Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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11 de fev de 2008

Tim, Bruna e Edimilson

Comecei a ler a biografia do Tim Maia, escrita por Nelson Motta. Um texto delicioso, recomendo. Logo no início o Motta conta um episódio passado em Nova York, após um encontro dele com o Tim, o cantor lhe presenteia com um disco, no qual escreve “Com o respeito do Tim Maia”. O Motta se desmancha todo, pois o Tim respeitava pouca gente, era sincero e desconcertante. Terminara de ler o trecho citado e toca o interfone notificando a chegada de um sedex. Era do Edimilson, aquele que, ao contrário do que se dizia do Tim, respeita todo mundo. Mandou-me de Juiz de Fora um envelope com três livros de sua lavra, três dedicatórias lindas e ainda escreveu no espaço da destinatária: “para a escritora Cidinha da Silva”. É ou não é coisa pra me derreter como manteiga ao sol? Um ídolo que reconhece a gente no ofício novo é coisa digna de nota. Obrigada, querido amigo. De quebra ganhei um sorrizão do porteiro que, finalmente, deve ter descoberto o que faço na vida. Meus presentes são: Malungos na escola – questões sobre culturas afrodescendentes e educação, brevemente comentado no blogue em finais de 2007; Signo cimarrón, um volume de poesia, em castelhano, e Rua Luanda, “canções de gente pequena e de gente grande também.” Meu problema com os livros do Edimilson para os pequenos é que desaparecem, os pequenos da minha casa já vasculham minhas estantes e raptam os livros interessantes para as próprias coleções. De volta ao Motta e ao Tim, que merecerão um comentário mais detido ao fim da leitura de “Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia”, a coisa chata até o momento, é perceber um apego desmesurado do Motta a um jeito antiquado de descrever as relações raciais no Brasil, quer seja, a ênfase num degradê de cores inútil para mostrar como as pessoas são. É um desfile de “mulatos e mulatas, claros, escuros, foscos, moreninhas e moreninhos, negões”, etc, e confusões também. Para minha surpresa, dois negrões aptos a desfilar no Ilê Ayê, Wilson Simonal e Jorge Benjor tornam-se mulatos na descrição do Motta. Há uma tendência também a “morenizar” os pobres da trama, Roberto Carlos, por exemplo, além dos olhos tristes, tem os cabelos crespos e a pele morena destacados no início de carreira, em contraposição aos “branquinhos” da Bossa Nova, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e companhia, moradores da Zona Sul carioca. Isso cansa, a insistência nesse Brasil de relações raciais folclorizadas e sem coragem de explicitar os ardis do racismo e da discriminação racial. Ainda bem que ventos novos sopram no mundo. Bruna Lombardi, por exemplo, dá lição de modernidade no tratamento da temática racial, dentre outras relações socialmente assimétricas, abordadas no excelente “O signo da cidade”, filme roteirizado por ela e bem dirigido por Carlos Alberto Ricelle. Está tudo ali, o cotidiano de negros brasileiros, aqueles mesmos que a folclorização advoga retratar com seus chavões cromático-classificadores: o assaltante negro que é pai zeloso, rouba pra comer e parece não ter arma pra assaltar. Quando consegue emprego vira segurança de bacana e mata outro negro, trabalhador, por acidente, ao atirar num trombadinha, no exercício de sua autoridade de segurança privado e armado; o enfermeiro negro, super humano e honesto, que atende a todo mundo, faz tudo o que os médicos não fazem, mas não aceita pagamento extra. É um cara solitário e triste, o álcool é sua muleta, só assim suporta a vida. A travesti negra e jovem que sonha em comprar uma bolsa de grife e é espancada quase à morte por dois playboys brancos que se aproximam como falsos clientes, enquanto ela namora o sonho de consumo na vitrine. Acho que em momento algum as palavras negro, afro-brasileiro ou afro-descendente são pronunciadas, nem uma vez sequer, não é preciso. Tampouco se recorre a essa babaquice descritiva de mulato-isso, mulato-aquilo, moreno-não-sei-das-quantas, como recurso de valorização da mestiçagem e afirmação de uma certa percepção de tensões raciais. A trama bem construída, as personagens densas e os bons atores falam por si mesmos. Em termos de linguagem, o único deslise da roteirista, por excesso de zelo, ocorre em um diálogo no qual uma personagem inusitada se declara lésbica. Ela usa a palavra “preconceito” para descrever as limitações vividas no exercício da orientação sexual numa determinada época. O discurso militante era desnecessário, o poético já dizia tudo. Um dos maiores méritos do roteiro, a meu ver, é a verossimilhança das histórias, os acontecimentos e intercruzamentos são factíveis, ao contrário de “Crash, no limite”, filme premiado, onde o real ficcionalizado beira o risível, em certas cenas. “O signo da cidade” é humano e possível, não é piegas. Vale a pena assistir ao filme, fica a indicação. Por ora me despeço, volto ao Tim, o furioso.
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