Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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3 de jul de 2008

"Tinhorão", o conto do Bira!

O conto é “meu”, presente dado pelo autor, contei isso publicamente no www.cidinhadasilva.blogspot.com, dia 27 de junho passado. Tenho também testemunhas nobres e oculares, todas as pessoas que estavam no lançamento do Tambor na cidade do Salvador, com destaque para o parceiro Nelson Maca, para as queridas Luiza Bairros, Janja Araújo, Moema Augel e minha sobrinha mais velha, Ana Pi, que nesses momentos o apoio familiar é fundamental. Tinhorão era “meu” e qual não foi minha surpresa e alegria ao vê-lo postado no Irohin. Surpresa porque descobri que o Mestre é dado a internautices e alegria porque a postagem nas plagas de lá, me libera para postá-lo aqui. Queria tê-lo feito antes, mas não tinha autorização do autor. Agora o texto ganhará o mundo, daqui a pouco estará no sítio do Lima Coelho e ninguém o segurará mais. Deliciem-se com “Tinhorão”, conto de *Ubiratan Castro. "- Lá vem ela! - É Dona Tinhorão! Passo largo, andar firme quase marcial, em um ritmo de competição de marcha-a-pé, lá vem a bicheira mais querida da Saúde e adjacências! Sua estampa é estranhamente bela. Nada tem de masculina ou de feminina. Alta de mais de um metro e oitenta, uma grande cabeça que encimava um corpo reto, seco, qual um pau de vassoura, negra meio fula, com um cabelo rigorosamente espichado a ferro e preso atrás da cabeça, Dona Tinhorão parecia uma figura saída dos filmes de desenho animado. Quando surgiu a Pantera Cor-de-rosa, percebi que se tratava de uma de suas descendentes. Uma criatura direita, todas concordavam. Ela gozava da confiança inabalável de todas as mães de família do bairro. E não era pra menos! Ela manuseava o dinheiro das pequenas apostas e dos modestos prêmios que distribuía. Jamais se ouviu falar de qualquer deslize ou impropriedade cometida por ela. Era absolutamente profissional em seu afazer de agente lotérica. Conversava com suas clientes, sempre mulheres, e jamais circulou nenhum mexerico. Não era nem de levar nem de trazer. Ali ouviu e ali ficou. Em cada janela um sonho e, com a atenção de um foca de jornal, ouvia os mais inusitados relatos de suas clientes, delírios e pesadelos que eram todos traduzidos em prognósticos do jogo do bicho. - Dona Tinhorão, sonhei com um bate-boca horroroso com a vizinha e com o marido dela! - Vá por mim Dona Beata, jogue no cachorro e na cobra. - Dona Tinhorão, tive um sonho que me deixou envergonhada – disse a assanhada da Zezé! Sonhei em um quartel com um bocado de homens nus! - Dona Zezé, que sonho feio! Homem nu parece macaco com o rabo pra frente! Cerque o grupo do Macaco. O jogo do bicho, com uma pessoa de confiança que vinha em domicílio, era uma das poucas válvulas de escape para mulheres oprimidas por maridos, que faziam do controle do dinheiro o mais obstinado mecanismo de manutenção da ditadura familiar. O dinheirinho contado da despesa era cobrado com veemência pelos maridos, que ainda acusavam as mulheres de gastadeiras. Nunca sobrava dinheiro para o que eles não queriam. Tudo em nome da economia e da estabilidade da família. O dinheirinho a mais que cada uma conseguia com uma costurinha aqui, um bordado ali, um docinho acolá, era costumeiramente confiscado pelos maridos para a braminha com os amigos ou para as despesas com o futebol, na Fonte Nova. Os projetos das famílias, especialmente dos filhos, eram por conta das mulheres. Hildebrando era um excelente aluno do Instituto Normal Isaías Alves. Seu ideal era seguir o curso pedagógico em segundo grau para ser professor primário. O pai dele, Seu Zeca, era um proprietário de uma fabriqueta de pisos de marmorite e queria seu filho desde cedo no negócio. Para ele, normalista era coisa de mulher. Disse não às pretensões do filho e, diante dos apelos da mãe, proclamou o seu terrível veredicto: - Corre por sua conta! Muitos foram os sonhos de Dona Miúda, muitos foram os conselhos de Dona Tinhorão, muitos foram os milhares ganhos no jogo do bicho. No dia da formatura, lá estava o Seu Zeca de fatiota nova, orgulhoso do filho professor. Tinhorão não foi convidada porque, bicheira e preta, envergonharia a família. Nem por isso deixou de orgulhar-se por Hildebrando e sempre que passava perguntava: - Dona Miúda, como vai meu sobrinho? - Vai muito bem, Dona Tinhorão, passou no concurso dos Correios e Telégrafos e hoje é o diretor da Agência de Conquista. Depois que o fabrico de Zeca faliu, ele é o arrimo da família. * * * A vida pessoal de Tinhorão era absolutamente desconhecida de suas clientes. Todas diziam que ela era uma “onça”, gostava de agarrar as outras, em português chic, era lésbica. No entanto, nos muitos anos de convivência diária, nunca se ouviu falar de um gesto, palavra ou ato de desrespeito ou insinuação sexual a qualquer de suas clientes. Onde morava, ninguém sabia ao certo. Dizia-se que era no Pelourinho, em um casarão de cômodos conhecido como o Trinta e Seis. Se vivia só ou com alguma criatura, lá isto era um mistério. Para as mulheres, Tinhorão era um exemplo de valentia. Dona Bebé era uma verdadeira fura-roncó(1). Sua vida era freqüentar todos os candomblés e depois espalhar as mais surpreendentes histórias, sempre complementadas com a afirmação: -Eu estava lá, eu vi com estes olhos que a terra fria um dia há de comer! Ela conta uma passagem acontecida em Portão, relatada por uma muzenza do Terreiro São Jorge da Goméia, do finado Pai Joãozinho. Em uma casinha perto do rio Joanes, uma grande jibóia atacou sua filha, uma menina de 7 anos. Ela estava de cama, com febre de 41, quando foi atacada pela bicha. A menina estava em pé na cama. A jibóia enrolava-se nela, indo dos ombros até as pernas, indo e voltando, soltando uma gosma em todo o corpo da infeliz. Diziam os entendidos que a bicha estava lubrificando a sua vítima, para depois dar um garrote fatal que lhe quebraria os ossos, para depois engoli-la. Os homens reuniram-se na porta e na janela do quarto, armados de espingardas e facões e, assustados, discutiam como matar a cobra. Diziam: - Se der uma facãozada, ofende a menina! - Se der um tiro, fere a menina! E a cobra continuava a fazer o seu sinistro trajeto. Tinhorão apareceu e perguntou logo para os homens: - Que qualidade de homens são vocês? Vão continuar na conversa e não vão salvar a menina? Raciocínio rápido, corpo ágil, Tinhorão trepou no guarda roupa ao lado da cama e de cima, quando a cobra fez o trajeto descendente, segurou a menina pelos ombros e sacudiu-a, puxando-a para cima. A cobra escorregou na própria gosma e caiu em rodilha na cama. Aí os homens descarregaram sua artilharia e acabaram com a raça da fera. Se não fosse a coragem de Tinhorão... Entre os homens ela era muito respeitada e temida. Ela jogava uma capoeira retada, digna do mestre Besouro. Dizia-se que nunca usou calçola. Quando dava um aú ou um rabo-de-arraia, ninguém via nada porque a sua “perseguida”(2) era coberta por uma espessa mata de vigorosos pentelhos, mais trançados do que malha de arame. Benza Deus, mulher valente estava ali! Os investigadores de polícia e guardas civis, acostumados a achacar bicheiros e outros contraventores, bem que tentaram botar Tinhorão na sua conta de contribuintes. Certa feita, o guarda Bolinha tentou dar uma prensa para exigir jornal, aquela propina diária, cobrada de cassetete em punho. Ele chegou a puxar um revólver para ela. Pra quê fez aquilo? Levou uma pernada que atirou sua arma para longe, uma bênção bem no meio da caixa dos peitos o deixou sem respiração, com os olhos esbugalhados, e finalmente um rabo-de-arraia o fez lamber o chão do Mercado de São Miguel, na Baixa dos Sapateiros. Pior ainda que, ao esborrachar-se no cimento, mijou-se e borrou-se todo. Que vexame! Perdeu o respeito de vez e passou a ser conhecido como Bolinha Cocô. Assim como surgiu, Tinhorão sumiu. Ninguém sabe se viajou, se morreu, como morreu. Fez muita falta às famílias. Ficou em nossa memória a lembrança de uma pessoa elegante, digna e bela dentro de suas características, e muito valente. *Doutor em História, membro da Academia de Letras da Bahia. (1)Fura-roncó- bisbilhoteira do candomblé. (2)Perseguida- vagina.
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