Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

7 de jul de 2008

Funk carioca: crime ou cultura?

O som dá medo. E prazer. Afirma a autora, a jovem Janaína Medeiros, na capa do livro. Minha primeira impressão foi de que o título da obra, o mesmo deste pôste, fosse apelativo, coisa de jornalista em busca de atenção para a matéria. Qual nada! Eu, fã de funk que sou, da música, da parte eletrônica, principalmente, – aquilo é “som de preto, de favelado e quando toca ninguém fica parado” -, me surpreendi com o processo cruel e insano de criminalização do funk no Rio de Janeiro. Dá medo, coisa orquestrada por demônios. No funk gosto também das meninas, Tati Quebra-Barraco e Deize Tigrona, duas grandes líderes, cada uma com estilo próprio. Gosto de Cidinho & Doca, autores do Rap da Felicidade (Eu só quero é ser feliz/andar tranqüilamente na favela onde eu nasci...) e me intriga a trajetória do polêmico Mr. Catra, talvez o nível de escolaridade mais elevado do funk. Num mundo onde a maioria das pessoas abandonou a escola para trabalhar muito cedo, logo depois de completar as quatro ou cinco primeiras séries, Catra chegou à universidade e desprezou o curso de Direito para ser artista. Foi roqueiro, rapper, até chegar a funkeiro, o Mr. Catra do funk, com muito orgulho. Além disso, empresário e promotor de eventos, gerador de trabalho remunerado pra moçada, direta e indiretamente (vendedores de cachorro-quente, churrasquinho de gato, outras comidas e bebidas, etc). Ah, e canta samba, e faz participações em disco dos Racionais e dos Raimundos. O cara é um liquidificador em pessoa. Faz muitos filhos também, tem doze, com sete mulheres diferentes. Esse é o mundo real. Um mundo que reúne até dois milhões de jovens (pretos e favelados) em cerca de 700 bailes por final de semana na cidade do Rio de Janeiro. Jovens que têm goteira em casa, quando têm telhado, experimentam a ausência de todos os serviços básicos, coisa que a classe média não poderia imaginar o que seja, e que, quando chega o final de semana, não querem falar sobre isto, demonstrar consciência social e política para regozijo nosso. Querem mesmo é colocar a calça apertadinha, no caso das meninas, e a bermuda larga, no caso dos meninos, rebolar bastante (os meninos destrancaram os quadris depois de findos os bailes de briga), soltar a voz e falar de sexo. Fazer sexo também, que ninguém é de ferro. Depois do baile voltam para a vida real. Vai vendo, como diz o pessoal da quebrada. A intenção do livro de Janaína foi “relatar como o funk tem sido criativo e persistente para sobreviver e derrubar preconceitos, apesar da mídia e a sociedade tentarem demonizá-lo e tornar seu público invisível (jovens negros, pobres e favelados). Mesmo sendo ele hiper visível nas ruas, nos pontos de ônibus, nas escolas, nas filas de emprego, nos sinais de trânsito” (p.10). Conseguiu. Numa analogia certeira e fundamentada, Janaína mostra como o samba e o funk sofreram perseguição da polícia quando ganharam notoriedade. Mas também, quais eram (são) os protagonistas de ambos? Nos surpreende com a informação de que mais gente do samba, além do contemporâneo e criativo Ivo Meireles da Mangueira, teve um caso de amor com o funk. Também era admirador do ritmo, o mítico Delegado, mestre-sala maior da verde-e-rosa e do carnaval brasileiro. Ele gostava de funk e chegou a dançá-lo. Dizia que era tudo a mesma coisa, samba e funk. Lembrei-me de Mestre Pastinha que afirmava ser Mestre Bimba (construído como seu principal opositor na concepção filosófica e gestual da Capoeira) tão angoleiro quanto ele. O lendário sambista Candeia também não escondia sua paixão pelo funk, mesmo tendo feito afirmações ideológico-musicais pró-samba em oposição ao funk, em atendimento a pressões do mercado fonográfico. O livro me ajudou a entender também, mais três ou quatro coisas fundamentais: historiou o processo de nacionalização do funk e de distensão com o Hip Hop, principalmente o de São Paulo, a partir do momento em que este incorpora ao seu discurso reivindicações do Movimento Negro e o funk, a seu turno, exacerba letras marcadas pelo escracho, duplo sentido e irreverência. Aprendi que os “bondes” (grupos de funkeiras e funkeiros que se apresentam e competem nos bailes) foram iniciados pelas mulheres, por Deize Tigrona, na Cidade de Deus, e que esses bondes tiveram papel fundamental para promover um modelo de baile no qual a violência foi substituída pela criatividade e pela sensualidade. Teve também papel definitivo nessa passagem da guerra à paz, a criminalização e conseqüente prisão dos promotores dos "bailes de briga" (donos de equipes de som). Os “bailes de briga” (Lado A/Lado B) foram exaustivamente mostrados pelo Globo Repórter da TV Globo, mas sem discutir a responsabilidade pela promoção da praça de guerra que em poucos anos ceifou a vida de dezenas de jovens e causou danos a centenas de outras. Pude entender as principais linhas políticas do funk (esta é a minha leitura politizada da coisa, a autora não adota a expressão): o funk irreverente, com duplo sentido; o funk consciente, com letras sociais e o “rap de contexto”, popularizado no asfalto como “proibidão”. Depois do fim dos bailes de corredor ou de briga, por volta de 1998, diz-nos Janaína que o funk consciente voltou a chamar a atenção da mídia de maneira negativa. “Suas letras faziam relatos de violência e convivência com o tráfico na realidade. E as melodias, muitas vezes, reproduziam o som dos tiroteios – constantes na favela e ouvidos pelos vizinhos do asfalto. Paralelamente, um pequeno segmento de funkeiros passou a produzir funks clandestinos dentro das comunidades, cujas letras exaltam traficantes locais e ridicularizam a corporação policial. Conhecidos como 'raps de contexto', eles têm autoria sempre clandestina e só tocam dentro dos chamados bailes de comunidade. Não demorou até que a imprensa tomasse conhecimento desse filão e o apelidasse de ‘proibidão’. Em pouco tempo, a mídia e a opinião pública puseram o funk consciente e os proibidões no mesmo saco. Isso só contribuiu para reforçar o preconceito contra o funk e o distanciar cada vez mais do reconhecimento como movimento cultural” (pp. 69 e 70). Para se defender das acusações de apologia ao crime, Mr. Catra afrima que: “Ninguém está incitando ninguém. Ninguém vira bandido por causa do funk. O funk é uma crônica. Junto com muito suingue, muita pancada, muita dança, muito suor. O que acontece é que as pessoas ainda não se acostumaram a conviver com a realidade dos outros, tá ligado?” Falou e disse! (Da esquerda para a direita: Tati Quebra-Barraco; Mr. Catra; capa do livro e Deize Tigrona).
Postar um comentário