Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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15 de nov de 2012

A Lapa e Seu Jorge


Por Cidinha da Silva

Uma reação racista de parte da classe mérdia carioca, habitué da Fundição Progresso, ao poema Negro drama, interpretado em show de Seu Jorge, levou-o a afirmar que se tratava de uma manifestação tipicamente carioca, da Lapa, freqüentada por aquele pessoal. Em que pese o fato de a rejeição doer mais quando acontece na cidade da gente, é uma leitura errada.

O carioca não é mais racista do que a média dos brasileiros, não é mesmo. Repito, pode doer mais para Seu Jorge o fato de ter sido discriminado no Rio, sua terra, e externar essa dor é também justo. Mas a Lapa é muito parecida com a Vila Madalena, de São Paulo, para comparar áreas cult nas duas maiores cidades brasileiras. Muda a tônica da programação artística, mas o público é parecidíssimo.

Uma característica particular do carioca, a meu ver, parece ser uma necessidade quase orgânica de propalar que lá todo mundo é igual, morro e asfalto se interpenetram, conversam e convivem de maneira igualitária. Digamos que é uma versão tipicamente carioca da idéia de democracia racial. Um telespectador mais atento verá esse valor veiculado em Lado a lado, novela das seis. Não só o descaso do poder público com as pessoas negras começou lá atrás, a integração racial da francesa (codinome dos brancos de mente aberta) que sobe o morro para aprender o samba dos negros, comer a comida deles e depois retribui a hospitalidade oferecendo sua própria comida aos moradores do morro, preparada por uma negra brasileira (tão prendada que domina a culinária francesa), é metáfora fundante do modelo de democracia racial carioca. Como resultado, na Lapa abundam atrações negras integradas ao meio ambiente, enquanto na Vila Madalena continuam sendo exóticas.

O Rio veicula uma idéia de afirmação negra, até a página dois, para quem sabe ler, e Seu Jorge é da Baixada, conhece bem o texto. São 42 anos encarnando a imagem escorraçada de preto, aquele que tem cara de preto e muita melanina, que mesmo alçado ao posto de símbolo sexual pela fama e exotismo, continua fazendo papel de bandido perigoso em filmes, vide Tropa de Elite 2. A exceção é E aí? Comeu? Neste, ele interpreta um garçom boa-praça, para quem todas as loiras querem dar no carnaval. Vida que segue na variação de estereótipos.

Ainda bem que seu Jorge não abandonará o Rio, só a Lapa. Continuará fazendo shows em Vila Isabel, Nova Iguaçu, Padre Miguel, Realengo... Entretanto, ele precisa compreender que na Lapa, na Vila Madalena, em bairros similares de Recife, Salvador, Belo Horizonte, etc, o público é o mesmo, com diminutas variações: é a jovem classe mérdia branca, universitária, que dança as danças populares, joga capoeira angola, freqüenta sarau de literatura periférica e quadra de bloco afro, bate tambor na Umbanda e sai das festas de Candomblé dizendo que fará o santo no ano seguinte, que o orixá X ou Y está chamando e ele/ela precisa se entregar para a ancestralidade africana, que é deles também, segundo afirmam. E aí posarão de ekedis realizando o sonho de sinhazinha. Declararão respeito eterno aos pretos-mestres de estimação (até trocarem de passaporte para o mundo negro), enquanto na vitrola, Seu Jorge, ou qualquer outro preto bom de música, é a trilha sonora favorita.
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