Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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26 de set de 2007

Brown, dos Racionais, na TV Cultura

É, o Brown estourou a boca do balão na TV Cultura, durante históricos 15 minutos, do programa Roda Viva, segundo os medidores de audiência. A grande imprensa chamou de “entrevista morna”, a conversa dele. Pode ter sido, mas não por culpa do entrevistado. Não sou fã do Brown, tampouco dos Racionais, o machismo e a homofobia expressos em letras e posturas públicas deles, me dão urticária. Mas reconheço a importância política e artístico-cultural dos caras e percebo, exatamente, como o racismo opera contra eles. O clima estava muito tenso do início até a metade da entrevista. O Brown mordia os lábios, engasgava, passava as mãos no rosto e nas pernas, escapavam-lhe visíveis sinais de nervosismo, de inadaptação àquele espaço midiático, mais do que um espaço de debate, naquela noite. Os entrevistadores não deixavam o menino falar, desenvolver idéias, finalizar respostas. Atropelavam-no com perguntas disparatadas. O apresentador Markun começou irônico e terminou debochado. Num momento em que o Brown descrevia uma “quebrada” de condições inabitáveis, disse que o pessoal construía a casa em um “lugar íngreme”, e como se não soubesse o que é um lugar íngreme, ironizou, “é íngreme que se fala, né”? O Markun riu e disse que se tratava de uma “pirambeira”. Ele deve achar que a palavra íngreme (empregada com muita propriedade) não deve compor o repertório lingüístico de um rapper. Lembrou-me um pouco a entrevista do escritor angolano Ondjak (de quem também não sou fã) no mesmo programa. Havia entrevistadores que o tratavam com desprezo, desrespeitavam sua literatura e idéias, só queriam falar dos escritores angolanos que o antecederam. Ficou nítido (risível) o abismo entre os mundos dos entrevistadores e de Brown. O desconhecimento que a classe média branca tem da favela. As reflexões e parâmetros da “grande política” que não conseguem alcançar, entender, decodificar os micro-espaços. Aliás, o Roda Viva tem se mostrado um programa assim, não repete com os temas culturais e periféricos, a mesma qualidade do debate sobre economia e política tradicionais. Maria Rita Kehl insistia na ladainha de que os meninos de classe média (branca, eu complemento) ouvem e curtem os Racionais a despeito deles não se importarem com isso. O Brown respondia: “e daí? Eles precisam conhecer o mundo que os cerca,pra se defender, pra se integrar, por isso ouvem nossa música”. Fechou. Mas ela insistia, como se o fato pudesse ser um alento, um início de solução para a guerra entre o centro e as periferias. Renato Lombardi, editor da TV Cultura, com sua cara seríssima, perguntava/aconselhava/recomendava: “você sabe que é um exemplo? Que pode ajudar a tirar esse meninos dessa vida (da criminalidade)”.”Não sou exemplo de nada”, dizia o Brown. “Eu sou exceção, sou um sobrevivente”. Os três outros entrevistadores foram mais sagazes, sensíveis, objetivos e deram ao Brown as melhores possibilidades de desenvolver idéias. A grande imprensa chamou de clichezão à pergunta, “o que é o amor pra você”, feita por Paulo Lima, editor da revista Trip. Não é não. O Brown representa lugares nos quais corações e mentes são embrutecidos pela falta de direitos, de cuidados, pela violência, pela arbitrariedade, e é importante falar de amor, sim senhor. Dizer que ama a mulher, o filho, os amigos, os parceiros, para milhões e milhões de pessoas ouvirem. Assumir-se como pai ausente. Vamos, homens, cada vez mais, discutam a paternidade na arena pública. É bom que um homem duro, de poucos sorrisos, fale de amor, de lealdade, de poesia, de encantos. Por falar nisso, ele tentou falar de música, mas não deixaram. Era sempre interrompido. Algumas perguntas do escritor Paulo Lins e do jornalista Ricardo Cruz ensejaram respostas lapidares, para serem sentidas, antes de estudadas. O cara se mostrou sensível, fragilizado, humano, corajoso e que ninguém pense que ele se constrói como líder de um exército, ele não quer sê-lo. Meus respeitos, Brown.
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