Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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12 de fev de 2008

Dicionário Literário Afro-brasileiro será lançado em São Paulo

Nei Lopes é uma figura! Digo isto com respeito de fã, pois nunca fomos apresentados, não sou amiga dele, não tenho qualquer intimidade. Apenas presto muita atenção no que ele diz. Outro dia fui ouví-lo cantar, junto com a querida Fabiana Cozza. Era espetáculo de uma série chamada "Religare - macumba da boa". Semanas antes tinha visto Mart'nália, na mesma programação, um arraso. Pois bem, lá pelas tantas, na hora de apresentar os músicos, o "velhote" desfere sequência irônica de comentários. Primeiro fala de um tal up grade no samba, representado pelos novos nomes e perfis dos músicos e rememora: "antes o percussionista era o "Fumaça", o tocador de cavaquinho era o "Gasolina" e por aí foi. Contrapôs esses músicos antigos aos de hoje, seus nomes pomposos e sobrenomes europeus. Essa eu entendi, ele nem precisou explicar. Depois desferiu outra que me deixou interrogativa. Disse que Alcione grava sambas dele há uns 36 anos, desde que "ela era uma garotinha, ele era um rapaz imberbe e Beth Carvalho já era madrinha". Não entendi Nei, meu repertório não deu. Há mais coisas entre o céu e o samba do que possa imaginar meu desconhecimento de histórias e mumunhas desse universo. Copiei um texto do blogue dele, chama-se Mandela e a farra no motel de realengo - um episódio exemplar". O cara é ou não é uma figura? "Nos anos 90, o Velhote aqui do Lote foi servir ao Estado, no segundo governo Leonel Brizola. E de repente viu-se ocupado com os preparativos para a recepção a Nelson Mandela, que, recém liberto dos cárceres do apartheid, viria ao Brasil. Reúne daqui, reúne dali; disputa daqui disputa dali, pra ver quem era o "dono" da ilustre visita, após meses de stress e politicagem, chega a semana da festa. Nos detalhes finais, na hora H não se tinha o nome do fornecedor do bufê, constante de pingues salgadinhos e uns refrescos meio mornos. Mas era preciso empenho, licitação, aquelas coisas. Mais correria. Até que um burocrata experiente descobre na Lei uma justificativa para não se licitar o fornecimento do bufê: urgência, pois Mandela chegava no dia seguinte. Achada a receita legal, vem o remédio: o Doutor Fulano conhecia um bufê que já era fornecedor do Governo. Aí assinamos os papéis. Só que o bufê era do mesmo dono de um motel da avenida Brasil, em Realengo. E a nota consignou: "Motel Coisa e Tal; CGC tal; fornecimento de N lanches". Pra quê!? No dia seguinte, o maior jornal do Brasil lascava a manchete, mais ou menos assim: "FUNCIONÁRIOS DE BRIZOLA E COMITIVA DE MANDELA FAZEM FARRA EM MOTEL". E a assinatura do Velhote estava lá, na foto do documento que autorizara a despesa e agora ilustrava a matéria. Para decepção e vergonha de um Irajá inteiro. Mais tarde, o imbroglio foi desfeito. Mas os visitantes do Lote podem imaginar o quanto isso custou de mágoa, acabrunhamento, sensação de impotência, pressão alta, dor de cabeça. Esta remexida na parte fedorenta do baú vem a propósito da demissão de Matilde Ribeiro da SEPPIR, num triste caso que há dias vem ocupando as páginas dos jornais. Há sempre uma casca de banana, uma armadilha à nossa espera. Os que são "macacos velhos" saem dessas numa boa, sem estresse ou depressão. Mas os nossos, quando são bem intencionados, escorregam sem nem saber que escorregaram. E aí a dor é grande, mas muito grande mesmo, repercutindo em ondas. Esclareço que, embora inscrito na OAB e com anuidade em dia, não tenho procuração da ex-ministra para qualquer tipo de defesa. Mas quem conhece sabe que, até aqui, todos os órgãos públicos voltados para a cidadania dos afrodescendentes nunca têm carro, verba, móveis, respeito, status, nada! São criados apenas para que não se diga que o Estado brasileiro não se preocupa com os seus excluídos. E a parte melhor de seus funcionários, quase sempre trabalhando em nome da causa, estão o tempo todo sujeitos àquela "casca de banana" sobre a qual tanto o saudoso Brizola nos alertava. Seria bom, então, que antes de qualquer juízo sobre o caso SEPPIR - principalmente se as investigações forem, mesmo, estendidas ao governo Fernando Henrique - se refletisse melhor, buscando historinhas exemplares, como a de "Mandela no motel". Mesmo porque, logo depois, no governo seguinte, a Secretaria Extraordinária de Defesa das Populações Afro-brasileiras, genialmente idealizada e liderada pelo venerando Abdias Nascimento, foi extinta. Ou será que não sabemos que, no caso específico de Matilde Ribeiro, o que está em jogo, neste momento, é a apreciação, pelo Congresso, do Estatuto da Igualdade Racial, pièce-de-resistence da SEPPIR"?
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