Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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15 de out de 2008

Paulina Chiziane e Amélia Dalomba, conosco em novembro

As escritoras Paulina Chiziane (a moçambicana sorridente) e Amélia Dalomba (a angolana ao microfone) estarão no Brasil no início de novembro, para participar de eventos literários. Da Paulina já divulgamos alguma coisa aqui no blogue, já sabemos que é uma mulher forte, de opiniões contundentes, demolidoras, às vezes. Da Amélia postarei uma entrevista concedida em Angola e disponível nos sítios de busca, logo a seguir. Posso adiantar que tive o prazer de conhecê-la na PUC Contagem, MG, em agosto de 2006 e tenho o seu "Espigas do Sahel", autografado. Antes de nos encontrarmos na mesa literária que dividiríamos, eu a vi pelos corredores e sabia quem era ela. Corri para me apresentar e tentar desfrutar uns minutos exclusivos de interação com a poeta, mas qual nada, aguardei por uns 15 ou 20 minutos e nada de conseguir falar com Amélia Dalomba, dona deste sobrenome sonoro e lindo. Ocorre que ela estava em conversa animada e transcendente com uma moça brasileira que parecia partilhar com ela a mesma fé. Eu me comportei direitinho, segundo aprendi na Tradição, como uma africana mais nova (pouca coisa) diante de uma africana mais velha que tratava de assuntos seguramente mais importantes que os meus. Esperei e quando chegou a minha vez, ela se desculpou e delicada despediu-se de mim, pois alguém a chamava para outro compromisso. No dia seguinte aconteceu a nossa mesa e li, tímida, um texto do Tridente pra ela, "A velha na soleira da porta" - Terminaram de aprontá-la e foi colocada na porta para receber os convidados. Só os homens. Tradição Balanta. Durante sete dias ficará ali, dia e noite, noite e dia, recepcionando os visitantes. Sempre homens. As crianças passarão pela rua, rirão e farão comentários, mas não se atreverão a chegar perto. Algumas mulheres ficarão curiosas, principalmente as de fora, que se perguntarão porque só os homens podem ir até lá. Ela receberá presentes levados pelos homens e eles conversarão com ela. Conversas cujo teor ninguém saberá. Depois de sete dias ela sairá da casa onde viveu. E descansará. Em paz. - A timidez apareceu também porque a Amélia é uma trovadora vigorosa, da melhor estirpe das Griotes* do oeste da África e das Cantopoetas das tradições Banto no Brasil(posso chamá-la assim, Edimilson?). Como verão na entrevista abaixo, o entrevistador chega a sugerir que Amélia cante profissionalmente. Contudo, recebi um comentário doce e cheio de sorrisos e ainda um exemplar do Espigas. Amélia Dalomba fará um recital poético dia 07 de novembro, às 16:00hs, na Fliporto, cujo tema central deste ano serão as literaturas africanas. Paulina Chiziane fala no mesmo dia, na mesma programação, também em Porto de Galinhas, PE, uma hora antes de Amélia. Dois dias antes, Paulina estará em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, num encontro em que escritores de Língua Portuguesa discutem violência na literatura (Dia 05/11, às 19:00, entrada franca, mas com limitação de lugares - 11 32565270). *Griote: feminino de Griot, espécie de corporação profissional compreendendo músicos, cantores e também sábios genealogistas itinerantes ou ligados a algumas famílias cuja história cantavam e celebravam (Amadou Hampâté Bâ). Costumanos falar apenas dos Griots, os homens, mas existiram e existem importantes Griotes, mulheres.Entrevista de Isaquiel Cori a Amélia Dalomba. "É uma das vozes femininas que mais se fazem ouvir na literatura angolana. Encantadora e declamadora vibrante, a sua presença é amiúde requisitada nos mais importantes saraus culturais luandenses. A sua poesia, patente nos dois livros que publicou (Ânsia e Sacrossanto Refúgio), pela força, sinceridade e sensibilidade aguçada que irradia, impôs-se rapidamente e catapultou-a à condição de uma das mais importantes poetisas angolanas. Contestando o rótulo fácil de cultora de uma poesia feminista, afirma, categoricamente, e com toda a verdade, que também canta o choro das crianças, a degradação social e o remetimento dos povos à ignorância. Nascida em Novembro de 1961, em Cabinda, instala-se em Luanda em 1981. É sua opinião que "a poesia angolana está a ganhar cada vez mais o mistério fabuloso da sublimação da palavra e do sonho". E, mais do que nunca, tem a convicção de que Angola terá 'um futuro melhor'." Pergunta - Nasce em Cabinda em Novembro de 1961. Foi lá que começou a escrever? Resposta - Sim. Por volta dos 13 anos, com o incentivo de professores e família. P - Quais são as influências ou motivações que a impulsionaram para a criação literária e, mais concretamente, para a poesia? R - Talvez o facto de ter tido pais que cantavam, contavam histórias e estórias e nos punham a contar as estrelas e a descobrir imagens nas nuvens. P - Quais foram as leituras decisivas que mais peso terão tido na sua formação cultural e poética? R - Camões e Gil Vicente, as estórias da carochina e do Capuchinho Vermelho e tantas outras referências, como Tchekov, Gorki, Alexandre Dumas, Neto, Jacinto e Viriato, enfim... P - Fale-nos do ambiente cultural, social e político reinante em Cabinda durante a sua adolescência... R - Cabinda não era totalmente diferente do resto dos territórios colonizados. A diferença substancial estava no facto de ter sido uma zona franca, o que originava uma baixa de preços substanciais, nos produtos básicos. Há que sublinhar que o movimento cultural era intenso. No que toca à música, por exemplo, vários agrupamentos musicais locais faziam a festa das populações, muitas vezes sem concorrência doutras paragens. A noite colonial era do mesmo tom, textura e embrutamento, no que toca à dignificação dos naturais, logicamente. P - Quando e em que circunstâncias vem a Luanda? R - Venho viver para Luanda por volta de 81, devido à transferência do meu companheiro. P - Como define a poesia? R - Poesia é a expressão sublimada das inquietações do espírito, isto é, do nosso corpo etéreo... P - Para que serve a poesia? R - Para a expurgação de penas, alheias e nossas, como um grito, uma gargalhada, um ponto de afirmação, interrogação, reticências, ponto e ponto e vírgula, das nossas vivências... Enfim, um continuado exercício de percepção... P - Essas palavras são suas: "Que / tortura / a cada / Instante / Ah / Se não fosse / Essa mania / De escrever / Poemas / que / dão / alento // Acho / Amor / que morreria / por ser / tão grande / esse tormento". E também essas: "Sacrossanto refúgio". Essas palavras significarão que, para si, a poesia é o território da sua realização pessoal, o local aonde vai buscar forças e ânimo para viver? R - Não. Conheço muitos e brilhantes leitores que se identificam com o que escrevo. A poesia para mim é apenas um complemento na busca da minha paz profunda. P - A transformação da poesia em "sacrossanto refúgio" significará a deificação da poesia, a elevação da poesia a entidade divina? A poesia, digamos assim, é o seu Deus? R - É um refúgio sagrado, em alguns momentos, mas também pode ser um guarda-chuva, guarda-sol, uns óculos escuros, uma máscara cirúrgica ou de carnaval... P - Acredita que existe uma poesia feminina? A existir, ela seria criada apenas por mulheres? R - Não. Alguns aspectos de vivências, próprias, como a maternidade, algumas expressões passivas dos sentimentos, podem identificar o sexo de quem escreve?... Talvez. Ainda ontem escrevi a letra de uma canção, para ser interpretada por homens... Acho a poesia assexuada... e procurar doentiamente destrinçá-la pelo sexo da letra é, no mínimo, deselegante. P - Por vezes, a sua poesia faz abertamente a apologia das causas femininas. A Amélia Dalomba assume-se como feminista? R- Canto, também, o choro das crianças, a degradação social e o remetimento dos povos à ignorância. Será que me poderia inventar um rótulo para isso? Se sim, agradeço. P - Como vê a poesia angolana hoje? Nela, o que mais lhe fascina? R - A poesia angolana está a ganhar cada vez mais o mistério fabuloso da sublimação da palavra e do sonho... E fascina-me precisamente este aspecto. Muito embora, amiúde, os leitores exijam mais comunicabilidade. Só que ninguém poderá no acato da criação preocupar-se com isso, mas uma coisa é certa: a mensagem fica sempre no subconsciente e acredito que não a deixaremos por mãos alheias... P - Diga-nos a sua opinião sobre: a poesia de Ruy Duarte de Carvalho, José Luís Mendonça, João Melo, João Tala, Conceição Cristóvão, Lopito Feijó; a música de Dog Murras, Paulo Flores, Carlos Burity, Euclides da Lomba; a pintura de Viteix, Álvaro Macieira, Tona, Marcela Costa. R - A sua pergunta é bastante condicionada. Porquê? Qualquer um dos nomes citados simboliza uma potência no mundo das artes angolanas, dentro do seu género, sua época, seu público. Só que citou apenas uma mulher e sabe tanto quanto eu que em todas as esferas da criação elas estão presentes já em número e qualidade respeitáveis. Enfim... deixo aos críticos a abordagem analítica mais profunda de todas estas figuras da cultura angolana. P - Acredita que a literatura pode ajudar a mudar a vida e o mundo? R – Acredito, sim. Germano Almeida, de Cabo Verde, é prova disso, com o seu livro O Dia das Calças Roladas, e mais um outro recente que já não me recordo o título... P - A edição de livros tende a crescer, mas nota-se uma confrangedora falta de leitores, na medida em que até edições de 500 exemplares ficam anos e anos nas prateleiras das livrarias. O que poderia ser feito, do seu ponto de vista, para mudar essa situação? R - Enquanto o Estado Angolano não subvencionar o livro, as prateleiras continuarão abarrotadas, a formação dos Angolanos deficiente, pois, enquanto isto não acontecer e quem de direito não agir no sentido de priorizar a formação do indivíduo, é injusto o que se ouve muitas vezes, a atribuição de culpas aos escritores... P - Como cidadã e poetisa, tem fé num futuro radioso para Angola? R - Perder a fé em Angola, nunca! Estaríamos todos mortos. Temos que acreditar e fazer por isso. Um futuro melhor! P - Nesse mundo cada vez mais globalizado, em que aparentemente tudo ou quase tudo parece já ter sido inventado, o que é que os escritores angolanos podem acrescentar de novo? R - Angola ainda é virgem em muitos aspectos. Temos muito para pesquisar, para o melhoramento da nossa expressão artística. E para isso é preciso humildade, identidade cultural e coerência de valores. Há muito a fazer... P - Neste nosso continente africano ameaçado pela pobreza extrema e doenças endémicas como o SIDA, e não só, e ainda pelas guerras, há algum espaço para optimismo quanto ao futuro? R - Ao longo da história da humanidade, ciclicamente, pestes assolaram os humanóides. Por isso, devemos sem pânico cuidar da prevenção e cuidados primários, para evitar a disseminação. Sabemos que tudo isso passa por medidas dos Estados, na formação das consciências, no combate e no apoio às organizações da sociedade civil... E alguma serenidade, como uma questão de auto defesa, até... P - Pode dizer-nos das suas próximas novidades literárias? R - São só projectos. Deskuanzados**, mas ricos de sonhos e manuscritos. P - Sabemos que também tem uma inclinação para a música. Para quando um disco seu? R - Como gravar um disco?! Se ainda não fiz nem uma terça parte do que devia em relação à poesia, como meter-me em outra empreitada, que, sinceramente, ainda não estaria à altura? Tenho letras e melodias que, se alguém quisesse fazer-me o favor de ouvir e cantar, já seria muito." **Kuanza é a moeda de Angola, quando Amélia diz "deskuanzados", então, imagino que fale sobre projetos ainda sem fundos para execução.
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