Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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26 de nov de 2012

Os três mosqueteiros, Jorge, Márcio e Afonso



Por Cidinha da Silva

Caríssimos autores de Lado a lado, Cláudia Lage e João Ximenes Braga, mui respeitosamente, quero perguntar-lhes por que Olavo, Vilmar e Elias, os três garotos negros de Lado a Lado, não frequentam a escola???

Certa estou de que as competentes historiadoras que os assessoram são sabedoras de que o fim do século XIX e as primeiras décadas do XX foram palco de discussões acaloradas e ações múltiplas para promover a educação da população negra descendente de pessoas escravizadas. Caso não saibam, fato bastante compreensível, posto que não abarcamos todos os campos, sugiro consulta aos trabalhos de Marcos Vinicius Fonseca e Ana Flávia Magalhães Pinto, historiadores da educação e da imprensa e grandes conhecedores do período.

Notava-se, naquele momento histórico, entusiasmo generalizado pela educação, como caminho de superação dos atavismos da escravidão. Havia o que alguns historiadores chamam de “ação branca” para abordar o problema da educação dos negros. Elites intelectuais e políticas pregavam a necessidade de os negros serem escolarizados para atender aos fins pragmáticos dos interesses dos brancos, de transformá-los em bons trabalhadores e bons cidadãos.

Paralelamente, havia a “ação negra.” Os jornais da Imprensa Negra (outro tema merecedor da atenção dos autores – quem sabe a antenada Isabel não teria acesso a um desses periódicos?) apresentavam editoriais e artigos instando a população negra a participar da educação formal, a eliminar o analfabetismo entre os pares. Desde o século XIX havia escolas de/para negros, conduzidas por professoras e professores negros em suas próprias casas, sendo que alguns chegaram mesmo a constituir escolas integradas ao sistema formal de ensino. O Colégio Perseverança, de Campinas, por exemplo, surgiu ainda no período escravista, em 1860. Lá, estudavam meninas negras e mestiças que tinham alguma condição econômica, mas também meninas pobres, que não podiam pagar.

Será muito legal que Zé Maria (Lázaro Ramos) ensine a Capoeira ao pequeno Elias (Afonso Nascimento Neto) e a Olavo (Jorge Amorim), seu doce protetor, assim como o velho africano Benedito ensinou arte em movimento ao menino Vicente, que viria a tornar-se o lendário mestre Pastinha. Mas, é importante que, junto com Olavo e Elias, Vilmar (Márcio Rangel), de alguma forma, incorporem a discussão sobre a escolarização dos negros na trama.

É coerente que a mãe (Ana Carbatti) e a tia dos garotos, Berenice (Sheron Menezzes), dado o caráter duvidoso de ambas, não se importem com a escolarização dos meninos. Não faz sentido, entretanto, que mais ninguém à volta deles, note a questão. O enredo fica desarmônico quando gente como Jurema, Zé Maria, Afonso, Chico, personagens preocupados com o destino coletivo dos negros, sequer percebem que dois rapazinhos e uma criança negra, de estrito convívio com eles, não vão à escola. O tema poderia ser pauta de conversa frugal entre Isabel, uma mulher à frente do próprio tempo, e Laura, uma professora atualizada e sensível, assim, na cozinha, enquanto elas preparam uma refeição. O que não é possível, nem aceitável, é que todos naturalizem a ausência de escola formal na vida dos três meninos negros de Lado a lado. Falta coerência humana e também com o tempo histórico.

Além da passagem pelas várias publicações de Ana Flávia Pinto e Marcos Vinícius Fonseca, sugiro a leitura de Diário de Bitita, no qual há dados preciosos sobre a relação da especial criança negra Carolina Maria de Jesus com a educação formal da década de 1910. A escola precisa ser um tema da vida das três crianças negras de Lado a lado. Aguardamos!
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