Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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7 de set de 2013

Sobre o escritor Fabião das Queimadas


Fabião "de Barcelona"


A história de um dos maiores poetas potiguares que viveu e está sepultado em Barcelona


por Adriano Costa


Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha, popularmente conhecido por Fabião das Queimadas nasceu em 1848, na fazenda Queimadas município de Santa Cruz. Depois a fazenda pertenceu aos atuais territórios dos municípios de São Tomé e Barcelona. Com a criação do município de Lagoa de Velhos em 1962, a fazenda passou a pertenceu ao território do novo município. Mas posteriormente, Fabião veio a residir sucessivamente nos municípios de São Tomé, Sítio Novo e finalmente em Barcelona.
Fabião das Queimadas posa para seu único registro fotográfico
Clique sobre a foto para ampliar!
O folclorista Câmara Cascudo, no seu livro "Vaqueiros e Cantadores", descreve-lhe o tipo físico do poeta. Ele era um negro baixo, entroncado, robusto, de larga cara "apratada" e risonha, nariz de congolês. Tinha os olhos tristes de escravo, conservava a dentadura intacta e um bom - humor perene.
Nascido escravo, o notável poeta pertenceu ao major José Ferreira da Rocha, nas Queimadas das férteis terras de Lagoa de Velhos. Fabião, começou a vida como agricultor e vaqueiro. Há uma grande suspeita de que o poeta é filho de José Ferreira com uma escrava. Porém, foi encontrado pelo pesquisador Hugo Tavares Dutra na Arquidiocese de Natal, a certidão de casamento de Fabião datada de 17 de novembro de 1881, na qual consta que este era filho de um escravo chamado Vicente. Mesmo assim, a possibilidade do poeta ser filho de José Ferreira não está descartada.
Com dez anos o poeta já cantava. Aos dezoito anos de idade, o poeta não se conteve e com algumas economias que fez no trabalho da agricultura, juntando dinheiro vendendo couro de animais, mel, legumes e frutas que plantava conseguiu comprou uma rabeca, pois essa rabeca passava a ser um instrumento não musical, mas com ela saiu cantando e tocando suas toadas e seus repentes pelas vaquejadas, pelas casas e povoados simples de sua região. Note o amor com que o poeta dedica esta redondilha ao seu instrumento:
"Essa minha rabequinha
É meus pés e minhas mãos
É meu roçado me mio
Minha pranta de feijão
Minha criação de gado
Minha safra de algodão."
Com esse propósito o poeta conseguiu ganhar dinheiro o suficiente para comprar a sua própria liberdade por 800$000 (oitocentos mil réis) e posteriormente a de sua mãe Antônia por 100$000, Antônia e de uma sobrinha, Joaquina Ferreira da Silva por 400$000, conhecida como "Sinhaninha" com a qual o poeta casou e tiveram quinze filhos.
"Quando forrei minha mãe
A lua saiu mais cedo
Pra clarear o caminho
De quem deixava o degredo"
Ao dizer "forrei" o poeta faz uma referência à compra da carta de alforria de sua mãe com o dinheiro que ganhava tocando rabeca.
Para se ter uma idéia da facilidade com que o poeta versificava de improviso sabe-se que num dia de chuva em Barcelona o poeta fazia compras no armazém de Oscar Marinho de Carvalho. Como as embalagens eram de papel, ele resolveu esperar a chuva passar. O comerciante então lhe fez um desafio prontamente aceito pelo poeta - Fabião, diga-me uns versos que terminem com "adeus minhas encomendas que você pode levar sua feira de graça. Fabião tirou o seu chapelão e olhando para a chuva que caia lá fora recitou algo que até a criação da PORTAL VIRTUAL BARCELONA permanecia inédito:
"Numa chuva com relâmpago,
Não há trovão que não gema
Nosso patrão tá dizendo:
Adeus minhas encomendas".
Considerado o primeiro rabequeiro de que se tem notícia no Rio Grande do Norte, Fabião era figura conhecida no interior do Estado, Fabião das Queimadas não era cantador de feiras. Cantava na casa dos amigos e dos ricos, com ou sem remuneração alguma. Tinha verdadeira paixão pelas vaquejadas. Era uma espécie de repórter. Gostava de acompanhar os vaqueiros na captura de um barbatão e assistia a uma vaquejada observando atentamente todos os lances para melhor se inspirar nos seus bonitos versos. Sabia contar todos os acidentes ocorridos e, como era bom poeta ee cantador, encarnava-se no cavalo ou na rês. Além dos chamados romances da literatura de cordel, também gostava de fazer trovas de improviso. Usava habitualmente um inseparável chapéu de couro, símbolo do vaqueiro nordestino.
Fabião tinha uma verdadeira admiração pelo famoso cavalo Castanho da fazenda Divisão, encravada no município de São Paulo do Potengi. Contam que, ao saber da morte do "Castanho da Divisão", encarnou-se no animal e disse de improviso a seguinte trova:
"Gostei de correr o gado
Quando eu tinha boa esteira.
Novilha, boi, vaca e touro
Pra mim não tinham carreira".

Conta Sátiro Adelino Dantas que,nos idos de 1920, o poeta do Potengi resolveu fazer uma visita ao coronel José Bezerra de Araújo Galvão, o todo-poderoso coronel Zé Bezerra da Aba da Serra. 0 coronel não se encontrava em Currais Novos. Estava invernando na famosa fazenda Aba da Serra. Fabião não perdeu tempo. Viajou imediatamente até o solar do velho patriarca do Seridó. Lá chegando, foi recebido fidalgamente pelo coronel e seus familiares. Conversa vai, conversa vem, lá pras tantas um amigo do coronel solicitou ao poeta fazer um elogio em versos ao coronel José Bezerra. Fabião, então, improvisou a seguinte sextilha:
"Aqui na Aba da Serra
Não é pra ninguém subir.
Só se fôr de Currais Novos,
Ou então do Acari,
Ou Fabião das Queimadas,
Poeta do Potengi."
Câmara Cascudo convidou o poeta para fazer um passeio. Através do folclorista, o poeta conheceu muita gente importante da capital e no interior. Pessoas como o governador Ferreira Chaves e Eloi de Souza. Este último, grande admirador da inteligência e dos versos inspirados do poeta popular. Eloy providenciou que fosse tirada uma foto do poeta, que hoje é sua única foto conhecida. O poeta dos vaqueiros foi estudado por Ariano Suassuna e Orígenes Lessa, além de ter sido musicado por Antônio Nóbrega.
Em 1910, Alberto Maranhão (1872 - 1944) era governador do Rio Grande do Norte e estava invernando na sua fazenda Cachoeira, localizada no atual município de São Paulo do Potengi. 0 governador era um homem enamorado da poesia. O poeta chegou a cantar até no Palácio do Governo. Fabião era quase vizinho do Alberto Maranhão, pois sua pequena propriedade Riacho Fundo ficava a poucos quilômetros da fazenda Cachoeira.
Certo dia, Fabião das Queimadas apareceu para fazer uma visita a Alberto Maranhão. 0 anfitrião solicitou a Fabião que cantasse alguns romances sertanejos. 0 poeta atendeu de imediato a solicitação do governador. Acompanhando-se da sua famosa rabeca, cantou alguns romances. Depois, passou a declamar quadrinhas.
Outra vez, também na residência oficial do Governador, saudou com esta quadra o Senador Elói de Sousa, um dos grandes vultos da política de então, o qual não se envergonhava do sangue negro que lhe corria nas veias:
"Seu doutô Elói de Sousa,
Minha mãe sempre dizia,
Se o senhô não fosse rico,
Era da nossa famia."
Fabião tinha muita estima por seus filhos. Filipe Ferreira da Silva, ou Filipe Fabião, e Fabião Filho, ou Fabião Novo. O primeiro dedicou-se desde muito moço ao trato com a terra. O segundo era o caçula da família. Fabião Filho era um menino vivo, inteligente e despontava alguma vocação poética O velho Fabião tinha esperança de que o seu caçula fosse um dia o seu substituto na arte da poesia. Tanto que uma vez fez a seguinte trova:
"Eu sou o Fabião véio,
Divertimento do povo;
Morrendo Fabião véio,
Vai ficá Fabião novo."
Para decepção do velho poeta. Fabião Filho começou a apresentar sintomas de loucura, doença que progredia cada vez mais. Doente e acabado, esperando a visita da morte a qualquer momento, Fabião das Queimadas fez o seu último verso em sextilha, cujo teor é o seguinte:
"Quando ouvirem falá
Que Fabião véio morreu,
Todos pode acreditá
Que a semente se perdeu:
De muitos fio que tive
Nenhum saiu que nem eu".
Encontro entre Fabião das Queimadas e Castro Alves alguma relação. Fabião nasceu escravo em 1848 e foi o poeta dos vaqueiros. Castro Alves, nascido em 1847, foi o poeta dos escravos. A instrução e os anos de vida é que foram muito diferentes entre os dois. Fabião, quase analfabeto, morreu com 80 anos. Castro Alves, estudante de Faculdade, tinha apenas 24 anos ao falecer.
Fabião das Queimadas morreu aos 80 anos de idade, em 1928, na sua pequena propriedade chamada Riacho Fundo em Barcelona vitimado pelo tétano quando se feriu num espinho de macambira quando viajava montado em um burro. O poeta está enterrado no cemitério local de Barcelona. Fabião Filho continuou a definhar e, pouco tempo depois, também morreu. Tinha 26 anos de idade.
Fabião das Queimadas deixou inúmeros romances sobre bois e cavalos de sua região, como A Vaca Malhada e o Boi Mão de Pau, dentre outros que ele cantava e sempre acompanhado da sua inseparável rabeca.
Nas suas cantorias sempre repetia o seu "Redondo, Sinhá", que era uma espécie de coro. Em determinados versos, também servia de prefixo. Fabião era analfabeto, por isso gostava de ditar para alguém escrever versos ou quadrinhas de sua autoria. Calcula-se que tenha extraviado 90% de sua produção. É lamentável, mas infelizmente o folclore do Rio Grande do Norte muito perdeu da literatura de cordel do famoso poeta dos vaqueiros.
Fiel ao ditado que diz que santo de casa não obra milagre Fabião, um dos maiores poetas populares do Brasil, não tem nada em sua homenagem em Barcelona. Nenhuma rua, praça, biblioteca ou escola.

 

A morte do touro mão de pau
"À memória de meu pai que tendo  sido assassinado também preferiu a morte à desonra, a 9 de outubro de 1930"
Corre a serra Joana Gomes
Galope desesperado:
Um Touro se defendendo,
Homens querendo humilhá-lo,
Um touro com sua vida,
os homens em seus cavalos.
Cortava o gume das pedras
Um bramido angustiado ,
Se quebrava nas caatingas
Um galope surdo e pardo
E os cascos pretos soavam
Nas pedras de Fogo alado,
Enquanto o clarim da morte,
Ao vento seco e queimado,
Na poeira avermelhada
Envolvia os velhos cardos.
Os negros cascos soavam
Em chamas de fogo alado!
Rasgavam a serra bruta
Aboios mal arquejados
E, nas trilhas já cobertas
Pelo pó quente e dourado,
Um gemido de desgraça
Um gemido angustiado:
- “Adeus, Lagoa dos Velhos,
Adeus, vazante do gado!
Adeus, serra Joana Gomes
E cacimba do Salgado!
O touro só tem a vida:
Os homens tem seus cavalos”.
O galopar recrescia.
Brilhavam Ferrões farpados
E algemas de baraúna
Para o touro preparados.
Seu Sabino tinha dito:
- "Ele há de vir amarrado”!
Miguel e Antônio Rodrigues
De guarda-peito e encourados,
Na frente do grupo vinham,
Montados em seus cavalos
De pernas finas, ligeiras,
Ambos de prata arreados.
E, logo à frente, corria
O grande touro marcado
Manquejando sangue limpo
Nos caminhos mal rasgados,
Cortadas as bravas ancas
Por ferrões ensangüentados.
A serra se despenhava
Nas asas de seus penhascos
E a respiração fogosa
Dos dois fogosos cavalos
Já requeimava, de perto,
As ancas do manco macho
Quando ele, vendo a desonra,
Tentando subjugá-lo,
Mancando da mão preada
Subiu num rochedo pardo:
Num grito, todos pararam,
Pelo horror paralisados,
Pois sempre, ao rebanho, espanta
Que um touro do nosso gado
Às teias da fama-negra
Prefira o gume do fado.
E mal seus perseguidores
Esbarravam seus cavalos,
Viram o manco selvagem
Saltar do rochedo pardo:
Houve um grande torvelinho
De terno olhar assustado
E de aspas enfurecidas
Reviradas para o alto.
E o touro lançou seu último
Bramir de morte encrespado:
_”Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, serra Joana Gomes
E cacimba do Salgado!
Assim vai-se o touro manco,
Morto mas não desonrado”!
Silêncio. A serra calou-se
No poente ensangüentado.
Calou-se a voz dos aboios,
Cessou o troar dos cascos.
E agora, só, no silêncio
Deste Sertão assombrado,
O touro sem sua vida,
Os homens em seus cavalos.  
 
  
Ariano Suassuna
( baseado nos versos de Romance do boi mão de pau de Fabião das Queimadas )

Clique e leia o original de o Romance do boi mão de pau criado por Fabião das Queimadas.
 
 
Canta alegre os passarinhos
do outro lado do rio
uns cantam por que tem fome
outros cantam por ter frio
uns cantam de papo cheio
outros, de papo vazio.
 
Fabião das Queimadas

Breve história da rabeca

    Essa idéia de tocar um instrumento de cordas friccionando um arco começou há muito tempo, com um povo de um lugar muito longe, mais perto de onde o sol se levanta e as histórias duram mil e uma noites. Era um povo árabe, que dominou a Europa por longos anos e lá deixou muitas idéias, inclusive a desse instrumento, que eles chamavam de rabãb. Na Idade média, os trovadores e menestréis mexeram no dito instrumento: nas cordas, na forma, na afinação, no modo de tocar e passaram longos anos cantando amores e dores acompanhados pelo que ficou batizado de rabeca. São utilizadas em nossas músicas folclóricas.
O músico em geral, apóia o instrumento no peito ou no ombro esquerdo. Para tocá-las os rabequeiros apóiam uma extremidade do instrumento sobre o ombro esquerdo (ou direito) e outra parte suspendem levemente com o peito. Era assim que procediam os tocadores de viola da Idade Média. Nos palácios, a música evoluía pedindo mais virtuosismo.
As rabecas são instrumentos, cuja sonoridade é estridente, fanhosa e ao mesmo tempo tristonha. Ela tem som grave, com três ou quatro cordas. Os prelúdios e os interlúdios executados na rabecas são denominados "repinicados". Mas as mudanças continuaram, de acordo com a necessidade dos músicos.Por isso a rabeca é encontrada em vários tamanhos. Os mais conhecidos são a rabeca-violino, a rabeca-viola e o rabecão.
Rabeca
No século XVI, na região de Cremona, norte da Itália, nasceu o Violino, que se divorciou da rabeca. O primeiro, considerado modelo de perfeição, encastelou-se no universo erudito e sofreu apenas mais algumas pequenas modificações, principalmete a partir do período clássico, para ampliar a capacidade sonora, consolidando-se na forma imortalizada até hoje. A rabeca, sem o mesmo status do primo rico, sobreviveu nas mãos de artesãos e fiel à oralidade das tradições culturais populares, dando continuidade às mutações como numa brincadeira de telefone-sem-fio.
"Fabião das Queimadas
Era pequeno, me alembro
do cantadô Fabião;
Sua rabeca, seu baião
gemedô...

Poeta improvisadô
nego véi inteligente,
perigoso no repente
da poesia.

Onde cantava corria
um povão pra escutá
o poeta sem iguá
na ribeira.

E cantava a noite inteira
história de apartação,
das vaquejadas de então
que havia.

Sua rabeca gemia
no seu "Redondo Sinhá"
e a gaiganta retinia
num canto sentimentá".


Cosme Ferreira Marques

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