Kit de sobrevivência para o ano novo
Parece haver uma necessidade de transformar a pessoa comum em celebridade representativa de determinado grupo. Uma espécie de heroína homenageada e eternizada pela glamourização dos dias ou horas próximos à morte
Por Cidinha da Silva. Ilustração Helô D’Angelo
A leitura primeira de 2015 é um livro que já completou dez anos. Trata-se de uma série de entrevistas do poeta maior, Gilberto Gil (Azougue Editorial, série Encontros, 2007). Poeta que me acompanha e socorre nos momentos cruciais da vida.
Lembrei-me dele quando conheci um professor de literatura diferente durante uma sessão de trabalhos acadêmicos. Findo o protocolo das apresentações formais, no momento da conversa boa, por afinidade, ele me disse: sempre que morre alguém amado eu leio poesia. A poesia me ajuda a compreender o mundo. Eu ouço Gilberto Gil, completei naturalmente. Sua poética me dá entendimento do mundo.
A intenção desta primeira crônica do ano, entretanto, não é discorrer sobre o pensamento de Gil espraiado pelo livro, mas de, atendendo ao espírito da transcendência evocado pela leitura, falar baixinho sobre a morte. De maneira mais específica sobre o assombro causado pela vivência da morte e do luto nas redes sociais. Mais ainda, pela contagem regressiva dos momentos finais da morte anunciada feita por meio de posts quase pecuniários (em alusão aos  rendimentos todos do gozo da intimidade da pessoa moribunda), imagens-atestado do convívio e frases enigmáticas.
Quando morre uma pessoa muito famosa como Marília Pêra, compreendo facilmente o que leva alguém a anunciar a morte iminente. Percebo, sem dificuldade, como uma autointitulada amiga íntima infringe a norma de conduta adotada pela atriz de resguardo à privacidade própria e também da família. Contudo, tenho maiores problemas para entender a espetacularização dos dias próximos à morte das pessoas comuns, mesmo quando muito amadas e reconhecidas, fato que lhes empresta mais visibilidade.
É a observação da fruição sentimental (mais do que de sentimentos) mediada pela notícia nos suportes digitais, às quais se confere valor ao agregar glamour, quem me ajuda.
Parece haver uma necessidade de transformar a pessoa comum em celebridade representativa de determinado grupo. Uma espécie de heroína homenageada e eternizada pela glamourização dos dias ou horas próximos à morte. Pode ser mesmo uma parecença, uma desculpa esfarrapada, essa da heroicidade viva, para, de fato, mergulhar de cabeça no mundo fútil das celebridades, aquele em que pessoas são fotografadas portando plaquinhas de visitantes de UTI ou publicam boletins médicos informais nas redes sociais para sugerir intimidade com a pessoa agonizante.
Sou do time daquela Iyalorixá que ao ver uma filha dileta gravemente doente sentenciou: você é filha dessa casa e aqui nós temos regras. Filha minha não ficará fazendo corrente na internet para pedir saúde. Saúde, aqui em casa, a gente pede no pé do Orixá. É onde eu peço por você. Tenha fé e disciplina para fazer o que o Orixá e as mais-velhas prescreverem. Não descuide também da alimentação e das recomendações médicas. Tirando isso, seja o que Deus quiser e tenho certeza de que ele quer o melhor para você.
A morte, os momentos que a precedem e o luto, são tempos de silêncio e introspecção, entrecortados por choro, dor, revolta, medo, insegurança, saudade, fala e escuta atenta. Silêncio e introspecção para reavaliar a vida vivida, para corrigir rumos, buscar força e esperança. É certo que falo da morte como acidente previsível da vida, não da morte por assassinato, negligência, violência, injustiça. Esta merece mesmo muito barulho em todos os lugares.
Acredito que luz, amor, boas vibrações enviadas pela Web também chegarão aos corações destinatários se forem enviadas de casa, de um jardim, de uma gangorra em uma mangueira, sem alarde em qualquer tipo de mídia. A presença física que transcende selfies de registro da agonia do doente ou do exibicionismo do visitante pode também ser opção para externar afeto.
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*Cidinha da Silva é escritora. Publicou, entre outros, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) eAfricanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Despacha diariamente em sua fanpage