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29 de jan de 2016

O Oscar do Oscar 2016 é debater o racismo na indústria cultural


Há alguma coisa de podre no Reino da Dinamarca quando um ator negro, decano do teatro e da TV brasileiros, compreende o racismo na indústria cinematográfica de Hollywood nos mesmos moldes de uma atriz branca, inglesa, também veterana, sabidamente afinada com a direita europeia
Por Cidinha da Silva
Há alguma coisa de podre no Reino da Dinamarca quando um ator negro, decano do teatro e da TV brasileiros, compreende o racismo na indústria cinematográfica de Hollywood nos mesmos moldes de uma atriz branca, inglesa, também veterana, sabidamente afinada com a direita europeia.
O ator do caso é Milton Gonçalves e a atriz, Charlotte Rampling. Em comum, a idade. Ela, septuagenária. Ele, octogenário.
Mas, pelo que se observa do mundo, a idade não faz das pessoas necessariamente conservadoras. Fernanda Montenegro, por exemplo, mais velha do que ambos, emitiu opinião contundente e reveladora sobre uma telenovela, supostamente incômoda porque duas mulheres octogenárias se relacionavam afetiva e sexualmente.
Na percepção acurada da magnífica atriz, o que tirou as pessoas do conforto irreflexivo do sofá não foram as velhas amantes com quase duzentos anos de vida somados, mas o número nunca visto de personagens negros empoderados. Distantes das posições de (de)mérito a que os conservadores brancos e negros costumam relegá-los.
No caso da total ausência de atrizes e atores negros indicados ao Oscar 2016 e ao reativo boicote à cerimônia, anunciado por Spike Lee e pela atriz Jada Pinkett Smith, Milton Gonçalves declarou que: “A Academia não é racista. Nenhum negro fez um filme bom como os outros fizeram anteriormente (por isso não foram indicados)”.
Charlotte Rampling, no outro lado do mundo, expressou opinião semelhante: “Isso é racismo contra os brancos. É difícil saber se é o caso, mas pode ser que os atores negros não merecessem estar na reta final”.
Nome abalizado do audiovisual brasileiro, Joel Zito Araújo estranhou o comentário do ator e postou o seguinte numa rede social: “Eu não sabia que Milton era um dos votantes da Academia, para fazer uma defesa tão ardorosa assim da correção das indicações. Uma postura que nem a presidente da Academia (uma mulher negra) teve”.
Lembremo-nos de que em outros tempos, antes de Morgan Freeman se revelar um conservador em questões raciais, o cineasta brasileiro
frente ao conservadorismo político de Milton Gonçalves e aos ataques decorrentes, viu-se obrigado a convocar as pessoas insatisfeitas a resguardá-lo como patrimônio cultural negro, como nosso Morgan Freeman. As coisas mudaram e dessa vez, o diretor considerou indefensáveis as declarações do ator.
É, de fato, um despropósito, para dizer o mínimo, referendar às cegas uma comissão selecionadora da indústria cinematográfica de Hollywood composta por 93% de pessoas brancas. É acreditar (ou pelo menos fingir que se acredita) na neutralidade da política.
A presidenta da Academia, Cherly Boone Isaacs, acostumada a jogar o jogo do poder com um lado definido, nesse caso, o lado das pessoas não-brancas nos EUA, anunciou duas medidas imediatas para minimizar as discrepâncias nas indicações ao prêmio, entre outras alterações de médio e longo prazo.
A primeira é, valendo-se de suas prerrogativas de presidenta, acrescentar três novos membros ao conselho curador com mandato de três anos. Especula-se que, pelo menos, serão escolhidas uma mulher e uma pessoa negra para esta instância diretiva. Viola Davis, quem sabe?
A segunda decisão é incluir novos membros na comissão executiva, responsável pelas decisões-chave sobre adesões e governança. Em outras palavras, Isaacs tem consciência de que é preciso ter representantes dos grupos discriminados nas instâncias de poder para modificar as coisas.
Enquanto isso, na terra brasilis, a discussão sobre o racismo no Oscar que, em suma, faz parte do debate acerca de seu enraizamento e suas manifestações no mundo, em todas as instâncias, de diferentes formas, é obliterada pelos supostos especialistas no funcionamento da indústria cinematográfica. Como se a engrenagem da exploração de pessoas e massificação de ideias e produtos no mundo contemporâneo não tivesse componentes racistas intrínsecos.
Do lado de cá, o lado das pessoas negras do Brasil, entendemos que o Oscar é um detalhe, um aspecto da complexa engrenagem racista que move a roda do mundo. A vida segue, a postos.  Em posição quilombola de observação do mundo.

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