espaço, mas a confluência dessa produção toda pode fazer com que se olhe de modo diferente para a escritora. Nosso objetivo é que isso cresça cada vez mais. Um bom exemplo foi, agora em abril, o VI Colóquio Mulheres em Letras – Literatura e Diversidade, da UFMG, que homenageou Carolina.


E na Literatura, como tem sido isso?
Na Literatura Marginal tem o Ferréz, que coloca a Carolina como referência para se pensar o próprio conceito de marginalidade na Literatura, mas isso é muito recente. A retomada da obra da Carolina é uma movimentação que vem crescendo de 2005 para cá, então ainda há muito sendo feito.


E a questão da língua na obra de Carolina, como você vê? (Já ouvi a autora sendo criticada por “não dominar o português culto”...)O domínio da língua da Carolina é muito autodidata. Ela aprendeu por interesse e com recursos próprios. O interesse dela não veio da escola; veio do desejo de se expressar e comunicar.

Eu percebo um espiral de inspiração na vida e obra dela, que contribuiu para que ela desenvolvesse esse interesse… Seu primeiro (e maior) inspirador foi o avô, o “Sócrates africano”. Ela não o chamava pelo nome, só o chamava assim. Ele saiu do nordeste por causa do declínio da cana, desceu pra Minas porque lá havia o cultivo do café em alta e foi para uma região que, para a época (década de 1910), era muito progressista: um vilarejo com menos de 10 mil habitantes, mas que já tinha luz elétrica, bonde, etc. Este vilarejo era Sacramento, hoje parte de uma das maiores reservas de biodiversidade do país, o Parque Nacional da Serra da Canastra. O avô tinha uma crença forte de que a família que havia constituído precisava de terra, então fez um esforço sobre-humano para conseguir isso. Nesse espaço, reunia a família em volta da fogueira à noite e contava histórias sobre coisas de que ninguém falava na época, como Palmares, por exemplo.

Diário de Bitita (outro livro de Carolina) traz umas histórias de Minas Gerais pós abolição da escravidão que mostram a manutenção das relações de poder entre brancos e negros. O avô dela apontava muito esse tipo de situação, questionava as relações e ensinava Carolina a pensar sobre o mundo. A maior inspiração imaginativa dela vem do avô, desses causos que ele contava. Essas histórias foram a maior fonte de inspiração dela, muito mais do que a escola. Foi isso que instigou essa vontade dela de se expressar e, consequentemente, de dominar a língua, para escrever. Ela começou a buscar livros e, no contato com eles, começou a se alfabetizar de modo autodidata, porque ela só tinha estudado dois anos. Como ela era muito comunicativa e atenta, observadora, começou a entender a língua para entender os livros e, com eles, entender melhor o mundo. Ela era realmente muito atenta, tinha visão de mundo, algo que nem sempre se aprende. Com o tempo, isso tudo vai tomando forma e ela começa a escrever, para descrever tudo isso; o que percebe, o que pensa… aí a língua vira o principal instrumento de Carolina, porque ela queria escrever. Mas não era o único, ela na verdade queria ser uma artista, também compôs músicas, por exemplo (conheça aqui).
Xandi Gonça
O que é interessante sobre Quarto de Despejo, que a maioria das pessoas conhece como se fosse sua única obra, é que esses escritos eram parte de um diário, não um livro. Era um diário, que ela escreveu durante anos da sua vida, sem intenção de publicar. Quando ela conheceu o Audálio [Dantas], ele percebeu o valor daqueles textos, como um testemunho que desvelava o surgimento das favelas em um momento em que o Brasil estava se desenvolvendo; daí foi o sucesso que foi. No entanto, ela dedicou mais de 15 anos a escrever textos como poesias, contos, romances, peças... esses, sim, ela queria publicar. Ela publicou outros três livros, mas não com o mesmo sucesso, pelo menos não no Brasil. Lá fora, ela é muito lida e respeitada, bastante estudada, inclusive. Suas obras foram traduzidas para mais de 13 idiomas.

Qual o histórico do trabalho da editora Ciclo Contínuo? O projeto surgiu em 2008, com o objetivo de difundir a literatura produzida por autores negros através de encontros literários, no início, o que acabou resultando na publicação de algumas antologias e outros livros autorais.

Desde então, buscamos um caminho alternativo ao mercado. A editora é, na verdade, um projeto conceitual, estético e político bem definido, que busca aproximar as pessoas da editora por outro motivo e por outro processo; a partir da ideia de formação de leitores, considerando o déficit de leitura do nosso país. Queremos levar as coisas ao público, debater, politizar. Se nos perguntarmos, hoje, para quem se escreve; quem se quer que leia; que discurso é esse dos textos literários; encontraremos respostas enquadradas a uma lógica que nunca valorizou nem valoriza o negro. Na Literatura brasileira canônica, o personagem negro, via de regra, aparece carregado de estereótipos. O cânone brasileiro é branco, machista e elitista. Portanto, a partir do momento em que escolhemos trabalhar com essa vertente da Literatura brasileira, já damos o tom político da proposta. O que os autores que selecionamos vêm produzindo se contrapõe ao cânone, à hegemonia da Literatura escrita por brancos, para brancos.

Todos os livros têm uma tiragem limitada (de 1000 a 1500 livros) e o trabalho que acompanha o processo de publicação é justamente o de formação de leitores. Nosso conceito político e estético só tem validade por conta dessa dimensão que se quer atingir, do tipo de diálogo que queremos propor.

Desde 2008, nós publicamos 12 livros e fizemos muitos lançamentos e atividades como encontros com autores, palestras, seminários, eventos literários de um modo geral. O trabalho que acompanha cada publicação é extenso e visa ampliar a rede de leitores e os debates a respeito desta produção literária. Dentro desse tipo de iniciativa que se enquadra o trabalho com a obra de Carolina, buscando levá-la ao público leitor.
Postar um comentário