Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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22 de out de 2007

Informação é poder

(Entrevista concedida por Rosane Borges à revista Eparrei on Line) "Dona de um currículo invejável,Rosane Borges é a quinta de uma família de seis irmãos, cinco mulheres e um homem. Formada em Jornalismo ,concluiu mestrado e hoje se orgulha do título de doutoranda em Jornalismo e Linguagem pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo. Em entrevista concedida para a Revista Eparrei, a maranhaense de São Luiz revela para as nossas leitoras (es) o seu pensamento . Eparrei-Como você analisa a imprensa negra no Brasil ontem e hoje? -Desde a experiência exitosa da Imprensa Negra paulista nas primeiras décadas do século XX (“O Menelick”, primeiro jornal dessa extração, começa a circular em 1915) até os dias atuais, o que está em jogo é a representação e publicização do negro e de sua história nos veículos de comunicação. Esse é, para mim, o princípio fundante da imprensa negra, ontem e hoje. Agora, obviamente, as estratégias e formas de atuação foram diversas, formatadas de acordo com as contingências sociais e políticas de cada momento. Para a população negra do início do século passado não havia a possibilidade remota dela figurar nas páginas dos jornais para além da imagem pré-fixada do negro, tão bem decantada pelo imaginário brasileiro da época (vadio, vagabundo, insolente, ladrão, desordeiro). Foi preciso a criação de organismos próprios que fossem capazes de promover a identidade étnico-racial, de denunciar e combater o racismo, bem como de divulgar a vida cultural e social da comunidade negra, dar voz aos intelectuais negros (as), servir de orientação psicológica. Como bem pesquisou Clóvis Moura, esse conjunto de periódicos que circulou por cinqüenta anos influenciou significativamente na formação de uma ideologia racial do negro paulista, forjou um estilo de vida, comportamentos, criou códigos morais. Finda a Imprensa Negra paulista no início da década de 1960, tivemos iniciativas episódicas aqui e ali em todo o Brasil. Temos hoje, graças ao aparato tecnológico, listas eletrônicas, sites e portais voltados para a divulgação da questão do negro e da mulher negra. Esses instrumentos não têm o mesmo caráter da Imprensa Negra do início do século XX, mas são motivados pelas mesmas carências (ausência de negros nos espaços informativos e publicitários, desconhecimento dos temas candentes que envolvem as relações raciais etc., etc.). Algumas experiências são dignas de lembrete: temos o jornal “Irohin” - informativo impresso com densidade que consegue articular escritores (as) e articulistas de todo o país; a própria revista de vocês, a Eparrei, que possui uma qualidade editorial inquestionável e abrangência nacional, é outro veículo importante para a tematização de assuntos relacionados à população negra e, especificamente, à mulher negra. Tivemos uma experiência na TV que, infelizmente, malogrou. Trata-se da TV da Gente, do Netinho. A TV foi ao ar durante alguns meses, mas não conseguiu se manter. O grande desafio que ronda profissionais negros (as) da comunicação diz respeito à necessidade e possibilidade de construção de um sistema de comunicação nacional (rádio, TV, jornais e outros tentáculos) capaz de disputar a atenção do público tanto quanto a chamada imprensa convencional. Eparrei - Poderia enumerar algumas propostas para a inserção de profissionais negras na grande mídia? -Essa é uma das bandeiras históricas dos movimentos negros, principalmente das organizações e pessoas diretamente ligadas à comunicação. Foram desenhadas diversas propostas conjuntas ao longo desses anos a respeito e que, a meu ver, são factíveis. Sabemos que a comunicação é uma das esferas importantes de representação social, de produção de sentidos e significados. Os nossos veículos audiovisuais, por exemplo, são moldados por um código estético que de per si exclui ou dificulta o ingresso de profissionais negros (as). A gramática de produção de nossa televisão diz que o “estar bem” / “se sair bem” no vídeo corresponde a um conjunto de atributos estéticos que, normalmente, nós negros não somos portadores. Eu me lembro que quando Heraldo Pereira, repórter da Globo, apresentou pela primeira vez o Jornal Nacional (JN) em novembro 2002, foi um estardalhaço. Jornais impressos e sites divulgaram o feito histórico. Muniz Sodré, intelectual negro de expressivo reconhecimento, chegou a escrever sobre a cobertura do jornal “O Globo”, que dizia que a partir de então Pereira passaria a compor o time de apresentadores do JN. Sodré lembrou que a presença de um profissional negro no vídeo, apresentando um dos informativos de maior audiência tem efeito simbólico, pois quem trabalhou muito tempo na imprensa brasileira sabe que aos negros, quando um ou outro conseguia ser admitido, reservava-se sempre o lugar da cozinha (velha gíria jornalística para tarefas que não requeriam visibilidade pública – como diagramação, revisão, copidescagem etc.). Um redator negro poderia até mesmo ganhar mais do que um repórter branco (Juarez Bahia é um exemplo), mas dificilmente aparecia. Há quem diga que com o encurtamento das funções jornalísticas (copidescagem é uma delas) por força das novas tecnologias, é o profissional negro que é atingido em maior grau com as demissões que se tornaram comuns nas redações. Em relação à mulher negra esse problema se agrava, porque a despeito de nossa participação em funções e cargos considerados privilegiados ter aumentado nesses últimos anos, somos afetadas pelo racismo e pelo sexismo, o que faz nos deixa ainda mais a margem. No que concerne a um eixo temático circunscrito à dita feminilidade também estamos excluídas. A pesquisadora Edna Melo, em dissertação de mestrado sobre “As cores da mulher negra no jornalismo”, nos informa que nas revistas femininas a mulher negra não é mostrada em situação de equilíbrio ou de boa convivência social. Sou favorável às políticas de cotas para profissionais negras da comunicação, aos programas de ação afirmativa somados, é claro, à execução de propostas educativas que visem à alteração do código estético a que fiz referência. É preciso mudar as nossas orientações sobre o feio e o bonito, o certo e o errado, o adequado e o inadequado, visto que elas promovem o que foi chamado por Sodré de semiocído (morte dos símbolos e referências negros). Contamos nos dedos as apresentadoras negras. Eparrei - Qual o maior desafio de ativistas para mudança de comportamento da conjuntura atual presente na grande mídia? Continuo achando que o maior desafio é o combate às práticas discriminatórias motivadas pelo racismo à brasileira, pois a mídia é o espelho da sociedade e vice-versa. Para a mudança desse código estético estável (a maioria dos nossos profissionais televisivos é homem, branca, possui o mesmo sotaque) precisamos ter uma sociedade que seja, de fato, plural em suas representações. Por que achamos comum a parca presença de profissionais negros no “mainstream” da comunicação? Por que a presença de Heraldo Pereira chegou a ser tema de matéria de jornal? Sabemos da importância da mídia para uma mudança estrutural de comportamento a respeito da imagem do negro. Não é à toa que a comunicação junto com a educação figura como um dos principais nexos para a superação do racismo. Somos um povo audiovisual, nos educamos pelo que sai na TV, no rádio, adentramos cada vez mais na rede virtual, o que exige a participação eqüitativa de segmentos historicamente discriminados, a exemplo de negros e de mulheres negras. A nossa participação na mídia (seja do ponto de vista temático, seja do ponto de vista da estrutura ocupacional) é uma base fundamental para a construção de uma nação realmente inclusiva – sonho alimentado por muitas mentes progressistas, que, contraditoriamente, resistem em encarar as desigualdades raciais como o grande entrave para a realização de tal sonho".
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