Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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23 de abr de 2009

Sobre o preço de um peixe sem cabeça e as espinhas do ofício

Saudade de escrever uma coisinha mais autoral para o blogue, mas andei atrás (ainda ando) do preço do meu salmão sem cabeça. Explico: o amigo Marcelino Freire, dia desses, em seu movimentado blogue, ironizou a própria condição diária de revisor em agência de publicidade, que exige dele, por exemplo, pesquisar o preço do quilo do salmão sem cabeça. E isto, ele continua, o humaniza, faz baixar a bola de escritor jabutado (ganhador de um Jabuti, para quem não sabe, um dos prêmios mais prestigiados da literatura brasileira) que precisa conferir o preço do quilo daquele peixe saboroso, embora não seja para consumo pessoal. Por meu turno, andei lecionando, o que não configura qualquer desprazer, longe disso, mas é trabalhoso, exige muita preparação e dedicação para executar. Enquanto carrego pedras, carrego mais pedras e vendo livros, foram 100 de uma só vez, no Paraná: 40 exemplares do Tambor e 60 do Tridente, 15% dos professores presentes compraram meus livros. Um sonho. Uma maravilha. E muitos comentários vieram, perguntas, gente avançando a madrugada ao ler sozinha, outras gentes fazendo sessões de leitura para amigos nos quartos. Agradecimentos, sorrisos, choro,descobertas, cumplicidade, admiração, sugestões. Além disso tudo, as pessoas sempre me contam histórias que esperam ver, literais ou recriadas, nos próximos livros. Eu me divirto, às vezes anoto, mas procuro não fazê-lo na frente do depoente, às vezes para não criar expectativa de publicação, embora o mais das vezes, seja mesmo como golpe publicitário da minha memória, falsamente prodigiosa. Mas como o salmão sem cabeça nos persegue, mesmo quando a venda de livros é um sucesso, houve uma moça com sorriso de louça, frio e “simpático”, que me disse assim: “está vendendo bastante, né”? “Sim”, respondi com meu sorriso de refrigerador de salmão. E a conversa deveria ter parado por ali, entendesse ela alguma coisa de técnica de refrigeração. “É bom que você ganha uma graninha, não é?” Ela continuou. “Sim, é”. Redargui. “São os salmões do ofício”! Completei para atordoamento dela e vingança minha. Passo pelo blogue de outro amigo querido, o Rique Aleixo, e vejo por lá um papo sobre política editorial, desenho e confecção do objeto-livro, temas de minha predileção. Observo silenciosa a acuidade do meu poeta. Penso sobre as reflexões dele e me intimido ao reproduzi-las, sob pena de macular a complexidade da produção Ricardiana. O Rique é a própria frase do Wole Soyinka: “um tigre não anuncia sua tigritude, ele ataca”. Voltando às minhas próprias reflexões sobre a produção editorial, tudo conspira, sempre, para comprovar que nós, escritoras e escritores somos os elos mais frágeis e menos privilegiados da cadeia. É um número sem fim de histórias de destrato, descaso e exploração do trabalho de quem escreve. Só para ilustrar, tenho um livro na 3a edição, mas não soube sequer da segunda, a editora esqueceu de me avisar, sobre ambas, é bom que se diga. Fiquei sabendo porque recebi um sopro no ouvido e telefonei para saber sobre uma possível, provável, futura, hipotética segunda edição, haja vista a excelente saída da primeira. O pior é que há um erro grave em um dos textos, o número de uma lei, citado incorretamente, mas não tive oportunidade de corrigir em qualquer das duas edições. Li outro dia, na Folha de São Paulo, entrevista da renomada prosadora Conceição Evaristo. Ela, também poeta, dizia, para minha surpresa, que seu primeiro livro de poesia, publicado em 2008, o foi com 50% dos custos arcados por ela, a autora. "Nesta altura do campeonato"! Exclamei, perplexa. A chateação é inevitável, pois, sabemos que, para certos autores, a mesma editora nunca se dirigiria com uma proposta de parceria para publicação. Seria ofensivo e o autor se retiraria da mesa de negociação. Aliás, parceria, em certos casos, é eufemismo. Antes de publicar a primeira edição do Tridente, em 2006, às minhas expensas, embora utilizasse o selo do Instituto Kuanza, procurei uma editora nacional, de porte médio crescente e ótimo esquema de distribuição. Pedi um orçamento e recebi uma planilha altíssima. Resolvi pesquisar preços, item por item. Procurei editoras que vendem livros a preços acessíveis, tais como a editora do MST e a Mazza Edições. Fui atrás das gráficas delas, dos serviços que utilizam e consegui preços razoáveis, fiz o livro. Aliás, recebi sugestões e bons conselhos de ambas, muito úteis à minha escolha final. Ao cabo de todos os gastos computados (revisão, projeto gráfico, capa, editoração e impressão), o Tridente primeira edição, inteiro, custou 20% menos do que os 50% que eu daria àquela editora nacional. Veja-se o tamanho do imbróglio. O tal esquema de parceria para publicação é controverso, mas, de todo modo,não é convincente a justificativa dada pelas editoras pequenas de que não podem arcar sozinhas com os valores elevados de uma boa publicação, pelo simples motivo de que esse discurso se aplica apenas a alguns autores, a outros, não. Fiz um livro em parceria com a editora e confesso que não pretendo fazer mais, o Tambor foi feito assim. Neste caso específico, quando apresentei a proposta à editora, eu já tinha tudo fechado, inclusive as ilustrações, com as quais ela não concordou. Deixei pouca ou quase nenhuma margem de atuação para ela, como editora, que se recusou a arcar com a conta sozinha. Estava certa. Por isso disse que o tema é controverso, mas, em regra, o autor é explorado e sai perdendo. Quando o tratamento é diferente, até nos surpreendemos. Foi assim, outro dia, quando uma editora me chamou para conversar. Inicialmente os representantes do projeto editorial mandaram um e-mail. Agradeci o convite e devolvi uma série de perguntas. As respostas vieram e achei que tudo parecia bom demais para ser verdade. Quis logo me certificar de que não estavam dourando a pílula para depois desferir o golpe da parceria. Que nada! Para minha surpresa e alegria o papo era reto e eles até se ofenderam por eu ter pensado numa proposta de parceria por trás das boas condições de trabalho oferecidas. Nem tudo são flores no mercado editorial, mas elas também existem e quero me manter próxima a elas.
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