Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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20 de nov de 2012

João Cândido, o neto de Francisco Ayrá



Por Cidinha da Silva

(...) Quase ao mesmo tempo chegou aqui em casa o tio Aroni, compadre dos velhos e melhor amigo do vô, acompanhado pelos filhos, Ajagunã e Anauá. Deram boa noite a todos e o João Cândido, muito atencioso, os levou até vó Berna. Tio Aroni e a vó se abraçaram em silêncio no calor daquela amizade de muitos anos. Os rapazes tomaram a benção e abraçaram  vó Berna também. Depois dos cumprimentos, o tio pediu licença para preparar o corpo e instruções do local onde deveria fazê-lo. O vô e o tio Aroni, pertenciam a uma espécie de irmandade masculina, e quando um integrante morria, havia esse ritual, sempre conduzido pelo tio.

A passagem dos três homens deixou um rastro de aguapé, alecrim e alfazema. Umas folhas de pata-de-vaca e amoreira caíram do saco de pano. Ajagunã e Anauá, os filhos da mata, nomeados pelo espírito das folhas, cobriram o corpo do vô com um tecido branco cheiroso e o tiraram da cadeira de praia para o quarto indicado por vó Berna. João Cândido pediu para acompanhá-los, eles permitiram, mas só até a porta. Tio Aroni, por sua vez, já estava na cozinha, maquinando os segredos dele entre ervas, folhas e água.

O povo, aos poucos foi chegando. Uma infinidade de vizinhos, amigos, conhecidos, parentes, admiradores. Nossos avós eram muito antigos e queridos no bairro que ajudaram a construir. Vó Berna aproveitou a presença das tias Neusa e Dinda, dos tios Ainan e Aganju - só faltava meu pai, o filho viajante -, e foi para o quarto ajeitar a roupa do vô Francisco.

Emocionada, a vó nos contou que quando ligou o ferro na corrente elétrica para passar a calça de linho e a bata de cambraia brancos, cosidos por ela, lembrou-se do primeiro passeio de trem feito pelos dois. Quantos vagões, quantos trilhos, quanta carga, quantos viajantes e ferros de passar passaram por sua vida, toda vivida ao lado de vô Francisco. Enquanto tirava os mais escondidos amassadinhos da roupa, recordou o ferro de passar alimentado por brasas, o motor à lenha da maria-fumaça, as roupas da juventude passadas pelo ferro antigo, as conquistas da família, a consagração de vô Francisco como artista, a vida simples e feliz que os inscrevera no mundo.  Como seria, agora, a vida sem ele?

 Distraída no conforto das lembranças, vó Berna não viu que Ayana e João Cândido a esperavam. Quando se apercebeu, exclamou com seu jeito brincalhão:  “Os menino, cês tão aí, na espreita, acocorado feito dois calango véio?”. O primo João Cândido tentou sorrir, mas o choro o fez correr para abraçar a vó. Ele fora a única das crianças ausente no momento da passagem do avô. A prima Ayana abraçou o abraço dos dois e choraram juntos.

Vó Berna os acalmou, esticou-se para desligar o ferro de passar. O primo lamentou choroso que os homens não o tivessem deixado acompanhar o ritual de limpeza do corpo. Vó Berna explicou tratar-se de coisa de homem.  “Eu também sou homem”!, ele falou alto, do lado de fora a gente ouviu. “Um homenzinho de doze anos”, vó Berna o consolou. “Ainda não é hora.” Nossa vó olhou-o na menina dos olhos e percebeu que o primo estava abafado. Estendeu o coração para que o João se abrisse no colo dela.  “Ai, vó, só vejo uma baleia encalhada”, ele começou a falar, mas foi interrompido por Ayana. “Aonde, JC?” “Na praia, Ayana.” Ele respondeu impaciente. “E tem um monte de gente querendo desencalhar a baleia. Eu também estou lá, tento, tento e não consigo. O tempo vai passando e a baleia vai morrer se não voltar ao mar”. O João chorou, calado. Vó Berna o incentivou a falar mais. “Continua meu filho, liberta sua baleia.” “Ah... vó, é tão difícil. A baleia é pesada, enorme e eu sou tão pequeno. Ela vai morrer.

Vò Berna ao relembrar a conversa com o João achava um jeito de falar conosco sobre a impossibilidade de evitar a morte e também sobre os recados que ela nos trazia.  “A morte, João, chega para todos os vivos: animais, plantas, gente, até para a água. Quando ela alcança alguém próximo e querido, é um sinal para corrigir coisas desandadas na jornada, ou para afirmar o caminho certo, se as coisas estiverem bem. O importante é encarar a morte como passagem para um tempo de melhor-viver. Se as estradas por onde andamos estão feias e nubladas, sujas e espinhosas, é hora mudar de lugar, procurar o sol, os pássaros, as flores. Mas se estão bonitas, floridas, ensolaradas, além de permanecer nelas e desfrutar de todas as belezas e cores, devemos convidar mais gente para fazer o caminho ao nosso lado.” “Mas e a baleia, vó? Vou deixar ela morrer?”, o João pergunta angustiado. “Existem coisas, meu pequenino João, mais fortes do que a nossa compreensão e as nossas forças. Elas acontecem, simplesmente. O sofrimento da baleia é o maior de todos, a dor física, a falta de ar e água, a preocupação com as baleinhas  desamparadas no mar. Uma dor enorme, quase do tamanho dela, deve produzir  aqueles roncos de desespero no estômago da coitadinha, e ela, neste momento, não passa de um peixão sozinho e indefeso.”  “Oh, vó e a baleia, ela também pensa na vida dela quando está morrendo?”  “Talvez, Ayana, o que você acha?” “Ah vó, durante aquele tempo sem conta, ela deve pensar em todas as atitudes baleísticas da pessoa dela: o susto dado nos humanos, mesmo sem querer; os cardumes devorados por pura gula, aproveitando-se da sopa que os peixes deram em frente à sua bocarra. Essas coisas de baleias.” “Imagino também vó”, completa o João reflexivo, “que brincando no oceano, ela apitou como um navio e deu falsas esperanças a um grupo qualquer de náufragos. Isto deve ser uma lembrança doída para qualquer baleia pensativa”.

Vó Berna se alegrou com o entendimento do ciclo da vida demonstrado por seu neto destemido e por Ayana, sua flor mais bela. “Isso mesmo, crianças, vocês estão compreendendo o sentido da morte para quem fica, a necessidade de ressignificar o viver. Aproveito para entregar a vocês os pentes deixados por Francisco para cada um. João Cândido, meu menino, seu avô sabia que mesmo sem conseguir desencalhar a baleia, você não desistiria de tentar, talvez até telefonasse para o corpo de bombeiros”, brinca nossa avozinha matreira. “Por isso, ele destinou a você este pente, símbolo de duas coisas principais, a generosidade e a solidariedade. Para você, Ayana, nossa netinha de saúde mais frágil quando nasceu, ele deixou este aqui, o pente da perseverança. Lembra-se da história da flor amarela de cinco pétalas da cor do sol? Ele contava para acalentar seu sono enquanto pedíamos aos deuses infantis para não levarem você da gente.”

“Que fofo era o vô. Os pentes se completam, não é vó? O pente do JC também poderia se chamar perseverança. Eu fui cuidada pelo amor de vocês e isso me ajudou a vencer minha batalha pela vida, no entanto, o pente do amor foi descansar nas mãos do Abayomi, o curioso pelo início das coisas.”

Vó Berna se emocionou novamente com a sagacidade dos primos, mas interrompeu as lágrimas para dar uma ordem -- João deveria levar a roupa passada até a porta do quarto onde estavam os homens, com cuidado, para não amassar.

Trecho do livro Os nove pentes d'África, de Cidinha da Silva.
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