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6 de nov de 2015

Taís Araújo paga por fazer sucesso em “Mr. Brau” sem se fantasiar de branca. Por Cidinha da Silva




Postado em 05 nov 2015
Mr Brau e senhora
Mr Brau e senhora

Às quartas-feiras, invariavelmente, a atriz Taís Araújo utiliza as redes sociais para conversar com seu público sobre o capítulo da série Mr. Brau, veiculado na noite anterior pela TV. É uma boa estratégia de marketing. A propaganda de um produto televisivo é a alma do negócio.
Em tom coloquial e simpático, próprio da linguagem utilizada por artistas nas redes, ela pergunta aos telespectadores se gostaram do episódio e destaca algum aspecto significativo. Vez ou outra apresenta um dos profissionais envolvidos, como Antonio Medeiros, o figurinista, responsável pelos elogiados looks de Michelle, sua personagem.
Um desses comentários-chamada para o próximo capítulo sintetiza o que é Mr. Brau, o personagem, e, de certa forma, a série: “ele apronta das suas, mas, no final dá tudo certo.”
Brau é um herói! Telespectadores e principalmente telespectadoras sobreviventes de O sexo e as negas, Sai de baixo e outros programas peçonhentos precisam de heróis e heroínas negros dignos, bem construídos, humanizados. Referências como Taís Araújo e Lázaro Ramos, jovens artistas talentosos, competentes e bem sucedidos, na trama e na vida pessoal, fazem com que o público se sinta respeitável.
As bases de sua cultura são valorizadas e expressas de maneira digna e criativa, ao contrário da maioria dos humorísticos que as ridicularizam, estereotipam e violentam. Ao atuarem como protagonistas de um seriado como Mr. Brau, Taís e Lázaro levam a audiência a acreditar que a vida da gente exposta ao racismo pode ser comum e pode dar certo, pelo menos na ficção.
O casal é exceção na sociedade brasileira, é verdade. Primeiro, trata-se de um músico negro de sucesso que tem uma companheira-musa negra, se é que vocês me entendem. Uma personagem que parece ter o nome e a personalidade inspirados na poderosa primeira dama dos Estados Unidos. Aquela a quem Barack Obama atribuiu sua estrutura de homem íntegro e forte.
Depois é um casal de negros ricos. São honestos e enriqueceram pelo trabalho. Para coroar tudo, os dois são bem resolvidos quanto à origem socioeconômica popular, mantêm relações saudáveis com as famílias, têm muitos amigos negros, são felizes e têm projeto de vida. Portanto, sabem de onde vieram, quem são, onde estão e para onde vão. E são personagens pretos brasileiros. Não são extraterrestres.
Há os que preferiam que Michelle e Brau fossem cientistas, médicos, engenheiros, professores universitários. De acordo com essa opinião, as profissões das personagens apenas ratificam a possibilidade de sucesso para os negros pela música. Discordo. Se a música fosse mesmo esse terreno isento de racismo, os donos de gravadoras não tentariam interromper o projeto de carreira de Djavan, propondo novas composições com parceiros, para que ele deixe de ser um artista “autoral demais.”
Como nos lembra Zezé Motta, o problema não é representar trabalhadoras domésticas nas telenovelas brasileiras. O problema são as empregadas sem voz, mudas em todas as cenas, servindo cafezinho ou limpando a mesa. Inaceitável foi terem oferecido este tipo de representação a ela, Zezé, imediatamente após o estrondoso sucesso de Xica da Silva no cinema, como a dizer-lhe, “sua consagração não vale nada. Você sempre servirá café. Não terá voz. Seu destino como atriz será limpar a mesa e o chão.”
O texto de Mr.Brau é bom. Tem agilidade, leveza e inteligência exigidos pelo gênero, tornando cada capítulo algo divertido. O grupo de atores e atrizes é fantástico, profissionais com veia de humor na medida, sem a apelação preconceituosa e racista tão cara à Globo.
Guardando-se as diferenças de gênero textual, considerando-se a qualidade técnica e dramatúrgica de dois trabalhos televisivos, a comédia Mr. Brau lembra a novela Windeck. Embora esta, assemelhe-se às produções mexicanas, considerando a dramaturgia precária, texto horroroso e filmagem quase amadora.
Todavia, as duas produções a despeito das diferenças gritantes aproximam-se pelo ineditismo de apresentarem pessoas negras comuns em posição de protagonismo, movimentando-se por uma ambiência negra. Vivendo problemas afeitos a profissionais negros, empresários e artistas, ou seja, no caso brasileiro, o seriado não faz de conta que o racismo não existe. A tensão racial perpassa a trama todo o tempo. Quanto aos angolanos, eles entendem o racismo de outro jeito, tema para crônica posterior.
Somam-se ainda as questões sociais de cada país. A produção angolana enfatizou a corrupção e o alpinismo social. A brasileira destacou a administração das carreiras de sucesso de um casal que trabalha junto na TV e na vida real.
Aliás, Taís Araújo e Lázaro Ramos têm aproveitado tudo de positivo que a visibilidade do trabalho pode gerar. Vimos durante décadas os casais Eva Wilma e Carlos Zara, Paulo Goulart e Nissete Bruno, Tarcísio Meira e Glória Menezes, atuando juntos na TV e no teatro. Pela primeira vez vemos um casal negro a fazê-lo.
Atriz e ator negros que agregam ao excelente desempenho artístico a capacidade de gerir a carreira em diálogo com o mercado. Adotam a mesma estratégia de Antonio Fagundes e outros grandes artistas que aproveitam a aparição na TV para potencializar o público do teatro. Lázaro e Taís gravam o seriado no Rio e concomitantemente encenam O Topo da Montanha, sobre a última noite na vida do líder Martin Luther King, no teatro, em São Paulo.
Quando há negros como protagonistas em programas televisivos de grande audiência, existe a possibilidade de que eles pautem a mídia, tornando-se freqüente ouvi-los em entrevistas, vê-los em capas de revistas. Também multiplicarão seus rendimentos com publicidade. Afinal, mídia gera mídia. Saberemos sua opinião sobre as coisas do mundo.
Conheceremos sua formação familiar. Tomaremos conhecimento dos princípios da educação dos filhos, do que comem, como se divertem, como cuidam da saúde. Enfim, eles farão recomendações aos fãs, seguidores e admiradores por meio do exemplo, do discurso. A partir do próprio universo passarão a disputar um lugar de formação e interferência no imaginário sociocultural do país.
Santa intencionalidade, Batman! Isso é perigoso. Pode empoderar a comunidade negra brasileira. Os racistas sabem disso, piram e atacam Taís Araújo nas redes sociais em resposta. Querem humilhá-la, cortar com a lâmina da fofoca racista sua juba de orgulho crespo-pensante. Racismo é caso de Polícia e que ela cuide disso e faça cumprir a lei. Nossos heróis continuam seu trabalho e sua vida.
Tem gente que os está chamando de Jay Z e Beyoncé brasileiros. Acho algo fora de contexto. É muito mais difícil para Taís e Lázaro se firmarem como artífices respeitados no cenário de desfaçatez do racismo nacional.
Nos EUA, uma pessoa branca, em gozo pleno de faculdades mentais, consciente de seus privilégios como branca, pensaria dez vezes antes de debochar publicamente de ataques racistas sofridos por uma colega de trabalho negra. Teria vergonha de expor-se ao ridículo por ciúme e dor de cotovelo, como fez Luana Piovani, que amarga um período fora da telinha. A atriz alegou que é constantemente sacaneada na internet e ninguém a defende. Coitadinha. Se Taís Araújo não estivesse em evidência como está agora, reclamação não haveria. É provável até que recebesse da mesma colega um afago de solidariedade.
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Cidinha Silva
Sobre o Autor
Cidinha da Silva, mineira de Belo Horizonte, é escritora. Autora de "Racismo no Brasil e afetos correlatos" (2013) e "Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil" (2014), entre outros.
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