Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de fev de 2008

Ogundana: o Alabê de Jerusalém

“Ogundana: o Alabê de Jerusalém” é, por enquanto, meu livro do ano. Comecei a fila de leituras com uma nova visita a Mário Quintana, outra a Paulo Mendes Campos e na seqüência fui arrebatada pela prosa poética de Altay Veloso. A capa fisgou minha atenção ao primeiro olhar – um belo jovem negro de tranças, rosto de estátua de bronze e olhos iluminados, um machado de Xangô e um pássaro de três cabeças, dentre outros adereços laterais. Também me inquietou o título do livro, pensei tratar-se da história de um filho de Ogum, mas a leitura me trouxe um filho de Xangô e Oxum, maternado por Nanã, conhecedor dos segredos de Ossain e Obaluaê, apadrinhado por Exu e Ogum, ancorado na generosidade e carinho de todo o panteão dos deuses iorubanos. O livro estava disposto entre os contos e crônicas da livraria e se não fuçasse a prateleira não o teria visto. Catalogação esquisita, Ogundana é um quase-romance, uma novela, prosa poética, pura poesia desenhada por hábil contador de histórias. Faz parte de um projeto maior de Altay, a ópera “O Alabê de Jerusalém”, encenada com sucesso de público e crítica no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em maio de 2007. Ogundana é um andarilho africano que viveu há dois mil anos, contemporâneo de Jesus Cristo. Ele sai da própria aldeia, em Ifé, Nigéria, aos doze anos e atravessa todo o Norte da África, a pé, poucas vezes em caravanas, até romper as fronteiras do continente e chegar a Roma. Busca conhecer o mundo e encontrar a si mesmo. A passagem pela África ocupa o primeiro quarto do livro e foi o que mais me emocionou e interessou. O tônus poético das cenas e cenários é de difícil tradução, resta destacá-los para que os sentidos de quem lê este texto possam se aproximar da magia de Ogundana, ao demonstrar, por exemplo, a necessidade de desenvolver fina sintonia com o Orixá de cada dia, como requisito para se tornar um Alabê, aquele que cuida da música nos cultos Iorubás. “Foi então, que na manhã seguinte, com realeza e requinte, na casa dos instrumentos, recebi dos sacerdotes a empunhadura do archote que ilumina os fundamentos, a orientação secreta pra ficar em sintonia com o Orixá de cada dia, pra receber a energia que cura, que alivia e neutraliza a magia fria dos maus momentos. Assim, ao som dos tambores, Xangô desceu de Aruanda trazendo seus dois machados e os cruzou no meu peito, realizou os preceitos; e, então, já quase eleito um Alabê iniciado fui levado em cortejo até a beira do rio. E ao som dos cânticos sagrados, recebi a grande honraria: ser portador de um colar, uma guia, que foi por Oxum batizada, pertencer à hierarquia dos que vivem em sintonia com o raio que Xangô envia rumo ao palácio das águas” (p.18). Madiba, primo e melhor amigo de Ogundana vai ao encontro dele, pois não o deixaria viajar sozinho rumo ao desconhecido que ele, Madiba, também queria alcançar. Ogundana o define como aquele que “trazia consigo, além da força dos destemidos, a luz do sexto sentido que brilha nos olhos dos iniciados.” Embora fosse um menino, assim como ele, inocente, Madiba “era um sábio, tinha a intuição dos magos, a lucidez dos videntes”.Mas Madiba adoece, parte, e o momento de sua passagem é requintada reflexão de fé na existência do mundo espiritual e nas razões que a razão desconhece. A dor de Ogundana é dilacerante e a poesia gerada dessa dor nos ajuda a compreender e superar nossas dores causadas por perdas: “Conduzido pela dor, fui levado ao traiçoeiro reino da apatia. Lá, sujeito às bruxarias silenciosas e à música furiosa daquele mundo sombrio, caí no mais denso e frio estado de melancolia. Não mais levantei os olhos para contemplar o firmamento; e, sem o sábio aconselhamento das estrelas, distante da luminosidade solar e do carinhoso olhar da lua cheia, cheguei a perder de vista o elo resplandecente da poderosa corrente que une os deuses da minha aldeia. Era como um açoite, a escuridão da noite, toda vez que ela chegava. E eu sofria pesadelos, acordava assustado. Ainda na inocência, confundia a luz da vidência com as trevas dos maus presságios”(p.35). Antes disso, a lucidez de Madiba diante da morte iminente, impressiona. “Ogundana, sinto muito, mas acho que chegou a hora. Minha razão, já está em silêncio, não encontrou nenhuma resposta, e já não faz nenhuma pergunta. Mas a tua, vai estar mais forte que nunca, depois da minha partida, pode deixá-lo de costas pra luz do seu espírito, e, te mergulhar em suas próprias sombras, arruinar sua vida. A razão quase sempre zomba da percepção da alma. Não aceite a hostilidade, segue em busca da verdade, confia nas divindades, que com o tempo, ela se acalma” (p. 32 e 33). Ainda em estado aflitivo, Ogundana prossegue a caminhada. Sonha com um rei altivo e carinhoso, senhor de belo reinado que lhe dá conselhos plenos de sabedoria: (...) “Todos nós estamos sujeitos a cair nas armadilhas da tristeza. Não percas a delicadeza, só ela traz a clareza quando a estrada é sombria, mantém-te em vigília. Às vezes parece que tarda a chegar o tempo das flores. Mas é que a natureza o guarda porque sabe que os pintores, os que fabricam as cores, moram em outras estações. E por isso ela espera até que outros artistas procurem-na e felizes lhe digam: 'Querida mãe natureza, já temos todos os matizes pra pintar sua primavera'” (p.37). Uma das mais belas partes do livro vem logo a seguir, um diálogo entre o rio Nilo e o deserto, feito por meio dos viajantes que trazem a um, notícias do outro. Há também reflexões profundas sobre a vida e a paixão, “uma nos joga na estrada e a outra em algum lugar nos espera”, e, finalmente, sobre a difícil decisão de persistir no caminho, de atender ao chamado da vida: “Hesitei, não por me faltar coragem, mas o ritual de passagem de um mundo conhecido pra outro tão longe de nossas raízes é um ato violento. Correu por dentro de mim como um raio, quase me levou ao desmaio, uma assustadora sensação de saudade (...) Chorei. Não como uma criança, mas como um homem que tem esperança, um homem que acredita que a estrada ama os caminheiros, que crê ser do mundo um passageiro e que não deve descansar enquanto o corpo a alma puder levar ao encontro de novos companheiros" (p.53). A partir daí, a poesia reinante se torna episódica. Há mudanças no tom do texto, adota-se um coloquialismo excessivo que destoa da elaborada linguagem anterior. O maior mérito dos restantes três quartos do livro, a meu ver, é destacar a simultaneidade da presença de Ogundana, um africano, ao período de vida de Jesus Cristo na Galiléia. Ou seja, o autor mostra o intercruzamento de mundos que não eram estanques, cujas fronteiras eram transpostas e ocorria o diálogo, mesmo que entre estrangeiros, entenda-se, pessoas e culturas em permanente estranhamento. Ao final, uma grande surpresa, Ogundana não seria uma personagem de ficção? Teria existido? Seria hoje uma entidade espiritual, o “Alabê de Jerusalém”, que se comunica com os humanos ancorado em uma plêiade de pretos velhos resplandescentes? Se assim for, pode ser “desculpada” uma ou outra incongruência temporal da obra, por exemplo, uma personagem que viveu há dois mil anos afirmar que não poderia deixar de adotar um determinado comportamento “por conta de ideologia”. A palavra ideologia sequer existia naquela época, é construção política do século XVIII. Mas é também um bom impasse literário, ou foi problema de revisão, de falta de leitura crítica, ou solução de espírito atemporal que vive em múltiplas eras e incorpora distintas linguagens.
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