Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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13 de nov de 2012

Subúrbia – capítulo II



Por Cidinha da Silva

Subúrbia e a participação de Ellen Oléria no The Voice Brasil me interessam por motivos expansivos similares. O conteúdo humano e estético de Subúrbia é mais significativo como espaço midiático de discussão das relações raciais no Brasil, do que o limite da mini-série global, assim como, Ellen é infinitamente maior do que uma eventual vitória no concurso de revelação de talentos vocais.

Diante de tantas críticas, para as quais não consigo encontrar ressonância, como telespectadora de Subúrbia devo fazer as vezes da cantora-leitora que me surpreendeu dia desses. Depois de longa gestação, finalizei um texto para Concha Buika. Corri para mostrá-lo à cantora que me apresentou Oro santo, interpretação magistral da cantante da Guiné Equatorial. Eu dizia: argolas em ouro preto e santo da corda do alento que me enlaça / náufraga / e me desvencilha do manguezal. Apressada, enfatizei a beleza da imagem: veja, a corda é composta por argolas de ouro. Olhe só que bonito, que coisa forte e reluzente. E ela (a corda de argolas de ouro) salva a personagem que naufraga no manguezal, bioma riquíssimo, mas de aparência feia... A cantora respondeu de pronto: ai, que pobre, pensei que a salvação viesse das cordas do violão flamenco.

Em síntese, a obra é boa, mas a interpretação é melhor. Será? Não creio! A obra precisa estar grávida de possibilidades, margeada por franjas, arejada por frestas para que o pó de pirlimpimpim da nossa criatividade ganhe ares de renovação.

Gostei mais do primeiro capítulo incompleto que vi que do segundo, assistido por inteiro. Algo me incomodou muito. Não foi o baile funk, a exaltação dos corpos no baile funk, são assim punk, os bailes funk. Particularmente, gosto mais da coreografia dos meninos, acho-a mais criativa, embora não tenha vez. Os moçoilos têm jogo de pernas, braços e mãos que indicam muitas coisas, simulação de falas, mímica, o repertório é mais rico. As meninas rebolam, rebolam (isso não é fácil como pode parecer à primeira vista), vão até o chão (ainda mais difícil) e acabou!

Se a câmera mudar o foco, de meninas para meninos, a grita será geral. Os homens querem ver as mulheres dançando e as mulheres também querem ver as companheiras de gênero em ação, por motivos diferentes. Eles por apreciação delitiva, digamos, elas, por competição quanto à firmeza do bumbum e de propósitos da bacia rebolativa. Deise Tigrona inverteu o foco, destacou o remelexo dos meninos em Sou feia, mas tô na moda. Arrasou, mas não vira. O que pega mesmo (para o bem e para o mal) é mulher mexendo os quadris.

Também não penso, como destacou um analista, que “os atores movimentam o texto todo o tempo sem tirar a história do lugar.” Aglomeram-se outras opiniões de gente especializada em audiovisual com criticas ao ambiente cenográfico estático (a favela, o subúrbio) que não interage com o mundo. Ora, em minha opinião de mera expectadora de audiovisual, isso parece mais um problema das novelas do que de Subúrbia, exclusivamente.

As novelas (Subúrbia é uma novela curta) têm sido assim, quando há mais de um ambiente cenográfico, eles são quase estanques, não se relacionam de maneira interativa. É assim com o morro, a casa da baronesa e outras casas de ex-escravizadores, em Lado a lado. Pode ser que, em situações especiais (o carnaval, outras festas populares e a revolta da vacina) todo mundo se encontre na rua do Ouvidor, eventualmente, no teatro e na confeitaria. Era assim em Avenida Brasil com o Divino, subúrbio fictício, e a zona Sul, mais presente na fala das personagens suburbanas do que nas locações. Também em Caminho das Índias, o personagem de Rodrigo Lombardi vivia para amar a personagem de Juliana Paes. O único indicador de vida capitalista do intitulado empresário era uma pastinha de couro usada por ele para sair de casa, quando ia para um trabalho, cuja localização e dinâmica nunca apareciam. Para ser justa, passou pelo início da novela, quando fomos avisados de que tratava-se de um empresário indiano dedicado a negócios (quais?) no Brasil.

Se não estava previsto que Conceição reagisse à tentativa de estupro, se, de fato, as cenas foram mudadas por pressão popular (embora eu duvide, pareceu-me apenas uma quebra da cena para manter a tensão da trama), funcionam assim as novelas, não é? Subúrbia é uma novela!

A sensação final é de que muita gente quer revolucionar o modelão das telenovelas a partir de Subúrbia e isso, não sei se vai rolar. Queríamos produzir nossa própria Subúrbia, ocupar o lugar de autores e diretores e tomar decisões. Sermos nós, o objeto de críticas, às quais responderíamos com nossa indefectível legitimidade de produtores negros e nossa inegociável liberdade de escolha.  Outra coisa bem difícil de realizar penso aqui com meus fiéis botões. Acredito mais na recente conquista de cotas na TV a cabo para veiculação de programas de cultura brasileira.

O que me incomoda, realmente, é a forma estática de apresentar os meninos do movimento. A dúvida de Cleiton (Fabrício Boliveira) quanto a vingar ou não a morte do irmão. O quebra-quebra e os gritos dentro de casa porque a mãe chora a ausência do homem, pai de Cleiton, que a abandonou quando estava grávida. A mãe é o saco de pancadas: foi desprezada pelo marido, perdeu um filho assassinado e o que restou grita com ela, porque não tem o direito de chorar a falta de um homem, provavelmente ainda amado. Isso, aos meus olhos, foi muito clichê, faltou subjetividade, criatividade na definição da cena, sensibilidade do bebezão-vítima e densidade na interpretação do ator. Não me convenceu. Reiterou-se o lugar de que as carências afetivo-sexuais da mulher-mãe (nem estou falando da divisão de contas, dores e responsabilidades) devem ser substituídas pelos eternos cuidados  com o filho-bebezão que, depois de quebrar a casa, chorar sua frustração e gritar com a mãe, aninha-se em seu colo protetor.

O roteiro é cansativo e viciado. Uma mulher, ser vivo e faminta de vida, anulada em nome da maternidade, que cria o filho sozinha, consegue torná-lo um homem de bem (deduzo isso porque mãe Bia, seu Aloysío e Vera o consideram um partido decente para namorar Conceição), mas não tem direito a sentimentos de solidão, tristeza e carência, nem como prêmio de consolação. Personagem e cena são propostos pelo olhar complacente de homens que só projetam para a mulher-mãe o lugar da complacência, da abnegação e do sacrifício da própria sexualidade em nome da nobre função de educar os filhos.

Cleiton é um personagem frouxo, mal costurado. Tudo bem que tenha caráter ambíguo, como os rapazes em tenra idade costumam ter, divididos entre o desejo de serem carinhosos, atenciosos com as namoradas e a confusão de sentidos causada pelos hormônios, imbricados às regras machistas que exigem do macho de respeito a armação de situações eficazes para comer a mulher desejada, principalmente se for virgem. Entretanto, tenho a expectativa de que a interpretação do ator me diga isso e não meus conhecimentos prévios ou deduções sobre o tema.

Moacir (Cridemar Aquino), por sua vez, me convence cada vez mais. Ele é coerente, é um safado, um biscate, um piriguete, e comprova isso nas mínimas ações. Moacir se traveste de irmão mais velho protetor, quando repreende o shortinho de Conceição (Érica Januza), ao sair de casa para o baile funk. Cínico disfarce para dar um confere detalhado nos glúteos da menina. É o sabe-tudo que não pode ser contrariado, quando na cena do pós-briga no baile, a esposa tem a atitude lúcida de defender a espontaneidade de Conceição.

A guia de Xangô (artifício do ator, assim a percebi) escapando da camisa me lembrou uma cena de Sidney Santiago, em A travessia da calunga grande. Na peça, um pregoeiro apresenta jocosamente várias peças humanas negras em leilão para escravizadores. Convida o público a utilizar patacas recebidas na entrada do espetáculo para comprá-las. A audiência atende ao chamado, participa sorridente e entusiasta. Ao concretizar a venda, o pregoeiro imprime o brasão do comprador nas costas da peça adquirida. Os seres humanos comprados, cada um com reação própria – de dor, ódio, medo, desespero, resignação – posicionam-se à frente dos compradores e, apenas nesse momento, parece que alguns expectadores percebem a falta de graça da cena.

Um escravizado com expressão de ódio (Sidney Santiago) insiste em falar a própria língua, talvez o Suahili, pois na frase há palavras banto, ditas com sonoridade árabe. Como recurso último da opressão, o protagonista é calado por uma mordaça de ferro. Boa parte do público pára de rir, mas um risinho ou outro, mesmo tímido, ainda é ouvido. Por fim, o escravizado amordaçado encara o comprador, fulmina-o com o olhar, único canal de expressão aberto em seu rosto. O algoz encolhe-se na cadeira, a Cabine de Controle foi ameaçada.

O que há de comum entre as duas cenas? A intervenção do ator na composição do personagem, no detalhe da estética de Moacir, rei fanfarrão, mandão, ou no escravizado, personagem de Sidney, que encontra frinchas para resistir ao sistema que pretende desumanizá-lo totalmente.

A tensão racial dá as caras em Subúrbia com a mesma movimentação de Cidade de Deus, o romance, impregna as relações interpessoais. O ponto alto é quando alguém, da turma de Conceição, uma voz em meio ao grupo barulhento diz: o que ela (a dançarina negra do palco) está pensando? Só porque é loira, é? E tem o Moacir, com sua mulher branca, e a funkeira negra-loira, com seu amor branco, dublê de guarda-costas. E antes de tudo isso, Conceição, analfabeta, resgatada para trabalhar e receber casa e comida como paga na residência de uma doutoranda. Oito anos depois, a protagonista deixa essa mesma casa, iletrada, como entrou. 

Aos que reclamam da falta de subjetividade em Subúrbia, é de espantar que não tenham reparado na cena de seu Aloysío, feliz como menino que joga Hatari videogame. O velho que não deve ter tido tempo de brincar quando criança, de outras coisas, não de eletrônicos, obviamente, se diverte com o brinquedo de um neto. Essa gente da estirpe de Conceição, para quem não sabe, começava a trabalhar muito cedo, sacrificando a infância.

A discussão entre Vera (Daniele Ornellas) e mãe Bia (Rosa Marya Colin), tem fundamento, para além da simples cobrança de que Vera (evangélica) respeite o candomblé dos pais. O essencial é a observação à autoridade dos mais velhos, que os mais novos, por tradição, devem exercitar.

Subjetividade e delicadeza encontramos também no momento em que mãe Bia acolhe Conceição em casa sem consultar o marido. Seu Aloysío deixa um pé de sapato cair no chão, estrondosamente, e era seu jeito de dizer estou aqui e sou o chefe dessa casa. Mãe Bia compreende o sinal e vai até ele, os dois conversam a sós para resolver o problema. Longe dos filhos que, para os pais, são eternas crianças e não devem participar da intimidade dos adultos. E ali, o farinha pouca meu pirão primeiro dá lugar ao onde comem cinco, comem seis, vivência tão africana e tão diasporicamente negra.

A cena ansiada de seu Aloysío sentado no quintal e mirando os passarinhos, como Pixinguinha fizera um dia, teve trilha sonora romântica para clarinete. Neste dia em que Delegado, um menino da Mangueira, foi encontrar outros meninos e meninas no Orun, Xangô, Padeirinho, Preto Rico, Cartola, donas Zica e Neuma, o portelense Paulinho da Viola faz 70 primaveras no Ayê – viva o Paulinho da Viola, neste dia, houve Brahms, em Subúrbia. Há leitura parnasiana na poética de Cartola e românticos, clássicos, eruditos na música de Pixinguinha.

Na minha vida houve o pistom de tio Domingos, aquele que rivalizava em charme com Delegado e em beleza com Haroldo Costa. Não há parentesco entre clarinete e pistom (trompete), segundo explicação recebida lá atrás. O primeiro é da família das madeiras e o segundo é da família dos metais, em comum, só o fato de ambos serem instrumentos de sopro. Neste dia de partida e comemoração de chegada, ouvi Brahms em Subúrbia, metáfora de beleza e refinamento à altura de Pixinguinha.
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