Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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12 de nov de 2015

A aula sobre racismo no Brasil da consulesa da França em SP

Por Cidinha da silva



Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo quebrou tudo no Programa do Jô. Sua entrevista teve repercussão maior do que a participação no Esquenta, Amaury Júnior e mesmo em programas sérios de jornalismo. Acontece que Jô Soares e sua produção constituíram um produto televisivo formador de opinião, principalmente da claque universitária que disputa vagas no auditório diariamente.
A consulesa, por sua vez, sabe lidar com as câmeras, com o tempo curto da TV, com a plateia do estúdio e o público de casa. Também manejou bem o entrevistador que costuma intimidar muita gente e a alguns sequer deixa falar. Além do carisma pessoal e de todos os encantos de uma mulher muito segura de si, Alexandra Loras é jornalista e desenvolveu pesquisas sobre a visibilidade das minorias na mídia. Tem também no currículo sete anos como apresentadora de TV na França.
Na entrevista do Jô ela foi performática e reflexiva. Assim, quando o apresentador perguntou se ela já havia passado por preconceito no Brasil, a consulesa sorriu e disparou: ah, era essa a pergunta que você queria me fazer. Foi uma rasteira na previsibilidade das abordagens que pretendem tratar a discriminação racial como tema ameno, aprazível para o café da tarde.
A performance vive o segundo grande momento quando a entrevistada exemplifica uma situação discriminatória vivenciada no exercício protocolar da diplomacia francesa ao receber os convidados de uma recepção na porta da Embaixada. Ela conta que várias pessoas a ignoram, não a cumprimentam, passam por trás dela. Seu discurso não deixa dúvidas de que isso ocorre porque é negra. Não há espaço para o apresentador tergiversar ou sofismar baseado nas relativizações que o brasileiro médio faz sobre o racismo e suas manifestações.
No terceiro ato Alexandra Loras bate bola com o apresentador, muda de lugar e o entrevista. Formula perguntas sobre expressões de racismo e segregação no Brasil, usa como exemplo o uniforme branco das babás. Sua larga experiência internacional é usada para dar suporte à afirmação.
A novidade é a possibilidade de a consulesa emitir uma voz negra crítica neste programa e, de resto, na mídia brasileira. A rigor, ela diz coisas que o Movimento Negro contemporâneo diz há décadas. Sem escuta.
Abdias Nascimento numa situação política em que as mulheres negras não tinham voz disse que se faria cavalo delas, ou seja, emprestaria o corpo para que suas demandas se manifestassem. Alexandra Loras tem sido cavalo dos negros brasileiros. Tem emprestado seu corpo, elegância e sabedoria para, de maneira didática e espetacular, provocar as pessoas brancas a pensar o mundo ao revés. Ou seja, ela as força, em nome da boa educação, a ouvir uma preleção sobre os lugares de subalternidade construídos para as pessoas negras no mundo, nos quais, o exercício é fazer com que os brancos assumam a posição sociocultural dos negros.
É mesmo um espetáculo o que ela encena quando propõe que as pessoas brancas tirem a mochila do passado das costas e livrem-se das responsabilidades imputadas pelo escravismo e colonialismo. A seguir introduz a questão das cotas chamando-as de feias e humilhantes. A plateia que tinha um grito de insatisfação preso na garganta depois de toda aquela chatice de ver o mundo ao revés, vai para a galera e aplaude a performer em cena aberta. Enfim, a mulher belíssima e articulada entendeu o lado deles.
Só que não. Era pegadinha ou estratégia de comunicadora hábil. Alexandra Loras retoma as rédeas da situação depois de ter desnudado os privilégios brancos gozados pela audiência.
Se fosse técnica de futebol, a consulesa seria do tipo motivacional e manipularia os aspectos psicológicos dos jogadores para conseguir os resultados desejados. Mas, que nada. Seu tema predileto por aqui tem sido a explicitação do racismo que vivencia como mulher negra que circula elegantemente pelos espaços de elite no Brasil. Estamos diante de uma grande comunicadora que prima pelo raciocínio lógico e que usa uma flauta doce para encantar najas.

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Cidinha Silva
Sobre o Autor
Cidinha da Silva, mineira de Belo Horizonte, é escritora. Autora de "Racismo no Brasil e afetos correlatos" (2013) e "Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil" (2014), entre outros.
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