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12 de mai de 2016

Alguma poesia para chamar o sol e saudar as águas


Por Cidinha da Silva



No dia 17 de abril de 2016, durante a homologação do golpe contra Dilma na Câmara dos Deputados, quando a leoa Jandira Feghali se aproximou do microfone para votar contra o golpe e tinha o rosto abatido, dolorido, destroçado, eu não agüentei. Abandonei a TV e me refugiei no telefone.

Por que não atendi ao chamado do Paraguaçu para assistir a votação às suas margens? Era o que me perguntava. É que nunca, nem no pior dos meus pesadelos, imaginei aquele espetáculo de re-colonização encenado pela casa-grande.

E parecia que Jandira ia chorar. E ela poderia ter chorado, sem perder um milímetro de sua força. Seria o choro represado por todas nós. Seriam lágrimas nossas como foi o cuspe de Jean Willys no deputado nazista.

Aliás, não tive forças para assistir o voto de Jean também. Eu o ouvi de longe enquanto buscava ungüento para meu desamparo. Meu bote de salvação foi a lembrança de um professor de literatura que certa feita me disse: “Todas as vezes que morre alguém que amo, leio poesia. É a única coisa que me conforta”.

Eu morri um pouco aquele dia. Minha ilusão de justiça social também. Precisava de salvação e busquei a poesia.

O bote-salva-vidas foi “Correntezas e outros estudos marinhos”, de Lívia Natália. Li a apresentação, o prefácio e o primeiro poema. Quando cheguei ao segundo, “Sina”, li e reli umas seis vezes e resolvi dar uma pausa ao meu coração, contudo, o bichinho se acabrunhou novamente quando o barulho de panelas, foguetes e gritos de “fora Dilma” interrompeu o torpor poético que aplacara em mim o desespero. Assisti um pouco mais daquelas cenas macabras que expuseram nossas vísceras apodrecidas ao mundo.

Voltei à poesia para continuar viva. Durante a leitura, o previsto aconteceu. A poesia de Lívia Natália sangrou fertilidade e me arrebatou. Arrebentou, também. E fiquei mais lenta. Atenta para reter o pó de ouro abrigado entre um verso e outro. Para não desmanchar a tipografia quando a água tomasse conta de tudo.

Ari Sacramento me libertou do medo de afogamento no desconhecido  mar da análise literária, pela leitura afetiva que fez do livro. Eu sei escrever e ler, não domino as teorias. Ari, que sabe nadar em todos os estilos e nos lugares mais fundos do mar, me autorizou a tornar pública a ebulição das águas oceânicas deste livro no Rio Doce que me habita. Rio destruído pela Samarco nos Gerais de minha Minas sem mar.

“Estudo marinho” é um poema que li dez, vinte vezes. Não para “entender”, como costuma ocorrer com boa parte da poesia contemporânea que me cai às mãos, mas para entranhar  e degustar cada verso. Porque na poesia de Lívia Natália, que mora nas pedras negras, “a água se encharca nas palavras”. Porque é uma poesia que nos convida a sermos também “Orixás Didés” e nos banharmos no nosso próprio mistério.

Nós, que quando lemos boa poesia, somos tentadas a poetar também. E que nos perdoe a poeta, porque sua poesia “faz as tardes se emanciparem da gente”.

Em “Sometimes” o vento se movimenta e pobre da voz lírica, pois é toda feita de água. Do lado de cá sou feita das pedras que Lívia Natália se ocupa em cantar. Mas toda pedra um dia foi água e aí reside sua poetação.

“Imitação” é um poema de que discordo no início e com o qual concordo na conclusão. Diz a poeta nos primeiros versos: “A palavra não tem mesmo antes: / nada de seu esboço calmo flutua no ar”. Penso que o antes existe e se manifesta na busca da palavra precisa, que é também o depois, a reescritura.

A concordância vem ao final, no que considero a reafirmação Drumoniana de que “lutar com as palavras é a luta mais vã”, diz Lívia Natália: “As palavras afirmam o que mesmo são: / sombras de pássaros”.

Em “confissão”, a idéia dos limites da palavra se apresenta novamente e cala fundo em mim: “Nem tudo o que choro, / pode ser transmutado em poesia”. Sim! Viver é maior do que escrever.

Sobre “Quadrilha”, o poema censurado por pressão da “bancada parlamentar da bala” da Bahia, escrevi uma crônica inteira, publicada aqui. Lá, escrevi: “mesmo o poema de amor corta, pode ser dilacerante e pode também agredir muito a quem orienta a vida pelo desamor, pelas armadilhas e pela luta política menor”.

Vejamos o que a poeta escreveu em Quadrilha. “Maria não amava João. / Apenas idolatrava seus pés escuros / Quando João Morreu / Assassinado pela PM / Maria guardou todos os seus sapatos”.

Ficou patente a reedição da censura a partir daquele 14 de janeiro de 2016, à medida que o governo baiano retirou das ruas, na calada da noite, um poema de amor e crítica social, em atendimento às reclamações e articulações espúrias de militares inconformados com a exposição de sua carne viva que aperta o gatilho e extingue o corpo negro.

 Com alguns poemas me identifico mais, outros menos. Com poucos não me identifico, mas nada é raso ou “de plástico” (estética pela estética), para parafrasear outro poeta, Ni Brisant. Isso é o que fica.

Com a delicadeza dos “poeminhas de amor sem enfeite nenhum” me identifico muito. É quando gosto mais da poesia de Lívia. Quando fala de amor. Do amor vivido, liricamente experimentado no corpo.

Corpo que luta para existir e ser respeitado e por isso, muitas vezes, se perde de si e do amor. Só se reconhecendo na (reduzida) luta pela sobrevivência. Na resistência.

E a poeta nos redime ao nos lembrar que “mesmo que tudo em nosso vôo anuncie o exausto das horas, para sempre seremos pássaros. Para isto nascemos”.

O poema que encerra o livro, “Cura”, me remete ao motivo de ter buscado o “Correntezas e outros estudos marinhos” para sobreviver a um mar de detritos produzido e espalhado por ratazanas perigosas e repugnantes: “O tempo, como um cão, / cura as feridas na saliva dos dias”.


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