Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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1 de fev de 2017

Sobre o livro #Paremdenosmatar!




Por *Saulo Dourado

É para escolas também o livro, é claro. Não só porque inclui o tema educação, e sim porque algumas vezes um texto tem a forma de uma aula não-didática, uma aula que eu, enquanto professor, por exemplo, gostaria de realizar, estética e ética a um só passo. Ao ler uma crônica a respeito de um vídeo ou de um debate de comentários em uma foto de Facebook, eu, leitor, buscava a referência para assistir e dialogar com a autora. Não deixa de ser uma oportunidade nova para um livro de crônicas, o de ser um objeto cercado por aparelhos de multimídia, capazes de nos levar a uma situação analisada in loco. É uma oportunidade também que um professor não possuía no passado.

Ter uma crônica que comenta um vídeo que pode ser exibido, com análises de favoráveis e de contrários, e questões para debate: eis uma aula completa.

A escrita por si independe daquilo que descreve. São análises autônomas. Cidinha da Silva faz textos de hiperlinks com a naturalidade de um texto impresso. É por isso também que estão e devem estar em livros, para além de portais web. Não descarto, porém, que uma obra como essa ou a reedição mesmo de #Parem de nos matar, lá para 2050, não seja em uma plataforma interativa, com mídias afins e incursões de ordem de leitura ao mergulho do leitor.

Mas não fujo do assunto, nem do primeiro apresentado, apenas sigo o livro e o que ele faz sentir. Este é o ponto, e particularmente é minha esperança em tempos cruéis: aliado ao pensamento atento, existir a capacidade de abrirem-se caminhos pelo choque ou sublime do afeto, na compaixão, na fúria ou no mínimo detalhe. O fascista, pois, é aquele que não quer se comover, o racista é aquele que enquadra seus limites de afeição, e com isso amputa sua própria capacidade de afeição. Sentir o que é próximo e enxergar a grandeza desde o minúsculo se faz onde a literatura nos educa. Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como Obtuário de uma lembrança, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

'És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia'...

Se uma pessoa nunca teve um dos seus desfeito assim e de cá alcança tais palavras escritas para aquele que acabou de ser informado como morto no telejornal, entre os muitos que sejam, o que não sente?


*Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e Sociologia. Autor dos livros de contos O Mar e Seus Descontentes (Via Litterarum) e O Autor do Leão (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis.
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