Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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4 de set de 2013

Para não dizer que não falei de flores


Por Cidinha da Silva

Vivendo pela palavra, de Alice Walker, me lembra o médico negro-cubano e seu olhar duro, altivo, ao passar pelo corredor polonês de médicos branco-cearenses que o vaiavam e mandavam de volta a Cuba, à África ou ao que entendem como sinônimo de lugar de negros, à senzala.

Traz a médica negro-cubana, de olhar igualmente duro, mas assustado com o Brasil real, dissonante da harmonia racial das novelas tupiniquins veiculadas fora do país, assistidas em África e em outros países pobres, aos quais ela emprestou o preparo técnico e o senso de humanidade apurados ao longo da vida.

Alice, a escritora, é dura no uso da palavra quando aborda o racismo. Com ele e com os racistas não há como ser maleável. Joaquim Barbosa também é implacável, não descansa porque não o deixam em paz. Para açoitá-lo usam o “quem ele pensa que é?”, como se destacassem sua suposta arrogância, mas o que os herdeiros da casa grande ratificam, de fato, é o “sabe com quem está falando?” Querem acuar o ministro negro num lugar de subalternidade que, mais do que recusar, ele simplesmente desconhece.

Ambas as expressões nascem do mesmo lugar social de privilégio, intentam dizer aos negros que não são tão bons quanto parecem e ainda que o sejam, não têm pedigree como os brancos.

Escrever uma crônica nova depois de tanto tempo faz emergir o tema da falta de tempo. A falta de assunto, matéria de tantos cronistas não me afeta. Ao contrário, a movimentação subreptícia dos racistas como reação a cada pequena conquista, a cada ameaça de ampliação do horizonte negro, me dá uma preguiça, uma letargia e, como Alice, chego a querer não mais escrever sobre esses temas. Meu tempo para eles tem se esgotado.

Eis que encontro um cego atípico e ele me dá um sacode. Enquanto a maioria de seus pares movimenta-se em gestos contidos de tatear o mundo à frente e ao lado para entendê-lo e para definir o próprio espaço sem incomodar as outras pessoas, o rapaz, como um vento forte, batia a bengala com força no chão, para a esquerda e para a direita. Fazia barulho, puxava um carrinho de mais de  metro, coberto de sacos pretos, provável camelô carregando o material de trabalho e sua história. Tudo muito rápido, exúnico, sem óculos que lhe escondessem o vazio da caixa ocular e sorrindo, tirando onda, indiferente aos que o julgavam maluco, obrigando-os a desviar de sua direção aos pulos, senão ele passaria por cima deles com a bengala, o corpo, a memória e a história.


Não sei como aquele homem percebe as flores do caminho, mas tenho certeza plena de que os ipês vistos logo cedo, floresceram por ele.
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