Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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22 de nov de 2009

Angélica Basthi fala sobre "Pelé: Estrela Negra em Campos Verdes"

(Por: JULIANA FARANO - colaboração para a Livraria da Folha). "O futebol é visto como uma das manifestações populares mais democráticas do mundo. O elenco de protagonistas, que faz a alegria da torcida com a bola nos pés, é formado por gente de todo o tipo. Para gostar do esporte, também não é necessário pertencer a qualquer etnia ou condição social específica. Hoje em dia, o único fator que exclui certas camadas da população é o preço dos ingressos para ver o espetáculo ao vivo, efeito colateral maléfico da chamada modernização, que busca elitizar o esporte. No entanto, nem sempre a situação foi assim. Quando retornou ao Brasil da Inglaterra em 1894, Charles Miller, paulistano descendente de ingleses e escoceses, trouxe consigo uma bola e um conjunto de regras. O futebol, então, passou a ser praticado pela elite tupiniquim sendo, inclusive, proibida a participação dos negros. Quem diria que anos depois, o rei do futebol seria justamente um negro vindo de uma família humilde do sul de Minas? Prova de que o tempo e a evolução do ser humano não agregaram somente coisas ruins ao mundo. Curiosamente, o milésimo gol do rei do futebol foi marcado no dia 19 de novembro de 1969 e ontem, véspera do dia da Consciência Negra, a ocasião completou 40 anos. Pelé é um dos negros mais bem-sucedidos do mundo e sua trajetória profissional brilhante, inevitavelmente, serve de inspiração para milhares de jovens aspirantes a carreiras dentro do futebol e ao sucesso profissional, de uma maneira mais ampla. Ainda assim, o atleta nunca levantou objetivamente a bandeira do orgulho negro e nem assumiu a causa como uma de suas prioridades. "Pelé nunca se envolveu diretamente com o problema racial deste país, mas isso não significa que ele não tenha enfrentado problemas de racismo ao longo da sua trajetória", afirma Angélica Basthi, autora do livro "Pelé: Estrela Negra em Campos Verdes". Na publicação, que aborda tanto a trajetória brilhante do atleta nos gramados como também os episódios polêmicos de sua vida pessoal, a escritora fala de momentos em que o racismo era total e descarado. "Na Copa de 1958, por exemplo, uma reportagem afirmava sobre a passagem do jogador, então com 17 anos, pela Suécia: 'Ao ver Pelé, a criança loura solta a mão da babá e corre chorando: mamãe, mamãe, ele fala'", conta. Em entrevista para a Livraria da Folha, Angélica fala sobre a carreira profissional de Pelé, o processo de pesquisa para o livro e o envolvimento do rei com as questões da raça negra. Confira abaixo. * Livraria da Folha - Como surgiu a oportunidade para escrever este livro? Angélica Basthi - Fui surpreendida pelo convite do meu amigo e também jornalista Carlos Nobre, criador da coleção "Personalidades Negras", editada pela Garamond. Ele me convidou inicialmente para escrever sobre o Aleijadinho, outro grande nome da participação negra ao longo da história do Brasil. Na conversa com o diretor da editora, surgiu o nome do Pelé. Fiquei especialmente feliz, pois alimentava o sonho secreto de escrever sobre o rei do futebol desde quando, há uns cinco anos, vi uma exposição sobre a vida dele na Casa França-Brasil. Claro que já conhecia sua história, mas vê-la em detalhes me tocou. Fiquei realmente impressionada com a trajetória de Pelé e cheguei a dizer para amigos que gostaria de escrever sobre ele um dia. Livraria - Você sempre gostou de futebol ou passou a se interessar mais pelo assunto depois do convite para escrever o livro? Angélica - Sempre gostei de futebol. Sou flamenguista e mangueirense desde pequena, ou seja, gosto mesmo é das torcidas polêmicas e passionais. Sou do tipo de torcedora que xinga o juiz, sai da sala e já vai se inscrevendo para a vaga de técnica. E já realizei o sonho de todo torcedor de pisar no gramado do Maracanã. Foi uma sensação estonteante estar num dos gramados mais famosos do mundo e também palco do milésimo gol de Pelé. Além disso, estou curtindo muito ser a primeira mulher a escrever uma biografia sobre o rei. Livraria - Você viu o Pelé jogar? Angélica - Tenho 38 anos e não vi o Pelé fazer suas jogadas magistrais. Recentemente estive no Museu do Futebol em São Paulo e, claro, revi algumas de suas jogadas históricas nos vídeos disponíveis por lá. Aliás, fiquei morrendo de inveja dos paulistas e pensei por que o Rio de Janeiro, que tem o Estádio Mario Filho em casa, não teve uma idéia tão genial. Bom, a escrita do livro do Pelé foi feita com muita pesquisa documental. Exigiu tempo e paciência para visitar bibliotecas e mergulhar em livros, revistas e jornais da época. Tive um amigo em especial que eu recorri uma ou duas vezes para tirar algumas pequenas dúvidas técnicas. Fora isso, foi um trabalho solitário. Livraria - Como se deu o processo de pesquisa para a concepção da obra? Você chegou a entrevistar o próprio Pelé? Ele sabia do livro? Angélica - Conversei com meu editor na época sobre isso. Concluímos que o Pelé é uma pessoa pública e o acesso ao material sobre sua vida e sua trajetória não seria difícil. De fato não foi. Exigiu paciência, mas tem muito material que foi publicado sobre o rei na época. Livraria - O livro trata não só da brilhante carreira no futebol, como também de fatos não tão agradáveis da vida pessoal do atleta. Você recebeu algum tipo de crítica por conta dessa abordagem de fãs mais exaltados do Pelé? Angélica - As pessoas lêem o livro e ficam surpresas com a minha abordagem. Sou bastante ética ao retratar a vida do Pelé tanto do ponto de vista pessoal quanto do jogador profissional. Acho que a surpresa do público tem acontecido por duas razões: por conta da linguagem fácil e objetiva que imprimi no livro e pela proposta de mostrar um Pelé que ninguém viu até agora. O público está acostumado com o rei Pelé distante da problemática racial no Brasil. Até porque a verdade é que ele nunca se envolveu diretamente com o problema racial deste país. Mas isso não significa que ele não tenha enfrentado problemas de racismo ao longo da sua trajetória. Abordo também sobre o momento que o Pel é percebeu como sua figura negra era carregada de um simbolismo que ia para além da riqueza e da fama acumuladas pelo talento no futebol. Na Copa de 1958, por exemplo, era um homem negro e um herói nacional, mas era retratado com uma matéria de cunho racista. Uma reportagem afirmava sobre a passagem do jogador, então com 17 anos, pela Suécia: "Ao ver Pelé, a criança loura solta a mão da babá e corre chorando: mamãe, mamãe, ele fala". Ou seja, uma indução grotesca ao estereótipo do homem negro primitivo, selvagem e animal. Livraria - O que o milésimo gol do Pelé representou para o Brasil na época? Angélica - O milésimo gol de Pelé gerou muita expectativa no país inteiro. Ao longo daquele ano de 1969, o público acompanhou em contagem regressiva cada passo do jogador. Houve suspeitas na época de que tudo estava sendo preparado para que o milésimo gol acontecesse no Maracanã. O fato é que ele aconteceu sim no Maraca. E o aniversário da ocasião tem um aspecto curioso pois acontece na semana da Consciência Negra. É a comemoração pela memória de outro grande nome negro, Zumbi dos Palmares. Pelé desconfiou de acordo para que milésimo gol acontecesse no Maracanã; leia trecho Livraria - Na ocasião do milésimo gol, em seu agradecimento, Pelé fez um alerta para as crianças carentes do país. Você acha que isso foi positivo para sua imagem? Angélica - Na época o Pelé foi muito criticado. Ninguém entendeu o porquê de naquele momento tão importante ele se lembrar das crianças de rua. Mas hoje o problema da criança e do adolescente é um dos maiores desafios políticos nos grandes centros urbanos deste país. Livraria - A temática do projeto que deu origem ao livro foi contar a história de personalidades negras. Qual é o papel do Pelé nesta questão? De que forma ele representou os negros em sua trajetória? Angélica - Pelé foi emblemático para o resgate da autoestima do negro no Brasil. Era a primeira vez que um negro era fonte de orgulho nacional e referência no mundo. Quem afirma isso é o José Jairo Vieira, que tem uma tese de doutorado sobre a participação dos jogadores negros no futebol brasileiro. Pelé representava a possibilidade do homem negro simples e um trabalhador honesto e sem vícios vencer na vida. Isso num ambiente absolutamente contraditório e controverso gerado pelo racismo à moda brasileira. Na época, a ideologia do branqueamento já começava a ser confrontada pelas ideias de Gilberto Freyre e pelos resultados do trabalho de pesquisadores, como Florestan Fernandes, contratados pelo Projeto Unesco. Mais tarde, Carlos Hasenbalg realizaria um novo marco na interpretação desta questão ao afirmar que o preconceito e a discriminação raciais vinham adquirindo novas funções e significados na estrutura social desde a escravidão. Na prática, os jogadores negros continuavam enfrentando barreiras visíveis e invisíveis geradas pelo preconceito racial. Mas a imagem de Pelé também contribuiu para a ideia de um Brasil que deu certo ao personificar o jogador negro que ascendeu socialmente. De certa forma, ele também representa nossas contradições. Livraria - Como você vê o Pelé hoje em dia? Angélica - Acho a figura de Pelé continua sujeita a polêmicas. Aos 69 anos, tem ainda uma vida agitada e intensa. É um dos nomes mais conhecidos em todo o mundo e ainda é referência no futebol internacional. Quando morei nos Estados Unidos via que ao mencionar que era brasileira diziam quase que automaticamente "Pelé". É um jogador que soube se renovar ao longo do tempo, mas como qualquer ser humano contabiliza erros e acertos.
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