Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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28 de mar de 2012

A voz de Renato Rocha, o Negrete, ex-baixista do Legião Urbana

Eu não sou fã de rock, nunca fui. Não entendo nada de rock, nada, nada. Conheci o Legião quando "Eduardo e Mônica" bombou e eu estava numa festa no DCE da UFMG, na qual era a única pessoa que não sabia cantar a música. Neste tempo, meus amigos roqueiros detonavam a banda dizendo que aquilo "não era rock mesmo". Depois da morte do Renato Russo, todo mundo virou avatar do Legião. Cruzei com essa entrevista do Renato Rocha, ex-baixista do grupo, que ganhou notoriedade nos últimos dias, por ser, agora, um morador ilustre das ruas do Rio de Janeiro. A homofobia e o machismo campeiam nas declarações dele. O universo do rock, realmente não me interessa. Mas, achei que valia a pena postar a voz do Renato Negrete aqui, datada, é bom que se diga. É bom ver quem era ele, o que pensava e o contexto racial da banda e do rock de Brasília nos anos 80. A percepção de si mesmo como negro que, para se opor à opressão branca nomeia-se "pele vermelha" - é que os brancos massacraram os índios, mas também ao coletivo negro, se você não sabia, cara pálida! A entrevista foi feita pelo Luiz Pimentel e editada por Vivaldo Simões, não os conheço. Foi postada no blogue de um terceiro que não vem ao caso, pois não teve participação direta na coisa e tem na introdução umas opiniões sobre o rock nacional que não estou interessada em reproduzir. ZERO: Você era da turma dos Skinheads, não? RENATO ROCHA: Quando o punk começou a acabar, sobrou muito gayzola, muito playboy que se dizia punk. Eram aqueles caras que compravam calças Fiorucci, desfiavam e falavam que eram punks. Aí resolvemos ser cabeça raspada. A gente era uma equipe do terror, pra diferenciar dos punkzinhos gays. ZERO: Quem eram punkzinho gay? R.R: Os lambe-lambes (risos) ZERO: Que a gente conhece, quem era? R.R: Os dois lá, o Dado e o Bonfá, o Dinho, Philipe Seabra [vocalista e guitarrista do Plebe Rude], essa turma. ZERO: Por que lambe-lambes? R.R: Porque não faziam nada. Chegavam nas festas e ficavam bodeados num canto. Gostavam de Bauhaus e PIL. Eram fracassados. Os carecas chegavam chutando o teto. ZERO: Qual foi seu primeiro contato com o Renato e o resto da banda? R.R: Ah, a gente andava numa turma, ia pras festas. Tinha uma época que tinha umas cinco festas por noite. Festas de detonar, de barão. Pó, maconha à vontade. E não aparecia ninguém pra encher o saco. O mais fraco ali tinha seis Rolls Royces na garagem. Quem ia ter coragem de entrar pra dar uma geral? ZERO: Como você entrou para a Legião? R.R: Renato tinha cortado os pulsos em Brasília, estava na pré-produção do primeiro disco. Como ele tocava baixo, precisava de alguém para o lugar dele. Eu sabia todas as músicas, as letras. Entrei quatro dias antes do início das gravações. Acabamos virando a maior banda do Brasil. Mas quando ficou cheio de grana, o Renato não queria fazer mais nada.Ficou muito chato, alcoólatra. Aí ele começou a chutar todo mundo, tratava todo mundo muito mal. ZERO: Quando foi isso? R.R: Foi no final dos 80. Ele tava inacreditável, tomou varias overdoses. ZERO: Ele já não gostava de fazer shows? R.R: Depois de encher o cú de grana, só gostava de encher a cara. ZERO: Vocês eram amigos? R.R: Não. A gente era conhecido. Amigo, não. A partir do momento em que o cara só se preocupa com ele mesmo…só ele tem dor de cabeça, só ele tem exaqueca, só ele tem problemas… ZERO: Qual era o seu papel na banda? Você era apaziguador ou só chegava e tocava? R.R : Eu fumava meu baseado inocente, tomava minha dose de uísque e ficava pensando: “cara, eu estou fazendo a melhor coisa do mundo: ganhando grana pra fazer música, e neguinho fica aí se lamentando à toa, reclamando do bife”. Eu aproveitei minha fase rock. Os caras não tinham atitude roqueira, não falava com a galera, esnobavam os fãs. Pra mim ficar na Legião era um sacrificio. ZERO: Por que você acha que eles se sustentaram como banda tanto tempo? R.R: O Renato gostava de homem bonitinho e chamou o Marcelo Bonfá e o Dado pra tocar. O Dado só entrou porque o Renato queria o nome Villa-Lobos na banda. Aí ele ensinou o Dado a tocar. E o Bonfá era um pilha fraca, não aguentava tocar um show inteiro, não ensaiava, não treinava, não malhava, não comia, era um merda. Saia coma namorada, não queria pagar a conta e a menina pagava. Queria fumar um baseado mas não apertava, eué que tinha que apertar. Folgado e mão-de-vaca. É um cara muito babaca, nem a mulher dele aguenta ele. Era uma agonia, pois o cara não sabia tocar nada. ZERO: E como foi sua vida depois da banda? R.R: Eu tive uma fase ruim, fiquei em baixa. Namorei uma mulher errada e minha vida degringolou. Era uma mulher que só queria sacanear. Tipo Cleopatra. Fiquei muito alcoólatra, muito louco, tomava tudo. ZERO: Mas o Dado dizia que você já detonava antes de sair da banda. R.R: O problema do Dado é que ele não sabe nem escolher a roupa que vai vestir. A mulher dele é quem escolhe. Ele não sabe tocar, não tem personalidade própria. Ele é tão bundão que podia ter impedido minha saída. A gente ia para o mundo inteiro. Iamos pra Europa, ele bundou pra mulher dele. A mulher queria ter um filho e prendeu ele aqui. Ele botou pilha pra gente não gravar fora. ZERO: Foi depois do terceiro disco? R.R: Foi. A gente ia gravar em Portugal.Estava tudo certo. A Legião ia arrebentar e ele bundou. Ficou com medo da Fernanda. A mulher amarrava um lacinho no pescoço dele e ele saia na rua assim. Não representa nada para o rock brasileiro. Representa o gosto do Renato. E aí? Vai dizer que uma bicha daquelas era roqueiro? Em vez de comprar uma moto comprava uma lambreta. E ainda andava de lencinho. Como um cara desses pode dizer que é punk? Eu saia, ia nas favelas, cheirava pó, ficava nas quebradas, pegava as putas. Ai o cara dizia que eu estava aloprando. Ele é que não aguentava a pressão. Eu pegava as gatas e passava na frente dele, o cara ficava com aquela carinha de bunda. ZERO: Desde sempre eles tiveram essa atitude na banda? R.R: Eu fiquei puto porque era um bando de cuzão com uma oportunidade de ouro nas mãos. Todo mundo falando bem pra caralho. Minha maior frustração é isso cara. Um cara do gabarito do Dvid Byrne falando das possibilidades de sermos o maior sucesso do mundo e dois playboyzinhos babacas sacaneando. ZERO: Foi o David Byrne que ofereceu a oportunidade de vocês gravarem lá fora? R.R: Não, foi a gente que conseguiu. Éramos a melhor banda de rock n’ roll do Brasil. Éramos. ZERO: E você achava isso na época? R.R: Eu achava uma das melhores do mundo. O Renato sabia cantar todas aquelas letras maravilhosas em inglês. O disco ia arrebentar. A gente ia ser o U2 e o Dado não deixou. Ou melhor, a mulher do Dado. (…) ZERO: Ele (R.Russo) tinha uma atitude homosexual dentro da banda? R.R: Tinha. Sempre teve. Pirava, ia lá e dava para o roadie Mas é aquela história. Se o cara tem muito poder, ninguém fala a verdade. ZERO: A legião perdeu a atitude rock com a sua saída? R.R: Cara, rock exige uma certa agressividade. Rock não é para playboyzinho pasmo, tchutchuquinha. Dado tomava um copo de uisque e ficava bêbado. A Cracatoa Vermelha nem bebe. ZERO: Quem é a Cracatoa Vermelha? R.R: Bonfá(risos) ZERO: Quando foi a última vez que você falou com ele? R.R:´Foi na gravação de Uma outra estação. Ele virou pra mim e disse: “eu estou igual a você”. Pensei: “puta merda, fudeu” (risos) ZERO: E o Dado? R.R: Foi uma vez no ATL HAll. ELE pegou meu braço e disse: ” Não fala mal de mim na imprensa não”. Eu fiquei só rindo, porque o filho dele tava todo preocupado, com medo de eu dar porrada nele. O moleque ficava falando “pai, vamos embora” ZERO: Você ainda voltou pra gravar esse disco póstumo (R. Rocha participou da faixa da gravação instrumental da faixa Riding Song, que foi sobre posta a uma gravação dos 4 integrantes feitas durante as gravações do disco Dois). R.R: Gravei cara. Infelizmente eu grave. Ganhei um barão [R$ 1000]. Aquele cara me ridicularizou. Mas eu estava precisando de grana. ZERO: Você gastou toda a grana que ganhou na Legião? R.R: Não, eu comprei carro, moto. Depois vendi tudo. E eu não ganhei tanta grana assim. ZERO: Você foi ao enterro do Renato? R.R: Não fui porque não sou cretino. Mas um dia passei com a minha namorada e a mãe do Renato estava no Burle Marx pra jogar as cinzas. Aí o pneu da moto furou bem na frente. Eu falei: “caralho, Manfredo, solta do meu pé”. Mas eu sempre gostei do Manfredo, ele sempre foi uma pessoa muito sincera, só que ele se fodeu, cara, porque ficou com dois babacas. (…) ZERO: Quando você falou com Renato Russo pela última vez? R.R: Falei pelo interfone. Ele não quís me atender. Toquei na casa dele e ele respondeu que tava de ressaca. ZERO: O que você queria com ele? R.R: Ah, sei lá. Perguntar como ele tava. Ele alucinava, tomava todas e subia na mesa,(…)Cansei de levar ele doidaço, babando no taxi. Mas aí como ele era mentor da banda e da juventude brasileira, mascaravam esse comportamento. (…) ZERO: Como foi que você saiu da banda? R.R: O Renato Russo saiu do elevador e falou: “Você está fora da minha banda”. A gente ia assinar o contrato do Quatro Estações. Estavamos no prédio da EMI.Ai eu falei pra ele: “Cara, se você me apontar o dedo eu torço seu braço”. Fiquei na minha, puto, mas sabia que não era uma coisa do Renato. que era coisa dos dois perobinhas. O maior castigo é ter grana e não ser feliz. Eu tenho e sou feliz. …. ZERO: E sua banda Cartilagem, existe a quanto tempo? R.R: Uns três anos. MAs ainda não chegou a hora da banda. O público ainda não está preparado pras minhas letras. Minha música é pra libertar o jovem. ZERO: Parou com as drogas? R.R: Fumo meu baseado, tomo umas bebidas. ZERO: E a legião ainda dá grana? R.R: Não, dá uma miséria. Menos de mil reais por mês. Só que conversar com eles é tentar tirar leite de pedra. Eles são brancos, eu sou pele-vermelha. ZERO: Já pensou em se candidatar a algum cargo público? Opa, já. Prefeito de Mendes. O grande lance é entrar no esquema e não ser corrompido´por ele. Como eu entrei na Legião e não fui corrompido.
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