Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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6 de mai de 2016

Trecho da entrevista de Cidinha da Silva na Revista Afirmativa


Leia entrevista completa na Revista Afirmativa
A que se deve o pouco hábito de leitura do brasileiro em geral. Suponho que a comunidade negra, também tomada por esse mau costume da não-leitura, seja o principal foco da sua escrita. Quais são suas estratégias para seduzir leitores?
Então, vamos por partes. São três os temas nesta pergunta, não é? Vários analistas da leitura têm dito que o principal ativo de promoção da leitura no mundo contemporâneo é o tempo. As pessoas leem cada dia menos porque não têm tempo para ler. A leitura de um livro é exercício de contemplação da palavra, de interação com um movimento, um ritmo proposto por uma autora ou autor. Nesse mundo tão corrido, quem é que se senta na varanda, no sofá, ou se deita na rede para ler? Quem é que para? E veja que estamos falando de pessoas que trabalham e têm tempo livre e podem escolher o que fazer com esse tempo. Não estamos falando de pessoas que trabalham como burras de carga, das quais a FIESP acha que pode roubar a mísera hora de almoço. Gente que despende entre três e seis horas diárias para deslocar-se para o trabalho e voltar à casa. Na maior parte das vezes em pé, amontoada em metrôs, ônibus e trens super lotados. No caso das mulheres, expostas ainda a situações de abusos sexuais.
Mas, espera, a pergunta era sobre o “pouco hábito de leitura”... sim, o gosto pela leitura está diretamente relacionado às condições de vida, às possibilidades de fruição, à existência de tempo livre. As afirmações de que “quem quer ler o faz em qualquer lugar” são bastante úteis para uma relação com o livro que não seja marcada pelas limitações, pelas precariedades.
Isso posto, podemos abordar outros fatores limitadores, tais como:
- o baixo investimento na promoção do gosto pela leitura (veja bem, falo em gosto, não em hábito) na escola, durante o ensino básico;
- o despreparo de professoras e professores para lidar com a literatura como espaço de liberdade, pelo qual se deve transitar sem definir respostas certas e erradas, sem a futurologia do “que o autor quis dizer com isso ou aquilo”;
- a existência de prática deliberada de constituição do livro (dos saberes que ele contém) como elemento de opressão das classes populares e das demais pessoas que não compõem a elite intelectual que produz livros. O livro não é vendido como um objeto-amigo, mas como um instrumento de poder das elites sobre o povo, que o teme e venera como algo distante de si;
- ausência de campanhas massivas de popularização do livro e de políticas públicas para tornar a leitura acessível a grandes grupos de pessoas;
- preço elevado dos livros e encastelamento deles em livrarias que não temos o hábito ou a possibilidade de frequentar;
- por fim (é o que me ocorre agora), existe a questão da falta de representação de grupos não-hegemônicos na maior parte da literatura de grande circulação no mercado editorial. As pessoas gostam de livros nos quais se vêem, se reconhecem, que contam histórias que lhes são caras.
Quanto ao foco da minha escrita, tenho em mente a leitora que sou, o que gosto de ler, as personagens e situações que gostaria de ver abordadas na criação literária.
Quanto a “estratégias para seduzir leitores”, sou uma autora que escreve para ser lida, então, não utilizo linguagem cifrada. Quero que a sofisticação aconteça pela poesia, pelo ritmo, pela música do texto, em linguagem simples, não empolada. Isso do ponto de vista da escrita. Do ponto de vista da circulação da minha obra, tenho disposição para ir onde meus prováveis leitores e leitoras estão, onde vivem (Cidinha da Silva).
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