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21 de jan de 2016

O boicote necessário dos negros à festa branca do Oscar

 Por Cidinha da Silva



Postado em 21 jan 2016
oscars

A total ausência de atores e atrizes negros na lista de indicados ao Oscar pelo segundo ano consecutivo (2015/2016) está chamando para a briga importantes lideranças da comunidade negra estadunidense. O diretor Spike Lee e a atriz Jada Pinkett Smith anunciaram boicote à cerimônia em fevereiro.
Lee exercitou o conhecido humor mordaz ao afirmar no Instagran: “É mais fácil um afro-americano ser presidente dos Estados Unidos do que presidente de um estúdio de Hollywood”. Em seu entendimento o problema da ausência de diversidade antecede as indicações. Está alojado na insuficiência de negros, latinos e outros não-brancos no elenco da TV aberta e das redes de TV a cabo. E são as áreas executivas dos estúdios as responsáveis pela escolha dos artistas.
Atitude corajosa do diretor e da atriz tem compromisso com o enfrentamento do racismo contemporâneo, vivíssimo, mesmo em países nos quais existe número significativo de negros bem sucedidos, como os EUA.
O posicionamento de Jada P. Smith, uma mulher negra jovem, politizada e espelho para adolescentes como seus filhos, Jaden e Willow Smith, é especialmente inspirador para as mulheres negras. Em 86 anos de premiação, nos quais foram entregues 172 Oscars, as atrizes negras só foram agraciadas seis vezes.
A premiação de cinco atrizes negras coadjuvantes começa em 1940 (11 anos depois de criado o prêmio) com Hattie McDaniel, uma criada que cuidava de Scarlett O’Hara em E o vento levou. Contam que ela não compareceu à entrega do prêmio, intimidada pelo crescimento da Ku Klux Klan no sul do país.
50 anos mais tarde, Whoopi Goldberg é premiada pela atuação em Ghost (1990). Sua personagem era trambiqueira e passava por louca quando conveniente.
12 anos depois, em 2002, portanto, Halle Berry recebe o primeiro Oscar de melhor atriz principal entregue a uma mulher negra pela atuação em A última ceia, como esposa de um presidiário negro condenado à morte.
Mais 8 anos se passam e voltamos à saga das negras coadjuvantes. Em 2010 Mo’Nique performa uma mulher jovem, obesa, dependente química, estuprada durante anos pelo pai, engravidada por ele, e, por fim, contaminada pelo HIV em Preciosa – uma história de esperança.
Em 2012, Otávia Spencer é premiada pelo papel de uma empregada doméstica no filme Histórias Cruzadas.
Em 2014, Lupita Nyong’o atua como escravizada em 12 Anos de escravidão e vence na categoria de melhor atriz coadjuvante.
As atrizes negras premiadas ao longo da história do Oscar, de 1929 a 2015, representam 3.5% do total de premiações. É interessante atentar também para os papeis representados por elas. Qualquer leitor menos atento poderá perceber que são papeis historicamente destinados a mulheres negras tais como, escravizadas, empregadas domésticas, trapaceiras, quarto de despejo do mundo.
A insurgência de Spike Lee e Jada Pinkett Smith chama a atenção para as manifestações racistas que transcendem o extermínio físico perpetrado pelo uso abusivo da força nas operações policiais; pela superlotação das prisões; pela pena de morte e pelos assassinatos praticados pelo Estado. Além disso, revitalizam a força dos boicotes, tão importantes nas conquistas dos negros estadunidenses.
Ao cabo, convocam todas as personalidades negras e pessoas brancas antirracistas a se solidarizarem e a se responsabilizarem pela alteração desse estado de coisas.
A presidenta da Academia, Cheryl Boone Isaacs, reagiu imediatamente ao boicote iniciado pelos dois artistas. Em discurso inflamado, com termos fortes, escolhidos a dedo, anunciou a necessidade de “medidas drásticas” a adotar na composição do júri. Para termos uma ideia da gravidade da situação, dados do Los Angelis Times apontam que 93% dos acadêmicos são brancos e 73% são homens com idade média de 63 anos.
A ideia de Isaacs, negra, como se sabe, é dar prosseguimento ao movimento de renovação iniciado na Academia nos anos 1960 e 1970, marcado pela escolha de membros mais jovens. A meta para 2016, segundo ela, ousa em relação à primeira. Pretende-se tornar a Academia mais diversa em todos os sentidos: gênero, faixa etária, raça, etnia e orientação sexual.
Deu ruim. A hegemonia branca encarregada de deixar os negros de fora na premiação de Hollywood será abalada. O grito de guerra de Jada funcionou: “É hora da gente de cor (grupos não brancos nos EUA) dar-se conta da quantidade de poder e influência que temos amealhado e de que não necessitamos pedir que nos convidem a parte alguma”.
Lá é assim nos casos de discriminação racial em que o consumo está envolvido. Pesou no bolso, estremeceu as bases econômicas, o racismo arrefece. Até o de Hollywood.
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Cidinha Silva
Sobre o Autor
Cidinha da Silva, mineira de Belo Horizonte, é escritora. Autora de "Racismo no Brasil e afetos correlatos" (2013) e "Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil" (2014), entre outros.
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