Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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15 de fev de 2008

Esta é a capa do Tambor

A ilustração é da Lia Maria, a arte final da Iléa Ferraz e do Cristiano Rafael. Agradeço aos três. O livro está na gráfica, logo, logo, sai da prensa. Enquanto aguardo, começarei a postar um texto aqui, outro ali, com ilustração acoplada, quando for o caso. O título é uma corruptela de "olhe, você me deixe, viu?", expressão bastante usual em terras soteropolitanas, de pura independência. Acrescentei a batida do tambor para reafirmar que faço o que quero, "escrevo o que quero", como fazia Biko, e que ninguém me policie. Foi também para trazer mais um som, posto que o ritmo na escrita me é tão caro. A capa é uma viagem nas águas, dos rios, dos mares... perceberam os belos tons de azul? Pode ser também o mergulho no céu, dado por um peixe solitário e voador, de olho espelhado, oxunico, dupla vidência. Pode ser tudo mais que você quiser, este é meu jeito de interpretar. Quando Lia mandou o desenho do peixe, a princípio para ilustrar um dos textos, eu disse, "esta é capa". Nos desentendemos um pouco, ela sugeria outro desenho e eu disse que o peixe completava o conceito do livro. É fertilidade mas é busca solitária, ambas envolvidas pelo mar, imensidão e profundidade, colorido de alegria, olhos bem abertos, atentos. Um peixe que nada rumo à superficíe, de olho nas estrelas. "O mar de Minas é o céu". O livro é obra singela, composta por 25 histórias curtas, ilustradas, crônicas e mini-contos que têm como pano de fundo, discussões de gênero e sexualidade, centradas em dois aspectos, o amor e a solidão. São várias as personagens femininas a divagar sobre os temas, com acidez, a maior parte do tempo, em gotas de lirismo, em um ou outro texto e com humor, e talvez um pouco mais de acidez, em outros. Escrever e publicar o segundo livro é um alívio, quer dizer que você não estagnará no primeiro, não será escritora de um livro só. Há um tipo de autor que depois de 30 anos de exercício literário, 5 ou 6 livros publicados, conclui: "eu publiquei demais". Talvez ele esteja dizendo que deveria ter se dedicado ainda mais ao aperfeiçoamento da escrita, que deveria ter burilado de maneira mais precisa o diamante bruto da sua genialidade. Há outro tipo de autor que tem mais fome de publicação, de diálogo com o público, é menos genial, tem pegada de João-de-barro, canta enquanto constrói a casa, tem consciência de que é nas publicações, resultado de muita labuta na escrita, que se vai aperfeiçoando e construindo o escritor. Nem todo mundo dá pra Guimarães Rosa que publicou pouco e disse tanto. Há pessoas que precisam peneirar bastante o cascalho pra encontrar um diamantezinho, se Adélia me permite deformar seu belo verso. Eu tô curtindo muito tudo isso, espero que vocês curtam também.
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