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24 de nov de 2012

Escritoras negras, nós e caminhos!



Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra 2012.
Por Cidinha da Silva

Minha editora, Charô Lastra, pauta um texto sobre mulher negra e literatura, como objeto e como sujeito literário, para a blogagem coletiva sobre mulheres negras, com o objetivo de aproximar o Dia da Consciência Negra e o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher.

A primeira sensação é de que estamos bem como atrizes principais na cena, observados os limites de um cotidiano racista, obviamente. Ruth Guimarães, nossa mais-velha, tem mais de 90 anos e continua produzindo. Geni Guimarães, com sua prosa dura e doce, voltou a escrever, a publicar e a circular pelo mundo da literatura. Conceição Evaristo é cada vez mais reconhecida e tem sido traduzida para outras línguas. Mirian Alves se reinventa constantemente e dialoga com a moçada mais jovem. Ana Maria Gonçalves publicou há alguns anos, Um defeito de cor, um dos romances mais importantes da literatura brasileira nos últimos 40 anos. Elisa Lucinda encanta mais a cada livro, com sua poética de amor e dengo. Carolina de Jesus, sempre atual, tem sido relida e reinterpretada pelas novas gerações de pesquisadoras/es.

As novas escritoras também estão com a pena leve, pondo bons textos na roda. O corpo da mulher negra, nestes textos novos, é sexualizado pelo desejo de senhoras de suas próprias vontades. É um corpo valorizado por suas características étnicas e por sua forma guerreiro-amorosa de se inscrever no mundo. É contraposição autoral e digna à velha figura da mulher negra de cama, mesa e banho, abundante na literatura canônica.

São marcantes, a presença da ancestralidade feminina, da religiosidade de matrizes africanas, bem como da memória como guardiã dos saberes das pessoas mais-velhas. São textos que recobrem expressões plurais de mulheres negras, que têm identidade, sim, mas não abrem mão do direito à alteridade.

Outra novidade significativa, é que interiores de becos, quebradas, periferias e favelas ganham luz do Sol que os enegrece, projetada por escritoras, para as quais, em substantivo número de vezes, ser negra não é a filiação identitária primordial, mas, mesmo assim, elas têm sido efetivas em tingir de preto o lugar geo-político-afetivo representado por criadoras negras altivas e transformadoras.

Entretanto, ainda pouco nos é dado a conhecer sobre escritoras negras latino-americanas e caribenhas, para não mencionar a ausência de informação e tradução de escritoras africanas.  O que sabemos de Maryse Condé, escritora de Guadalupe? O que conhecemos de Simone Schwarz-Bart, também de Guadalupe, publicada no Brasil pela Marco Zero (A ilha da chuva e do vento)? O que sabemos de Mayra Santos-Febres e Micheline Coulibay, contistas do Caribe, apresentadas no Terras de Palavras, da Pallas Editora. Nada! Nada sabemos sobre escritoras afro-caribenhas.

E quanto à África, às literaturas africanas, quando despertaremos para elas?  Até quando escritoras como somáli Ayaan Hirsi Ali, autora de Infiel (Companhia das Letras, 2007)  terão destaque como espécime exótico da dor africana, servida com café e biscoitos finos nos balcões de livrarias dos aeroportos brasileiros? Até quando Sobonfu Somé, escritora do Burkina Faso (O Espírito da Intimidade, Odysseus, 2003), aquela que veio ao mundo com a missão espiritual de transmitir ao Ocidente os ensinamentos sobre a vida comunitária do povo Dagara, seu povo, permanecerá como um diminuto diamante, perdido no cascalho das prateleiras das livrarias? Até quando os legítimos representantes das literaturas africanas de língua portuguesa, largamente divulgados no Brasil, serão apenas os grandes escritores Mia Couto (Moçambique) e José Eduardo Agualusa (Angola)? Quantas Paulinas Chiziane sucumbirão à passagem atlântica do nosso desconhecimento, até que nossos olhos se descortinem para vê-las, para lê-las?

Creio que será assim até que ações afirmativas sejam implementadas para modificar esse quadro. SEPPIR, Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura, precisam traduzir essas e outras autoras e divulgá-las amplamente. A sugestão, há tempos, foi feita. Resta realizar!

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra blogagemcoletivamulhernegra.wordpress.com
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